O que de fato pode revolucionar a educação

      "Esperar que a simples disponibilidade do computador e da internet de 
banda larga na escola deflagre uma revolução na qualidade do ensino é mais 
que ingenuidade"


      Autor: Ethevaldo Siqueira. Fonte: O Estado de S. Paulo. Data: 
22/11/2009.

      A Finlândia oferece à sua população aquela que é considerada a melhor 
educação entre todos os países do mundo. Esse nível de excelência alcança 
tanto a universidade, como o ensino nos níveis médio e primário. Tais 
resultados decorrem, acima de tudo, da qualidade de seus professores, das 
instalações de suas escolas, da adequação de seus currículos, do número de 
horas efetivas de aulas e da seriedade dos processos de avaliação da 
aprendizagem.

      Que bom seria se professores brasileiros pudessem dar um depoimento 
parecido com este que ouvi de um professor de primeiro grau finlandês: "Como 
educador, sou bem remunerado, sinto-me integrante da classe média, tenho 
casa própria, automóvel, sei que terei uma aposentadoria decente e que meus 
filhos poderão estudar nas melhores escolas. A sociedade me respeita e 
reconhece o valor de minha contribuição para o futuro das crianças e jovens 
de meu país".

      Ao visitar a Finlândia no ano passado, minha maior surpresa foi notar 
que suas escolas não revelam nenhuma paixão especial pelo computador ou pela 
banda larga. É claro que seus educadores consideram esses recursos 
tecnológicos importantes, mas afirmam que eles devem ser utilizados na dose 
certa, no momento exato e de modo correto.

      Um dos exemplos desse uso correto é o curso que a escola de nível 
médio ministra a garotos e adolescentes na Finlândia e em outros países da 
Europa, para prepará-los para o uso competente do computador e da internet, 
fornecendo-lhe, ao final, o certificado chamado computer driving license, 
por analogia com a carteira de habilitação de motorista. Seria muito bom que 
as crianças brasileiras dispusessem de cursos periódicos semelhantes.

      Um laptop por aluno?

      Não tenho dúvida de que a maioria das pessoas que defende o projeto de 
Um Laptop por Criança (OLPC, na sigla em inglês One Laptop Per Child) para o 
Brasil e outros países emergentes, são pessoas bem-intencionadas e 
idealistas. Mas basta refletir um pouco mais para se comprovar a fragilidade 
desse projeto.

      Sejamos realistas. A maioria das crianças não poderá levar seu laptop 
à escola sem correr o risco de assalto no caminho, em especial em São Paulo 
e no Rio de Janeiro. Os que conseguirem chegar à escola com a máquina, 
serão, com certeza, tentados a navegar pelos sites mais inadequados durante 
as aulas.

      Nesse caso, o laptop será muito mais um elemento de dispersão da 
atenção do aluno do que uma boa ferramenta de ensino. A experiência 
finlandesa mostra claramente que o computador, quando usado rotineiramente 
em sala de aula, sem critério, não traz nenhum benefício para a 
aprendizagem. Pelo contrário, prejudica o aproveitamento escolar do aluno.

      É claro que muitas escolas poderão oferecer a seus alunos acesso a 
terminais de computadores de uma rede local, com recursos audiovisuais e 
didáticos, para o ensino de geografia, história, matemática, física, 
química, biologia, literatura e outras matérias, a partir de projetos 
pedagógicos bem concebidos.

      Nesse sentido, seria útil e desejável que os garotos aprendessem a 
usar em casa alguns aplicativos para a aprendizagem de certas matérias. 
Conheço pais que usam o Google Earth para ensinar geografia a seus filhos. 
Ou astronomia com um programa tão atraente quanto o Starry Night (Noite 
Estrelada). Na escola, esses e muitos outros recursos de software poderiam 
ser adotados para ilustrar aulas, mas sempre sob estrita orientação do 
professor.

      Não há milagre

      Esperar que a simples disponibilidade do computador e da internet de 
banda larga na escola deflagre uma revolução na qualidade do ensino é mais 
que ingenuidade. Nenhuma ferramenta ou tecnologia tem esse dom mágico.

      Na verdade, a grande revolução educacional que um país pode realizar é 
resultado da combinação de um conjunto de fatores tão conhecidos como: a) 
investimentos públicos prioritários em educação; b) melhor formação e 
atualização do professor; c) remuneração condigna e a perspectiva de uma 
carreira atraente ao educador; d) melhoria constante do ambiente escolar, 
dando-lhe mais segurança e funcionalidade; e) especial atenção à saúde e à 
nutrição dos alunos; f) atualização permanente dos currículos e do material 
didático; g) envolvimento direto da família e da sociedade no problema da 
educação.

      Esse último aspecto me preocupa de modo especial, pois a maioria dos 
pais brasileiros não acompanha de perto a vida de seus filhos na escola, não 
conhece sequer seus professores, nem sabe o que suas crianças fazem na 
internet.

      No Brasil, vivemos um momento paradoxal. Sem realizar nenhuma reforma 
em profundidade da educação no país, o governo federal anuncia um projeto no 
mínimo eleitoreiro: a distribuição de centenas de milhares de laptops e a 
instalação de terminais de acesso de banda larga à internet em todas as 
escolas de primeiro e segundo graus do país.

      Os resultados efetivos desse projeto para a educação serão quase 
nulos. Como sempre, a maioria dos políticos e governantes só pensa em obter 
votos e não está interessada nas melhores soluções para o país.


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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasília/Dept. Ciência da Informação e Documentação
Campus Universitário
Brasília, DF  70900-910 Brasil
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