Fonte: Infoexame (19/02/2010) -
http://info.abril.com.br/noticias/internet/-eu-rompi-com-o-google-18022010-15.shl

Eu rompi com o Google

SÃO PAULO – No dia 18 de fevereiro, um longo relacionamento chegou ao fim.

O rompimento, como todo acontecimento na era digital, não ficou restrito às
partes envolvidas. Os detalhes do fim dessa relação foram publicados na web,
seus links foram repassados, os fatos debatidos e os partidários de cada
lado se armaram de argumentos.

De um lado, Alexandre Oliva, 36 anos, conselheiro Fundação Software Livre
América Latina, engenheiro de Software Livre na Red Hat e Mestre em Ciências
da Computação pela Unicamp.

Do outro, dispensando grandes apresentações, o Google.

Na data do incidente, Oliva postou em seu blog um
manifesto<http://fsfla.org/svnwiki/blogs/lxo/2010-02-14-bye-bye-google.pt.html>explicando
que não confiava mais na gigante das buscas. O motivo? Bem, uma
série de fatores cuja gota d’água foi o Buzz.

No lançamento da rede social integrada ao Gmail, o Google tornou públicas
informações privadas dos usuários. A lista de seguidores era aberta a todos
os seus contatos, que podiam ver com quem o usuário se relacionava antes
mesmo deste aprovar ou não. O fato causou problemas, por exemplo, a
jornalistas que tiveram suas fontes expostas.

A atitude de Oliva, que deletou todas as contas que tinha no Google
(inclusive orkut e Gmail) repercutiu na rede, e ele passou a receber e-mails
e comentários pedindo conselhos de como seguir o mesmo caminho (que ele
responde no próprio post) ou criticando seu “rompimento” com a empresa.

Vale ressaltar que, como todo término de relacionamento longo, este não foi
completo: Alexandre Oliva ainda usa o serviço de buscas do Google – mas,
como qualquer um já desconfiado das atitudes do parceiro, o faz com algumas
ressalvas.

À INFO, ele explicou melhor sua decisão.

*INFO – Qual foi exatamente o motivo?*

ALEXANDRE OLIVAS –A divulgação de informação de forma tão impositiva. Toda a
seriedade que eles demonstravam foi por água abaixo. Não tenho certeza se
isso não foi feito intencionalmente... Mas se não foi, é preocupante também.
Se ninguém pensou nas conseqüências disso, imagine que outros acidentes
poderiam acontecer? Independente do que causou isso, não dá mais para
confiar.

*Por que o Google liberaria intencionalmente essas informações?*

Questão de mercado. No mundo das aplicações de relacionamento, o Google está
muito atrás e vem tentando aumentar sua participação. Se ele quer conquistar
um espaço, ele pensa: “como a gente faz isso, como a gente conquista? Ah,
vamos publicar a informação”. Me parece um pensamento muito natural.  Agora,
a outra opção é se ninguém pensou: “essa informação é pessoal”. Tem muitas
pessoas inteligentes trabalhando lá e é assustador concluir que
provavelmente alguém pensou, mas as razões mercadológicas prevaleceram.

*Você se sentiu prejudicado de alguma forma?*

Eu não tive prejuízo algum, mas outras pessoas perderam e outras pessoas
poderiam ter perdido. Eu não estou reagindo a algo que perdi, estou apenas
evitando que eu possa perder. Eu não tinha um profile no Google, mas tinha
uma conta do Gmail que eu acessava só através da interface iMap e, quando
fui entrar pela página oficial, já automaticamente entrei no Buzz. Não tinha
opção. O Google corrigiu depois parte dos problemas, como a publicação
automática, a possibilidade de filtrar, a possibilidade de não entrar no
serviço (se entendi direito), mas ainda há problema. Segundo ouvi dizer
(pois agora não tenho mais acesso), os contatos que você escolhe publicar
são apresentados na ordem que você mais conversa com eles. Por mais que isso
não seja um grande problema, é esquisito, é um desrespeito.

*Isso te lembra aquele episódio do orkut, quando habilitaram a ferramenta
que permitia saber que acessou a sua conta? Liberaram essa ferramenta da
noite para o dia, e as informações ficaram expostas sem perguntar antes...*

É um pouco diferente, porque ele expôs uma ação que você tomou. Acho que o
que aconteceu agora foi mais sério, porque ele publicou algo sem ninguém
fazer nada.

*Você não usa mais nenhum serviço do Google?*

Me dei conta outro dia de que meu navegador ainda usa buscador do Google,
ele ainda manda os biscoitinhos para o meu navegador, mas isso está
bloqueado: ele não vai ser capaz de rastrear. Logo, eu não estou dando
informações, ele não sabe quem vai fazer as buscas, o que é uma exposição
muito menor.... Ainda não tenho porque não usar o buscador Google.

*Sua decisão teve a ver com a invasão das contas do Gmail de ativistas
chineses? *

Não teve, mas poderia ter tido. A questão é que um erro pode acontecer. O
pessoal atacou o Google nessa ocasião. Acidentes aconteceram, como quando
documentos privados do Google Docs apareceram nas buscas. Isso foi um erro,
é impensável que tenham feito isso de propósito.

*Você tinha muitas informações no Google?*

A minha relação com o Google não era de confiança absoluta. Eu já tinha
cópias de tudo; o calendário eu já nem usava: tinha uma aplicação livre, no
meu computador, e não expostas para sabe Deus quem ver. Já vinha dando
passos para não querer depender disso. Agora, para que eu vou correr o
risco?

*Você recebeu muitos comentários?*

Tem bastante gente postando, divulgado. Houve muita discussão na lista do
projeto Software Livre Brasil, muita gente mandou e-mail pedindo dicas de
como dar os mesmos passos... Conheço pessoas que trabalham no Google,
ponderando se não foi uma reação exagerada.

*E foi exagerada?*

**

Eu consigo entender que uma pessoa tome a decisão de continuar usando o
Google por achar que não tem problema nenhum. Se você entende o risco, se
você está predisposto a correr esse risco... Não estou dizendo a ninguém
para deixar de usar o Google. Estou dizendo apenas: “eu deixei de confiar”.

*Mas você aconselha as pessoas a fazer o mesmo...*

Não estou dizendo “parem porque é do mal”, mas estou dizendo “pesem nisso”.
Tudo o que ele oferece eu consigo de outras fontes, ou faço. Mas quem
quiser, use o Google. Sou contra  algumas aplicações e serviços (como Google
Docs, que usa muitos softwares que não são livres no seu computador e você
não tem a menor idéia do que acontece), mas e-mail, comunicação
instantânea... Use, mas entenda. Não pense “que legal, posso confiar
plenamente”, como um monte de gente confia no Facebook e não é bem assim.

*Por que você mencionou o Facebook?*

Teve um funcionário que deu uma entrevista dizendo que lá era uma zona, que
todo funcionário tem acesso à base de dados, que consulta informações
pessoais....

*Você tem uma formação na área de informática. Acha que é possível para
pessoas leigas seguirem esse caminho?*

Sugeri um monte de alternativas para tudo o que eu fazia. As pessoas podem
fazer sozinhas, instalar softwares, aplicativos... Existe todo um mito de
que é difícil, mas não é bem assim.

*Você já teve algum problema com privacidade exposta na web?*

Olha, eu tomo cuidado. Outro dia minha gerente do banco pediu minha
declaração de imposto de renda. Não mandei e, alguns dias depois, recebi um
e-mail dela com documentos particulares de um outro cliente com o mesmo
primeiro nome que eu. Não foi de propósito, mas aquilo nem era para sair do
banco. O que as pessoas não entendem é que isso não é um cuidado novo:
quando era pequeno, meus pais ensinavam a não sair por aí dando o endereço
para qualquer um na rua.
-- 
Um abraço.
Ailton Feitosa
[email protected]
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