Não vejo pessoas lendo 'Guerra e paz', diz historiador sobre o futuro do livro

Na Flip, Peter Burke disse que obras de mil páginas devem desaparecer. Para
pesquisador, próxima geração deve perder capacidade de ler devagar.


Dois historiadores da cultura, o britânico Peter Burke e o norte-americano
Robert Darnton, promoveram um vai-e-vem entre o passado e o futuro dos livros
em debate realizado nesta quinta-feira (5) na Flip, em Paraty.

"Viver nos últimos 30, 40 anos foi desconfortável e divertido", disse Burke em
sua fala de abertura. "Desconfortável porque sou um leitor à moda antiga,
filho de livreiro, e os livros perderam seu papel na sociedade. Sou dos tempos
em que ir a livrarias e ficar circulando pelas estantes e folheando era uma
forma boa de passar um final de semana."

Por outro lado, ele diz se sentir um privilegiado por ter vivido "a revolução
da virada do século XX para o XXI". "Também sou um historiador da cultura e me
sinto privilegiado de poder observar essas mudanças que fazem desse um tempo
de virada na história de uma mídia", disse.

Quanto ao destino dos livros de papel, Burke se diz um "semiotimista". "É o
mesmo que dizer um semipessimista", brinca, citando as conversas sobre
Gilberto Freyre na mesa de debates que abriu o segundo dia de Flip, nesta
quinta. "Não sou realmente pessimista. Não acredito na morte do livro de papel
nas próximas poucas décadas, mas acho que ele vai diminuir. Essa redução será
em dois sentidos: na importância dos livros em relação a outras formas de
comunicação e também a redução literal. Os livros que sobreviverem serão mais
curtos, fáceis de ler nessas máquinas de leitura, como o Kindle, que existirão."

Para o historiador, volumes densos como o clássico "Guerra e Paz" não devem
resistir aos novos tempos. "Não vejo as pessoas pegando o Kindle para ler um
livro de 1.000 páginas. Os hábitos de leitura vão mudar", projeta.

Leitura dinânica
Burke acredita ainda que as próximas gerações de crianças terão uma capacidade
de correr os olhos por um texto em busca de pedaços de informação. "Eles vão
poder saltar de um tópico para outro de um texto mais ou menos como fazemos
hoje com as manchetes e fotos de um jornal", diz. "A diferença importante é
que nós ainda sabemos ler devagar. Meu medo é de que as gerações futuras
percam a capacidade de ler devagar. Porque, da mesma forma que cozinhar
lentamente, a leitura lenta é muito importante para a civilização", continuou
o historiador britânico, recebendo aplausos da plateia bibliófila, obviamente
apaixonada pelos livros em papel. "Meus dias em Paraty têm sido ótimos porque
ver tanto entusiasmo a respeito dos livros mostra que o fim deles está longe."

Bom também para Robert Darnton, que demonstrou sintonia quase total com as
ideias de Burke. "Quando cheguei aqui todos vieram me perguntar se eu uso
Kindle e fiquei surpreso e embaraçado ao mesmo tempo. Isso porque eu não leio
livros em máquinas - e provavelmente deveria. Não sou contrário, mas gosto do
papel, de virar páginas. Essa [o livro de papel] foi uma das grandes invenções
de todos os tempos", celebra.

Mas o historiador, que é também diretor da biblioteca da Universidade Harvard,
reconhece que não tem como evitar. "O futuro é digital. Temos de buscar formas
de o livro digital e o físico se apoiarem mutuamente."

Wikipédia sincera
Burke, que estudou a criação da enciclopédia no Iluminismo do século XVIII, se
mostra confortável com as novas possibilidades de conhecimento abertas pela
internet. "A Wikipédia é interessante, porque ela costuma ser atualizada
constantemente e os artigos vê com avisos sobre possíveis erros - 'esse artigo
pode conter opinião', 'esse artigo não tem muitas fontes'. É muito melhor que
as enciclopédias de papel antigas, que fingiam que todo o conhecimento estava
contido nelas".

Darnton falou também sobre os direitos de propriedade intelectual que ainda
são discutidos pela indústria do entretenimente. "Existe o perigo de se criar
monopólios dessa maneira", explica. "Se dependesse de Hollywood, os direitos
de propriedade intelectual seriam redefinidos eternamente, durariam 'para
sempre menos um dia', mas esse conhecimente tem que ser de domínio público em
algum momento. Como disse Benjamin Franklin, ‘o conhecimento pertence a toda a
humanidade’", completou o historiador, sob aplausos.

http://g1.globo.com/pop-arte/flip/noticia/2010/08/nao-vejo-pessoas-lendo-guerra-e-paz-diz-historiador-sobre-o-futuro-do-livro.html
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