Bibliotecas devem evoluir na web
  07/07/2010 | 
  Breno Pires 
  Jornal do Commércio (PE) 

Convergência de mídias e novos dispositivos de acesso ao conhecimento, como 
e-readers, exigem mudanças na forma de sistematizar conteúdo

As possibilidades de acesso à informação trazidas pelas novas tecnologias de 
informação e comunicação estão modificando de forma radical a relação das 
pessoas com a leitura e o conhecimento. O acesso aos mais diversos conteúdos é 
potencializado através da pesquisa em sites, especializados ou não, de qualquer 
lugar do mundo, bem como de livros virtuais (os e-books), com crescente 
disponibilização para download e agora portáteis graças a aparelhos como o 
Kindle.

A oferta de leitura e de conhecimento passa a ter um alcance sem precedentes, e 
o consumo de informação também se expande, até devido ao cuidado crescente com 
educação, que passa a ser levada mais a sério nos países que ainda não são de 
primeiro mundo. Nesse contexto, as bibliotecas percebem a importância de uma 
evolução rumo a um futuro mais digital - sem deixar, no entanto, que a 
tecnologia comprometa a sua essência.

O futuro do conhecimento está na internet, como plataforma, defende o professor 
e pesquisador Marcos Galindo, coordenador do departamento de ciência da 
informação da UFPE, que congrega os cursos de biblioteconomia e gestão da 
informação. "O rio corre para o mar, e o mar da gente hoje é a internet. O mar 
da biblioteca e do conhecimento está na internet", pontua.

No Laboratório de Tecnologia da Informação da UFPE (Liber), Galindo coordena um 
projeto de digitalização de arquivos, norteado por dois eixos fundamentais: a 
preservação de conteúdos e a disponibilização para o acesso na rede. "O que a 
gente tem pensado para isso é desenvolver projetos que combinem a preservação e 
o acesso à biblioteca pública. Não se pode pensar em uma iniciativa de 
modernização nas bibliotecas com uma ação conservadora", diz o pesquisador.

Galindo é um entusiasta do poder de multiplicação da internet. "Antigamente, a 
gente guardava a informação. Se um livro era raro, você guardava ele. As 
pessoas se ufanavam de possuir coisas raras. Hoje, ao contrário, as pessoas se 
ufanam quando dão acesso. Observe que as bibliotecas têm milhares ou milhões de 
acessos. Quanto mais acesso você tem, mais gente está visitando, mais o que 
você faz tem sentido."

Para o especialista em gestão da informação, mais do que a plataforma em que o 
conteúdo é oferecido, o fundamental é que seja mantida a função social das 
bibliotecas, isto é: guardar conhecimento, recuperá-lo, levá-lo para a 
sociedade, gerar novos conhecimentos e preservá-los num sistema de informação 
para gerações futuras. Por isso ele entende que as bibliotecas existentes na 
web são como quaisquer outras bibliotecas, só que com um grau maior de evolução 
tecnológica. "Qual é a diferença entre o Google e aquela biblioteca de cinco 
mil anos atrás, feita em tabuletinha, em Nínive, na Mesopotâmia, onde hoje é 
Bagdá? Para mim, é só a tecnologia. Biblioteca digital é uma biblioteca", 
interpreta Galindo.

Regina Fazioli, coordenadora da Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São 
Paulo (BVSP) e consultora em gestão do conhecimento, entende que as bibliotecas 
físicas têm que adaptar a própria atuação para atender melhor às necessidades 
das pessoas. "Penso que as bibliotecas públicas estão ficando para trás. Elas 
não estão alcançando as pessoas para fora de seus muros. É importante não ficar 
restrito aos espaços físicos", diz.

Fazioli defende a utilização de ferramentas antenadas com a nova era do 
conhecimento, em desenvolvimento. Esse é um dos preceitos que guiam o trabalho 
da BVSP (veja matéria abaixo). "A biblioteca física deve se preocupar com 
outras instâncias da transferência de informação, como forma de potencializar a 
sua vocação de centro de informação, construção de conhecimento e vivência", 
aponta.

Em Pernambuco, o projeto Sesi Indústria do Conhecimento, que tem abrangência 
nacional, promove a implantação de centros multimídias que oferecem à população 
pesquisa e prática de leitura em diversas mídias. São dez as unidades no 
Estado, e outras quatro estão por vir.

Coordenador do projeto, Leonardo Roque destaca que as novas tecnologias, apesar 
de promoverem mudanças na relação das pessoas com a informação, não ameaçam o 
futuro das bibliotecas comuns. "Sou da opinião que, embora a tecnologia vá 
provocar profundas mudanças na forma como as bibliotecas prestam seus serviços, 
unidades tradicionais ainda serão necessárias ao desenvolvimento humano", 
afirma.

Roque, no entanto, destaca que não se trata apenas de tecnologia. É preciso que 
os profissionais estejam preparados para relacionar as diferentes 
possibilidades de acúmulo de conhecimento. "Enquanto a tecnologia encanta com 
seus recursos e visual hi-tech, precisamos apresentar os livros como 
instrumentos que abram portas para novas aventuras e oportunidades e não só 
como materiais meramente didáticos e para estudos", defende.

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasilia
Faculdade de Ciência da Informação (FCI)
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