Robert Darnton entre passado e futuro do livro na Flip

Escalado para falar sobre o passado e o futuro dos livros na Flip, o
historiador americano Robert Darnton trabalha atualmente numa obra em que os
dois temas convergem: um ambicioso projeto de e-book sobre a história do
comércio e da circulação de impressos na França do século XVIII. Darnton se
ocupa do projeto há 20 anos, mas esteve a ponto de desistir dele porque,
depois de acumular mais de 50 mil documentos sobre o assunto, começou a
desconfiar que não conseguiria dar forma ao material que tanto o fascinava. O
projeto ficou estagnado por anos, até que o historiador encontrou nas novas
tecnologias a saída para seu impasse:

— Comecei a escrever sobre o comércio do livro em uma cidade, passei para a
cidade vizinha, para a outra, e assim por diante. Seria um livro infinito.
Então percebi que o leitor talvez não fosse ficar tão fascinado pelas minúcias
do assunto quanto eu. Mas então veio a internet, e pensei: é isso! Posso
publicar um livro curto e divertido sobre os principais personagens e
características daquele sistema, e criar uma versão eletrônica com vários
níveis, onde o leitor vai se aprofundando de acordo com seu interesse — diz
Darnton, que estará nas mesas “O livro: capítulo 1” (hoje, às 19h30, com Peter
Burke e mediação de Lilia Schwarcz) e “O livro: capítulo 2” (amanhã, às 10h,
com John Makinson e mediação de Cristiane Costa).

Com o título provisório de “O mundo dos livros: um tour literário da França”,
a obra é construída em torno de uma preciosidade histórica: os diários de um
livreiro francês que, em julho de 1778, cruzou o país a cavalo registrando
informações sobre o então incipiente mercado editorial nacional. A versão
impressa apresentará o curioso personagem e os traços principais do mundo que
ele observou: vendedores, leitores, impressores, editores, contrabandistas de
obras proibidas. Empolgado, Darnton descreve a versão eletrônica como uma obra
“com cinco de níveis de leitura vertical”, onde o leitor terá à sua disposição
pequenas monografias sobre cada um dos tópicos discutidos, transcrições de
correspondências e fac-símiles de manuscritos do livreiro (que “aprendeu mais
sobre o universo dos livros naquela viagem do que todos nós historiadores”, 
diz).

Diretor da biblioteca da Universidade de Harvard, que passa atualmente por um
gigantesco processo de digitalização de seu acervo em parceria com o Google,
Darnton se desdobra entre debates sobre temas de ponta (como os riscos de um
monopólio do Google sobre os acervos digitais e a criação de uma Biblioteca
Nacional Digital nos EUA) e a carreira acadêmica dedicada ao Iluminismo
francês e à história da circulação do saber. Além de “O mundo dos livros”,
ainda sem previsão de conclusão, ele prepara outra obra que lança mão das
novas tecnologias.

Com publicação prevista para outubro, o livro parte de um caso real com ares
de ficção — uma investigação da polícia parisiense em 1749 sobre o autor de um
poema satírico apócrifo — para estudar as redes de difusão de informação da
época. Darnton mostra como os poemas e canções que passavam de boca em boca
funcionavam como um complexo sistema de comunicação através do qual uma
sociedade largamente iletrada espalhava notícias e boatos. Não satisfeito em
narrar o caso em livro, o autor esmiuçou arquivos em busca de letras e
partituras da época, e convocou a amiga Helène Delavault, cantora lírica e
estrela dos cabarés parisienses, para interpretar as principais canções do
período. O comprador do livro receberá uma senha para baixar as músicas
(algumas delas já podem ser ouvidas em
<www.historycooperative.org/ahr/darnton/songs/>):

— Essa é uma nova dimensão do estudo da História. Trabalhar com fontes orais
que se perderam com o tempo é uma das tarefas mais difíceis para os
historiadores, mas agora é possível recriar os sons de três séculos atrás.
Quero que as pessoas ouçam a História e não apenas a leiam.

Curiosamente, o historiador de 71 anos que se colocou na vanguarda dos debates
sobre tecnologias de leitura ainda não se rendeu aos e-readers — ontem, ele
recebeu a equipe do GLOBO nos jardins da Pousada da Marquesa em meio à leitura
de um pesado exemplar em capa dura de “Wolf Hall”, romance histórico da
britânica Hilary Mantel. Mas Darnton assegura que pretende abrir uma exceção
no dia em que seu alentado projeto de e-book sair do papel:

— Quando “O mundo dos livros” ficar pronto, vou providenciar um e-reader,
claro. E adoraria que os leitores contribuíssem de alguma forma com a obra,
como na web 2.0. Seria um diálogo entre autor e leitores, além de outros
especialistas que desejassem acrescentar material de suas pesquisas. Algo
parecido com a Wikipedia.

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/08/05/robert-darnton-entre-passado-futuro-do-livro-na-flip-313734.asp
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