Livro interativo limita capacidade de imaginação
Autora: Marina Lang.

Fonte: Folha de S. Paulo. Data: 3/06/2010.

 

Um livro que fala, canta, tem ilustrações animadas e tecnologia 3D. Há dez anos 
essas características seriam fantasia de filmes de ficção. Mas, daqui a outros 
dez, elas devem vigorar --e com a força total de um mercado em expansão. O 
livro digital multimídia --que compila outros atrativos além da leitura 
trivial, como dublagem e animações-- mal começou a ser desenvolvido na rota do 
mercado e, mesmo assim, já foi alvo de críticas pela possível subtração da 
capacidade imagética dos leitores. A opinião é compartilhada por Juergen Boos, 
diretor da Feira do Livro de Frankfurt, um dos maiores eventos mundiais 
voltados ao segmento, que ocorre anualmente na Alemanha. Em entrevista à Folha, 
Boos fala da limitação que o e-livro multimídia traz à imaginação do leitor. 
Mas acrescenta: "para livros profissionais ou de não-ficção, isso pode ser uma 
tremenda vantagem".

FOLHA - Pesquisas recentes mostram que o leitor não quer pagar por conteúdo 
on-line, e que até deixaria de ler algumas publicações, caso elas optassem por 
esse caminho. O que o senhor pensa a respeito disso?

JUERGEN BOOS - A cultura do gratuito que existe on-line se tornou um problema 
existencial para pessoas e instituições que vivem da produção e exploração da 
propriedade intelectual. Consideramos nossa responsabilidade transmitir o valor 
real da propriedade intelectual para os usuários, para que também haja uma 
disposição de pagar por conteúdo on-line em um futuro próximo. Em qualquer 
caso, é necessário chegar a uma solução o mais rápido possível, em que tanto 
provedores de conteúdo quanto usuários possam coexistir. Isto significa que 
editoras vão ter que experimentar mais e mais modelos com novo pagamento no 
futuro --por exemplo, pay-per-view, publicidade ou conteúdo exclusivo.

FOLHA - Dentro dessa perspectiva, qual o futuro dos direitos autorais no 
mercado editorial?

BOOS - Editoras do mundo todo estão perdendo bilhões de dólares em vendas 
devido à pirataria --e a maior prioridade é o controle deste problema, 
encontrando uma solução que seja adequada para editores e fornecedores de 
conteúdos. A proteção de conteúdo é sempre central, independentemente do meio 
ou a forma em que ele é transmitido.

FOLHA - O senhor acha que o modelo Creative Commons oferece um tipo de vantagem 
financeira para a indústria editorial? 

BOOS - O Creative Commons é uma abordagem interessante, na minha opinião. No 
passado, autores concediam seus direitos à editora --e ela tentava explorar 
toda a gama de direitos. Hoje, o autor concede os direitos de edição da cópia 
de seu livro para a editora de livros tradicionais, os direitos de um audiobook 
a uma editora de audiolivros, os direitos de e-books para a Amazon ou outra 
plataforma. Em outras palavras, o negócio de direitos está se tornando cada vez 
mais fragmentado. Em geral, o negócio está produzindo mão-de-obra com mais 
intensidade, e as partes envolvidas devem conversar entre si com mais 
frequência. Não faz muito sentido a concessão de direitos de uso diferentes 
para diferentes conteúdos. Mas os editores, sem dúvida, vão colher menos 
benefícios financeiros a partir deste modelo; no lugar disso, os autores vão 
ganhar vantagem. 

FOLHA - O que o senhor pensa sobre o iPad? O que ele representa para o mercado 
editorial?

BOOS - O iPad é um dispositivo fascinante. O que eu acho problemático, no 
entanto, é o fato de que se trata de um sistema fechado, que não permite a 
troca com outros sistemas. Assim, estou certo que muitos mais dispositivos 
aparecerão no mercado nos próximos meses, que serão comparáveis ao [sistema do] 
iPad em termos das suas funções de multimídia, e que vão criar concorrência. Em 
princípio, não existem limites para esse desenvolvimento, e estou realmente 
ansioso para ver quais os produtos que vão surgir nos próximos meses.

FOLHA - O senhor acredita no conceito dos livros multimídia que incorporam 
animação, gráficos, narração e interatividade?

BOOS - O e-book ainda está nas fases iniciais de desenvolvimento, e oferece 
inúmeras possibilidades. A integração de fotos, animações e outros elementos 
interativos será certamente um aspecto que fará com que esta mídia seja 
particularmente atrativa no futuro. 

FOLHA - Dentro desse conceito, o senhor crê que os leitores possam perder sua 
capacidade de criar suas próprias imagens e construção narrativa na leitura de 
livros multimídia?

BOOS - Quando eu leio um romance, a minha imaginação embarca em uma jornada. Eu 
imagino como um personagem deve se parecer, a figura definida do personagem e 
que tipo de voz que ele ou ela possa ter. Eu fico total e completamente imerso 
na história. O e-book multimídia impõe limites para minha imaginação, desde o 
início, porque eu sou abastecido com imagens precisas. Por outro lado, para 
livros profissionais ou de não-ficção, isso pode ser uma tremenda vantagem. Mas 
espero sinceramente que a nossa capacidade de explorar o poder de nossa 
imaginação, como um resultado [da leitura], não se perca por completo.

FOLHA - Com dispositivos digitais, o custo do livro reduz drasticamente. Sob 
esta ótica, qual a perspectiva para o mercado editorial?

BOOS - Não ocorre, necessariamente, a situação de que a produção de um e-book é 
substancialmente mais barata do que um livro impresso. Sim, o processo de 
impressão não faz parte da equação, mas o processo de produção de um e-book é 
mais complexo, pois ele deve ser preparado de forma completamente diferente. 
Acima disso, na Alemanha existe o problema adicional do preço fixo do livro [a 
regulamentação alemã exige que todos os livros, digitais ou não, sejam vendidos 
sob mesmo preço; descontos são ilegais no país]. Exatamente como os preços dos 
e-books devem ser determinados já é objeto de intenso debate na indústria. 

FOLHA - Existe a possibilidade de ocorrer a supressão do livro impresso?

BOOS - Quando o audiobook chegou no mercado, as pessoas também pensaram 
inicialmente que eles iriam substituir os produtos impressos --mas eles se 
revelaram complementares. Estou convencido de que o livro impresso não morrerá, 
mas que o livro eletrônico vai se tornar um componente adicional e substancial 
da nossa socialização por meios de comunicação --como foram antes o rádio, a TV 
e a internet.

FOLHA - Qual o panorama atual das vendas de livros eletrônicos?

BOOS - Um estudo recente sobre os e-readers prevê que haverá cerca de 50 
modelos no mercado em 2010. Com base em estimativas conservadoras, o número de 
leitores eletrônicos vendidos na Alemanha, em meados de 2011, será em torno de 
170 mil. E cerca de 65 mil livros eletrônicos foram vendidos nos primeiros seis 
meses de 2009 na Alemanha. Os números são simples. A partir deles, podemos 
deduzir que a demanda do cliente sobre a informação está aumentando, mas a 
vontade de comprar ainda é pequena. No entanto, tudo pode mudar em breve. Com 
relação ao Brasil, infelizmente, não há dados disponíveis no mercado. Será 
muito interessante observar o desenvolvimento desse mercado aí.

FOLHA - O que o senhor pensa a respeito da criação de um formato padrão para 
arquivos de e-book?

BOOS - Os usuários não querem sistemas fechados --caso eles tenham boas 
alternativas. Por isso acho que um formato padrão e-book será estabelecido a 
longo prazo --como foi o caso da indústria da música com o formato MP3, por 
exemplo. Qual será esse formato é algo que ainda está sendo visto.

=============
Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasilia
Faculdade de Ciência da Informação (FCI)
Brasilia, DF 70710-900 Brasil
Blog: http://a-informacao.blogspot.com/
_______________________________________________
Arquivos da Bib_virtual: http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/
Instruções para desiscrever-se por conta própria:
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/options/bib_virtual
Bib_virtual mailing list
[email protected]
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/listinfo/bib_virtual

Responder a