Google deixa pessoas mais inteligentes, diz Don Tapscott

Autor: Célio Yano 

Fonte: Exame. Data: 9/06/2010.

O empresário canadense Don Tapscott, escritor e consultor especializado em 
estratégias de negócios, é otimista em relação ao impacto das novas 
tecnologias. Em palestra realizada hoje em São Paulo, ele definiu a chamada 
Geração Y (jovens nascidos a partir de 1980 e cresceram em meio a era digital) 
como a mais inteligente, mais capaz e responsável por uma revolução na economia 
e no comportamento global. E contestou a ideia defendida pelo americano 
Nicholas Carr, um dos pensadores mais influentes do mundo na área de negócios e 
tecnologia da informação, de que o Google estaria deixando as pessoas "mais 
burras".

Tapscott discursou nesta tarde na 20ª edição do Congresso e Exposição de 
Tecnologia da Informação das Instituições Financeiras (Ciab), promovida pela 
Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Carr também fará palestra no mesmo 
evento, só que nesta quinta-feira (10), de modo que os dois acabaram não se 
encontrando. "O que os jovens buscam no Google são fatos, datas, nomes. Mas a 
internet fez com que essa geração pense de forma diferente, em 'multitarefa'", 
defende Tapscott.

Muita coisa está mudando no mundo com a chegada da Geração Y - que o canadense 
prefere chamar de Geração Net - ao mercado de trabalho. "Pela primeira vez na 
história, crianças e adolescentes passaram a ser consideradas autoridade em 
algum assunto, a saber mais do que os professores, do que os pais", diz. Ele 
citou diversos exemplos de jovens que conheceu há alguns anos para ilustrar sua 
tese, como uma menina que não lê jornal porque "só é atualizado uma vez por 
dia", uma adolescente que considera o e-mail ultrapassado diante de mensageiros 
instantâneos e redes sociais, e um garoto que dá aulas sobre internet e 
computadores para seus professores. "Certa vez fui fazer uma palestra em uma 
reunião da Felaban [Federação Latino Americana de Bancos], em Bogotá, e 
apresentação deu problemas. Pedi para falar com o responsável pela tecnologia 
do local e, em meio a um monte de equipamentos de ponta, estava um menino de 13 
anos", contou o palestrante para abrir sua sessão.

Tudo isso, segundo ele, indica uma mudança de paradigma que deve ser levada em 
consideração pelas empresas para se adaptar a um novo mercado consumidor e um 
novo perfil de trabalhador. "Quando eu era criança, a única opção que tinha ao 
chegar em casa era assistir tevê. As crianças da Geração Net lidam desde 
pequenas com o computador e a internet, meios que pressupõem colaboração e 
compartilhamento". Além dessas duas palavras-chave, Tapscott lista 
transparência, interdependência e integridade como os cinco princípios que 
devem reger a indústria. "A crise financeira mundial por que passamos em 2008 
está diretamente ligada a isso. Faltou aos bancos norte-americanos integridade, 
transparência com os clientes", afirma.

Para ele, nos Estados Unidos, as empresas ainda não se adaptaram ao 
comportamento da nova geração por ter a população muito concentrada em faixas 
etárias mais elevadas, acima dos 30 anos. Ainda assim, ele credita aos jovens à 
eleição de Barack Obama ao cargo de presidente do país. "Isso mostra que a 
Geração Net não está alienada; ela tem inclusive um espírito cívico mais 
avançado", diz.

A vontade de participar de comunidades se reflete no crescimento de ferramentas 
colaborativas na internet, segundo o escritor. É o que justificaria o 
distanciamento cada vez maior do YouTube, em termos de audiência, em relação ao 
site da MTV dos Estados Unidos; do Facebook contra o Match.com; da Wikipédia 
diante da Encyclopedia Britannica, do Flickr em relação à Kodak Gallery; do 
Blogger contra a CNN; do Huffington Post diante do New York Times.

Assim, o marketing é afetado a medida que os consumidores querem participar 
mais ativamente das atividades das empresas, e os ingredientes para o sucesso 
de uma marca deixam de ser os 4 Ps [Product, Price, Promotion e Place]. "Ao 
invés de produto, o consumidor busca experiências; o lugar não é mais 
importante, a empresa precisa estar em todo lugar; o preço deve ser descoberto 
em uma interação com o cliente; a promoção deve ser substituída pelo 
engajamento; e surge ainda um quinto elemento, que é a marca", diz Tapscott. A 
marca, ele ressalta, não é apenas uma imagem, mas um conceito que representa a 
empresa e que deve estar baseada no princípio da integridade. "Não procure 
apenas reter clientes: é preciso engajá-los".

O guru defendeu ainda que, seguindo essa linha, em meio à interação social e a 
colaboração, a geração atual de jovens deixa de separar trabalho de lazer. 
"Para eles, trabalho é igual a colaboração, que é igual a aprendizado, que é 
igual a diversão. Tudo isso pode ser realizado ao mesmo tempo", afirma. Nesse 
sentido, Tapscott considera um erro empresas proibir seus funcionários de usar 
redes sociais. "Se você proíbe seus empregados de usarem o Facebook, elas irão 
para o MySpace", diz. Para os que associam internet e redes sociais a problemas 
como falta de produtividade e até aumento no número de estudantes que não 
concluem a faculdade, ele é categórico: "Há diversos outros fatores envolvidos. 
A culpa não é da tecnologia".

Tapscott é autor ou co-autor de 11 livros que tratam da influência das novas 
tecnologias na dinâmica dos negócios, entre eles o bestseller "Wikinomics: How 
Mass Collaboration Changes Everything", que sugestivamente tem o último 
capítulo aberto na internet para ser editado de forma colaborativa. Em 
setembro, ele deve lançar sua próxima obra "MacroWikinomics: Rebooting Business 
and the World".

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasilia
Faculdade de Ciência da Informação (FCI)
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