Viver de sonhos e revoluções
Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo
31 de julho de 2010
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100731/not_imp588479,0.php

Um dos principais convidados da Festa Literária Internacional de Paraty, 
o historiador americano Robert Darnton defende a criação de bibliotecas 
públicas com obras digitais com acesso liberado

O pesquisador americano Robert Darnton terá jornada dupla na Festa 
Literária Internacional de Paraty, que começa na quarta-feira: ele 
participará de duas mesas que tratam do futuro do livro. Não se trata de 
um exagero - diretor da biblioteca de Harvard, Darnton é autor de A 
Questão dos Livros (Companhia das Letras), "uma apologia descarada da 
palavra impressa e seu passado", como escreve na introdução. Ou seja, 
busca conciliar a obra tradicional, em papel, com as novidades digitais. 
Mais que isso, defende a criação de uma biblioteca nacional de e-books, 
com acesso livre. Utópico? Pode ser, mas não o suficiente para frear 
esse colecionador de livros proibidos da França pré-revolucionária, que 
falou com o Sabático por telefone.

É possível comparar a revolução dos livros digitais com a de Gutenberg e 
a criação da imprensa?

Acredito que revoluções são coisas do passado. Podemos fazer uma lista 
de tudo o que é considerado revolucionário, desde novas formas de se 
vestir até táticas defensivas no futebol. Por isso que só uso essa 
palavra para algo realmente grandioso, como é o caso do livro digital, 
tão fabuloso como a revolução provocada por Gutenberg. Posso estar 
errado pois é preciso uma distância temporal muito grande para se 
avaliar devidamente o valor de uma transformação, mas, como vivemos, nos 
últimos 15 anos, mudanças decisivas na forma de comunicação que atingem 
nossa vida diária, o risco é seguro. Por outro lado, há quem não defenda 
como revolucionária a criação de Gutenberg: para alguns pesquisadores, 
como o francês Lucien Lefevre, a prensa retardou mudanças especialmente 
no tocante aos manuscritos que, ao serem adaptados ao formato de livro, 
perdiam muitas qualidades. Assim, segundo Lefevre, tal malefício não 
pode ser considerado revolucionário.

Mas o senhor concorda?

Não, acredito que Lefevre agiu como um provocador. Basta observar a 
evolução do papel, que atingiu níveis elevados um século antes de 
Gutenberg e que é mais importante que a própria invenção da prensa. Ou 
seja, é um assunto complicado. De uma maneira geral, acredito que a 
invenção da prensa trouxe mudanças menos dramáticas do que se imagina, 
mas, por outro lado, essas alterações são mais profundas do que se acredita.

Podemos concluir que o livro tradicional pode conviver com a versão 
digital, ao menos durante um tempo?

Sim, exatamente, esse é um dos principais argumentos do meu livro. 
Acredito que as pessoas ainda não entenderam quais são as mudanças 
provocadas por essa revolução. Comenta-se muito que vivemos na era da 
digitalização - é verdade, mas isso não significa obrigatoriamente a 
morte do livro tradicional. Ao contrário: ele se torna mais importante a 
cada ano. Basta conferir a quantidade de obras impressas que, a cada 
ano, ultrapassa a do anterior. Aproximadamente 1 milhão de livros a mais 
são impressos em todo o mundo em um ano, uma loucura.

Qual é o principal problema provocado pela migração de uma obra 
tradicional, em papel, para a versão digital?

Creio que você se refere à preservação dos textos digitais, um problema 
que preocupa a grande maioria dos bibliotecários de todo o mundo. Talvez 
seja esse nosso maior desafio - evitar o desaparecimento de textos 
extremamente frágeis. Por outro lado, o material impresso em papel 
resiste por décadas, especialmente o branco, utilizado a partir do 
século 19. Tal persistência não é ainda garantida no digital que, por 
conta da evolução tecnológica, tem diversos arquivos obsoletos, como 
aqueles guardados em disquetes, por exemplo. E um último problema está 
na dificuldade de muitas pessoas em coletar textos no ciberespaço, pois 
é preciso ter muitos detalhes desse arquivo para então encontrá-lo. Para 
piorar, as formas de descrição mudam com o passar dos anos, o que torna 
inviável hoje um caminho que antes era aconselhável. Assim, se você não 
dominar o método apropriado, provavelmente seu texto será perdido para 
sempre. Bem, colocando todos esses empecilhos em uma cesta, você estará 
criando uma colossal dor de cabeça, especialmente para alguém 
responsável por uma grande biblioteca como é meu caso, em Harvard. Para 
evitar isso, investimos pesadas somas de dinheiro para manter nosso 
arquivo digital, migrando de um sistema para outro quando surge uma nova 
tecnologia, ou ainda buscando lugares seguros, à prova de terremotos por 
exemplo, a fim de mantê-lo atualizado ou, melhor dizendo, vivo.

E quais mudanças o senhor observa em nossa noção de narrativa?

É uma boa questão. Para ser totalmente honesto, eu não sei. Mas suspeito 
que estamos mudando nossa forma de ler. Atualmente, os mais jovens 
criaram o hábito de ler pequenos blocos de texto e em grande velocidade, 
seja em Twitter, blogs, ou ainda na troca de mensagens recebidas em 
celulares e portáteis. Assim, a leitura de um livro tornou-se um ato 
pouco usual. Por conta disso, é possível acreditar que logo os livros 
serão adaptados a esse tipo de escrita, ou seja, uma prosa breve, 
segmentada. Isso vai influenciar decisivamente a forma de se apresentar 
personagens, descrever cenários, criar atmosferas, utilizar recursos 
narrativos. Tudo ficará achatado. É uma possibilidade. Ou ainda poderá 
existir um tipo de escritor que utilize a estratégia típica de um blog, 
por exemplo, para construir seu romance e assim capturar a atenção do 
leitor jovem. O fascinante é que a narrativa vai persistir, como vem 
acontecendo há séculos, período em que passou (e continuará passando) 
por transformações. Acredito que isso ocorrerá com facilidade no Brasil, 
por ser seu país muito aberto a novidades tecnológicas. E, como dispõem 
de grandes escritores, quem sabe se vocês, brasileiros, não acabarão 
ensinando o resto do mundo sobre novas formas narrativas?

O senhor acredita que, com a escrita digital, surgirão escritores 
clássicos do naipe de Dickens ou Capote?

Grandes escritores surgem independentemente da forma como é produzido 
seu texto, seja escrevendo com uma pena ou em um computador. O bom autor 
se molda com trabalho incessante e determinação, de intensa escrita e 
reescrita, além de uma boa dose de talento. A escrita digital, por sua 
praticidade, não confere naturalmente seriedade ao texto de seja qual 
for o autor. Mas é justamente essa praticidade que deverá modificar, no 
meu entender, a formação do escritor do futuro, que certamente será 
diferente do passado. Muitas novas ferramentas estão à disposição, o ato 
de escrever parece mais cômodo mas, volto a insistir, a determinação 
exigida há cem anos continuará necessária nos próximos cem.

Por que o senhor defende a criação de uma biblioteca de obras digitais?

É uma causa que tem tomado muito do meu tempo atualmente. Tudo começou 
quando o site de buscas Google decidiu digitalizar milhões de livros e 
torná-los públicos. Inicialmente, aprovei a ideia e a biblioteca de 
Harvard foi uma das cinco primeiras a liberar seu acervo. Mas o perigo 
do monopólio e da comercialização me fizeram repensar o caso e até a 
escrever um artigo a respeito. Como despertou uma série de protestos, o 
acordo acabou na Justiça por conta do risco de infringir as leis 
antitruste dos Estados Unidos. Admiro o trabalho dos diretores do 
Google, que prometem cobrar um preço moderado pelo acesso das 
bibliotecas ao seu banco de dados, mas quem estiver no comando daqui a 
dez anos vai manter a mesma posição? A ação é civil, não criminal, e vem 
sendo julgada em Nova York. Como deve se estender por um tempo, gostaria 
de aproveitar para incentivar a criação de uma biblioteca nacional de 
obras digitais, que ofereceria um acesso muito mais democrático, 
gratuito. O financiamento pode vir de fundações e o trabalho seria feito 
por pesquisadores de bibliotecas. Espero que outros países, como o 
Brasil, façam o mesmo, a fim de termos uma biblioteca mundial. Sei que é 
utópico, mas não podemos viver sem sonhos.


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