Baixar livros na internet é uma das principais formas de acesso à cultura e a 
publicações pela juventude brasileira
  16/07/2010 | 
  Silvia Pacheco 
  Correio Braziliense 


Pesquisa mostra que cerca de 5 milhões de pessoas leram cerca de 7 milhões de 
obras na telinha, em 2008

Desde 1995, quando a world wide web se popularizou, o mundo começou a passar 
por mudanças comportamentais em uma velocidade cada vez mais crescente. Novos 
hábitos surgiram para transformar e aproximar sociedades, e uma delas, em 
particular, a digital, vem se tornando cada vez mais sofisticada e responsável 
por uma espécie de nova ordem mundial. A comunicação, é claro, está entre as 
áreas mais atingidas por essas modificações, e se processa a cada dia mais 
rápida e eficiente. Passados 15 anos, a internet continua a ditar novos hábitos 
e, agora, está fazendo com que os livros saiam do papel e saltem para a telinha 
do computador.

Mas isso não significa que eles irão sumir das estantes e da biblioteca - pelo 
menos por enquanto. "Acreditamos que o livro digital pode universalizar ainda 
mais a leitura", disse Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do 
Livro (CBL). Segundo ela, a tecnologia deve ser encarada como mais uma 
alternativa de acesso à leitura, em que o livro digital seja pensado também na 
sua capacidade de atingir pessoas que convivem com a tecnologia. "O contingente 
de pessoas com acesso à internet e à tecnologia é grande, principalmente entre 
os jovens. A entrada do livro digital na vida das pessoas é irreversível", 
sentencia.

A cultura digital e suas tecnologias têm permitido a digitalização de imagens, 
documentos, artigos, entre outros produtos da criação humana. Isso tem crescido 
de uma forma espantosa nos últimos cinco anos, muito em função do barateamento 
da tecnologia, que permite a difusão da informação. Além disso, projetos 
estruturantes de digitalização de acervos povoaram a internet. Com isso, 
pesquisadores, professores, estudantes e curiosos passaram a ter acesso a obras 
significativas. Um exemplo dessa preciosa oportunidade é a Biblioteca 
Brasiliana (1) de Obras Raras da Universidade de São Paulo (USP).

Lá estão disponíveis para baixar em seu micro obras importantes, como a 
primeira edição de Viagem ao Brasil, o livro do viajante alemão Hans Staden, 
que esteve duas vezes na recém-descoberta colônia portuguesa, publicado no 
século 16, na Alemanha e Cultura e opulência no Brasil, de 1711, assinada pelo 
padre italiano João Antônio Andreoni. Ele foi um dos três jesuítas que 
acompanharam o padre Antônio Vieira à Bahia, em 1685. O livro é considerado um 
dos primeiros tratados sobre economia do Brasil colonial - só existem três 
exemplares no país. "É importante frisar que a tecnologia é ferramenta de 
conhecimento. Portanto, ela tem capacidade de despertar o interesse de quem não 
tem hábito pela leitura", salienta Rosely.

Maiara Cristina da Fonseca, 24 anos, é uma jovem mergulhada na cultura digital. 
A estudante garante que foi por conta da internet que se interessou pela 
leitura. Maiara tem um blog que usa como diário e lá coloca seus pensamentos. 
"As pessoas comentam. Muitas citam frases e textos de autores que me deixam 
curiosa e fazem com que eu corra atrás de quem os escreveu. Faço a busca e 
acabo me deparando com as obras do autor. Foi dessa forma que li quase todos os 
livros de Machado de Assis, pela internet, claro", relata. Hoje, a jovem 
costuma baixar, pelo menos, três livros por semana. "Os que não dá, compro nas 
livrarias digitais. Em dois cliques, o livro tá lá na minha mão (sic). É mais 
prático, não saio de casa e não contribuo para o desmatamento", conclui.

Educação
Mesmo com a curiosidade aguçada pela interatividade promovida na internet, a 
educação ainda é a melhor forma de estimular a leitura. Segundo Pedro Luiz 
Puntoni, professor de história da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador 
do projeto Biblioteca Brasiliana Digital de Obras Raras da instituição, o 
professor executa um papel fundamental em termos de estímulo. "É na sala de 
aula que o aluno adquire o hábito de ler, com o professor provocando 
discussões, sugerindo leituras para gerar o debate", analisa.

Foi dessa forma que Morvan Rodrigues, de 31 anos, chegou à leitura digital. 
Mesmo adepto da internet há 12 anos, foi na sala de aula que o publicitário 
adquiriu o hábito da leitura digital. "O professor dissecava os textos nas 
aulas e eu buscava o autor na internet. Como trabalho no computador, isso fez 
com que eu descobrisse outras obras e baixasse para ler", conta. Morvan tem 
cerca de 30 livros em sua biblioteca digital e se diz um entusiasta desse novo 
hábito. "Nas bibliotecas digitais há milhões de livros on-line que eu posso 
ler. Um artigo publicado hoje do outro lado do mundo, por exemplo, tenho acesso 
quase que instantaneamente", comemora Rodrigues.

1 - Preciosidades
A Biblioteca Brasiliana de Obras Raras nasceu do espólio do empresário José 
Mindlin, leitor voraz e apaixonado por literatura. Em uma das salas da 
biblioteca, que faz parte do sistema USP, os livros são do século 19, todos de 
literatura brasileira. Lá estão quase todas as primeiras edições das obras de 
Machado de Assis. Há ainda as primeiras edições dos dois romances mais lidos no 
século 19: O guarani, de José de Alencar e A moreninha, de Joaquim Manuel de 
Macedo. Na Biblioteca Brasiliana Digital, o tempo dá um salto: o visitante pode 
conhecer um robô que lê 2,4 mil páginas por hora.

» Plataforma do saber virtual
Morvan afirma que aprendeu em sala de aula a gostar da leitura digital
Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Observatório do 
Livro e da Leitura, em 2008, mostram que mais de 4,6 milhões de brasileiros já 
liam livros digitais na época. O levantamento também indicou que 7 milhões de 
pessoas têm o costume de baixar livros gratuitamente pela internet no Brasil. 
"Com o desenvolvimento dessas novas tecnologias, não tem muito como escapar 
desses novos suportes de leitura. Boa parte da juventude de hoje lê mais pelo 
computador", constata Puntoni.

O professor afirma que a cultura digital democratiza e difunde a informação, 
principalmente o livro. De acordo com ele, o suporte da leitura por meio dos 
livros é um fato muito recente na história do mundo. "Antes o livro era um 
objeto pouco difundido, no qual só a elite tinha acesso; na idade média só os 
monges. A difusão da leitura faz com que o acesso se dê em outras plataformas. 
Não acho que a gente deva ter uma postura conservadora e dizer: 'não, o livro é 
o único objeto para praticar a leitura'. A internet vem para somar, não 
competir", defende.

Glênia Duarte, de 46 anos, faz coro com Puntoni. A cenógrafa se tornou adepta à 
leitura digital há dois anos, porém, não largou o hábito de comprar livros no 
formato tradicional. "Não abro mão de livros na minha estante. Adoro tê-los por 
perto para folhear, mas a internet me abriu um mundo na leitura infinito, em 
que espaço físico não é problema", diz. "Para mim, uma coisa não anula a outra. 
As duas têm seus valores bem distintos, cabe avaliarmos o que é melhor para 
nós", analisa.

Sociedade cibernética
Para a presidente da CBL, o mundo digital está sendo universalizado. "É 
impossível hoje o desenvolvimento da sociedade sem tecnologia", afirma 
Boschini. Segundo ela, o livro, a leitura e a produção literária devem estar 
dentro desse contexto. Afinal, são instrumentos importantes de educação e 
cultura. "Acreditamos que o livro impresso tem atração física, é bastante 
arraigado na nossa cultura e, por conta disso, continuará existindo. No futuro, 
o que acontecerá é a convivência harmoniosa de mídias", prevê.

Puntoni acha que daqui há um século, o livro será comparado a uma obra-prima, 
como a Monalisa, de Leonardo Da Vinci. "Se em 15 anos a internet promoveu tanta 
mudança cultural, imagine em 100 anos", indaga. Puntoni acredita que no próximo 
século os nossos descendentes vão olhar para trás e dizer : 'aquele povo 
derrubava árvore para produzir livro, que loucos'! Ele afirma, porém, que as 
pessoas vão continuar admirando os livros físicos por conta do significado que 
eles têm como instrumento fundamental para a construção da cultura ocidental.

Se depender de Arthur Tadeu Curado, 31 anos, o livro jamais acabará. O ator é 
avesso à leitura digital. "Já tentei, não funciona. Sou um leitor à moda 
antiga", afirma. Para ele, o ato de ler está relacionado com o lazer ."Para 
mim, é importante ter o livro físico, escolher e tocar a capa, ir a uma 
livraria e ficar horas até escolher um exemplar. Tudo faz parte de um ritual 
que também é lazer", ressalta.

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasilia
Faculdade de Ciência da Informação (FCI)
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