Autor: André Borges.

Fonte: Valor Online.

Data: 28/06/2010.

Já existem locais especializados em cuidar do vício. O Hospital das Clínicas de 
São Paulo (HC) criou há três anos e meio o seu Centro de Estudos de Dependência 
da Internet. De lá para cá, o serviço atendeu mais de 200 pessoas com sérios 
distúrbios comportamentais devido ao uso desregrado de equipamentos 
tecnológicos.

"O que tem nos surpreendido é que a maior parte dos pacientes tem mais de 18 
anos", diz o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, responsável pelo centro. 
Entre os casos tratados no HC está o de uma paciente de 65 anos de idade que 
passava o dia inteiro de frente para o PC, enviando e recebendo e-mails. "Ela 
simplesmente não conseguia largar o micro e recebia cerca de 2 mil mensagens 
por dia", comenta Abreu. Outro paciente, um adolescente, chegou a ficar 45 
horas ininterruptas de frente para o PC - sem dormir ou ir ao banheiro - 
simplesmente porque queria bater recordes de um jogo.

A dependência digital, diz Abreu, tinha de ser tratada como questão de saúde 
pública. A preocupação de quem estuda o tema é de que, em pouco tempo, o país 
tenha um exército de dependentes.

As estimativas indicam que cerca de 10% da população navegue na internet de 
modo exagerado no Brasil. Isso equivale a mais de 6,7 milhões de pessoas. O 
brasileiro, por perfil, já é um usuário de risco. Há muito tempo o Brasil detém 
o 1º lugar entre os países que permanecem mais tempo conectados na rede. Em 
maio, segundo o Ibope Nilsen Online, o tempo médio que o internauta brasileiro 
ficou conectado foi de 46 horas e 50 minutos. Nos Estados Unidos, essa média 
não chegou a 38 horas. No Japão, atingiu pouco mais de 31 horas. "Se você 
pensar na nova legião de usuários que o país terá, principalmente a partir dos 
celulares, esse cenário fica mais preocupante."

O vício na internet e em equipamentos tecnológicos ainda não é um tipo de 
transtorno com diagnóstico reconhecido oficialmente pela Organização Mundial da 
Saúde (OMS), diz Abreu, mas isso deverá mudar em breve. "Uma série de pesquisas 
e artigos sobre esse tema tem sido publicada. A dependência tecnológica deverá 
ser reconhecida pela OMS em 2011."

Iniciativas como o do HC em São Paulo começam a ser testadas em outras cidades, 
como Rio e Porto Alegre. Pela internet, o HC oferece uma série de informações 
sobre o tema, recebe inscrições de pacientes e oferece um teste detalhado para 
que a pessoa verifique como anda seu relacionamento com a tecnologia.

Abreu acaba de escrever um livro sobre o tema. Batizado de "Internet addiction" 
(Vício em internet, na tradução livre), o manual clínico tem a coautoria da 
americana Kimberly Young, médica especialista no assunto. Destinado a 
profissionais de saúde, o livro será publicado até o fim deste ano no Brasil e 
nos Estados Unidos. "Falta médico especializado nesse tipo de tratamento. O 
objetivo dessa publicação é dar um suporte científico ao assunto", diz Abreu.

Suporte científico, de fato, é o que está faltando. Recentemente, na China, 
onde o assunto é considerado "desordem psicológica" similar ao alcoolismo, o 
dono de um centro de reabilitação foi detido após a denúncia de maus tratos e 
tortura a pacientes. O local chega a usar eletrochoque para "tratar" seus 
internados.

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasilia
Faculdade de Ciência da Informação (FCI)
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