Biblioteca digital melhor que do Google 

Robert Darnton* 



Artigo originalmente publicado no New York Times, de 23/03/2011.

URL: 
http://www.nytimes.com/2011/03/24/opinion/24darnton.html?_r=2&hp=&pagewanted=print

Tradução publicada no Estado de S. Paulo, de 28/03/2011.

 

Somente uma instituição pública pode cuidar do acesso à herança cultural

O juiz federal Denny Chin, de Manhattan, rejeitou na terça o acordo entre o 
Google, que pretende digitalizar todos os livros já publicados, e um grupo de 
autores e editores que processou a empresa por violações de copyright. Essa 
decisão representa uma vitória para o bem público, evitando que uma única 
corporação monopolize o acesso à nossa herança cultural comum.

Independentemente disso, não devemos abandonar o sonho do Google de tornar 
todos os livros do mundo acessíveis para todos. Em vez disso, devemos construir 
uma biblioteca pública digital, oferecendo cópias digitais gratuitas aos 
leitores. É verdade que há muitos problemas - legais, financeiros, tecnológicos 
e políticos - pelo caminho. Mas todos eles podem ser resolvidos.

Consideremos as questões legais levantadas pelo acordo rejeitado. Iniciado em 
2005, o projeto do Google para a digitalização dos livros permitiu que o 
conteúdo de milhares de títulos fosse incluído nos resultados das buscas na 
rede, levando o Author"s Guild e a Associação Americana de Editores a afirmar 
que os trechos mostrados aos usuários representavam uma violação dos direitos 
autorais. O Google poderia ter se defendido, alegando que fazia uso legítimo 
das obras, mas a empresa preferiu negociar um acordo.

O resultado foi um documento extenso e complicado conhecido como Acordo 
Emendado (Amended Settlement Agreement, em inglês) que simplesmente fatiava o 
bolo. O Google venderia o acesso ao seu banco de dados digitalizado, e os 
lucros seriam partilhados com os querelantes, que então se tornariam seus 
sócios. A empresa ficaria com 37% do total; os autores receberiam 63%. Essa 
solução equivalia a uma alteração das leis do direito autoral por meio de um 
processo individual, conferindo ao Google uma proteção legal que seria negada 
aos seus concorrentes. Foi esse o principal motivo da objeção do juiz.

Em audiências no tribunal realizadas em fevereiro de 2010, várias pessoas 
disseram que o Author"s Guild, composto por 8 mil membros, não as representava 
e nem aos muitos autores de publicaram livros nas últimas décadas. Algumas 
afirmaram preferir que suas obras fossem oferecidas sob condições diferentes; 
outras queriam até que seus livros fossem oferecidos gratuitamente. Mas o 
acordo definia os termos para todos os autores, a não ser que eles notificassem 
especificamente o Google de sua intenção de não participar dele.

Em outras palavras, o acordo não fez aquilo que se espera dos documentos desse 
tipo, como corrigir uma suposta violação dos direitos autorais ou proporcionar 
indenizações pelos incidentes anteriores; em vez disso, o acordo parecia 
determinar como seria o futuro da evolução do mundo digital dos livros.

O juiz Chin abordou esse ponto ao se concentrar na questão dos livros órfãos - 
ou seja, os protegidos pelo direito autoral cujos detentores dos direitos não 
tinham sido identificados. O acordo confere ao Google o direito exclusivo de 
digitalizar e comercializar o acesso a esses livros sem ser alvo de processos 
por violações de copyright. De acordo com o juiz, essa provisão conferiria ao 
Google "um monopólio de fato sobre obras de autoria indeterminada", levando a 
graves preocupações com a formação de um truste.

Chin convidou o Google e os querelantes a reescrever outra vez os termos do 
acordo, talvez alterando os dispositivos de inclusão e exclusão dos 
participantes. Mas o Google pode muito bem se recusar a alterar sua estratégia 
comercial básica. É por isso que o que realmente precisamos é uma biblioteca 
pública digital.

Uma coalizão de fundações arrecadaria o dinheiro necessário (as estimativas do 
custo da digitalização de uma página variam muito, de US$ 0,10 a US$ 10 ou 
mais), e uma coalizão de bibliotecas de pesquisa poderia fornecer os livros. A 
biblioteca digital respeitaria os direitos autorais, é claro, e provavelmente 
excluiria obras atualmente disponíveis nas livrarias a não ser que seus autores 
desejassem torná-las disponíveis. Os livros órfãos seriam incluídos, desde que 
o Congresso aprovasse uma lei que os tornassem gratuitos para o uso não 
comercial numa biblioteca genuinamente pública.

Diminuir a importância disso e considerar o episódio como meramente quixotesco 
equivaleria a ignorar os projetos digitais que se mostraram valiosos e práticos 
ao longo dos últimos 20 anos. Todas as grandes bibliotecas de pesquisa já 
digitalizaram partes de seus acervos. Iniciativas de larga escala como a 
Knowledge Commons e o Internet Archive já digitalizaram muitos milhões de 
livros por iniciativa própria.

Alguns países também se mostram determinados a bater o Google no seu próprio 
jogo ao digitalizar todo o conteúdo de suas bibliotecas nacionais. A França 
está gastando 750 milhões na digitalização de seus tesouros culturais; a 
Biblioteca Nacional da Holanda tenta digitalizar cada livro e jornal publicados 
no país desde 1470; Austrália, Finlândia e Noruega estão se dedicando a 
esforços semelhantes.

Talvez o próprio Google pudesse ser recrutado para a causa da biblioteca 
pública digital. A empresa já digitalizou cerca de 15 milhões de livros; 
desses, 2 milhões são de domínio público, podendo ser entregues à biblioteca 
como ponto de partida do seu acervo. A empresa não perderia nada com esse gesto 
de generosidade. Por meio da magia tecnológica e da própria audácia, o Google 
mostrou como podemos transformar a riqueza intelectual de nossas bibliotecas, 
grandes conjuntos de livros que jazem inertes nas prateleiras. Mas somente uma 
biblioteca pública digital dará aos leitores aquilo que eles necessitam para 
enfrentar os desafios do século 21 - um vasto acervo de conhecimento que possa 
ser consultado, gratuitamente, por qualquer um e a qualquer momento.

 

*professor e diretor da Biblioteca da Universidade Harvard, no The New York 
Times; com tradução de Augusto Calil. 

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasilia
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