Quanto custa rechear seu Currículo Lattes
Marcelo Spalding 









Essa não é uma coluna sobre cultura, é sobre educação. Mas o que tem mais a ver 
com a cultura do que a educação? 
Todo estudante universitário já ouviu falar do Currículo Lattes, todo aspirante 
a Mestre ou Doutor decerto já fez o seu e àqueles com pretensões acadêmicas é 
imprescindível atualizar seu Lattes pelo menos duas vezes por ano. O Lattes é 
critério quase universal para seleções de programas de pós-graduação do Brasil 
e do exterior, além de ser fundamental nas bancas de contratação de professores 
universitários em concursos e editais. Mantido pelo CNPq, é uma forma 
democrática de centralizar as informações acadêmicas de todo país, permitindo 
aos pesquisadores encontrar colegas de áreas afins e, a quem seleciona, avaliar 
a produção científica do aspirante à vaga.
Os críticos dizem que o Lattes transforma todo o esforço intelectual dos 
pesquisadores em quantidade, em números, simplificando e até ridicularizando 
uma produção eminentemente qualitativa. Ocorre que no final do Lattes há uma 
tabela informando quantos artigos foram publicados, quantos livros ou capítulos 
de livros, de quantos congressos o fulano participou. Mas até aí nenhuma 
novidade, se você começou a ler este texto provavelmente já sabe o que é e como 
funciona o Currículo Lattes. A novidade é que um bom Lattes tem preço.
Com o crescimento dos cursos de pós-graduação no Brasil e o amadurecimento da 
Plataforma Lattes, a corrida por "qualificação" tem sido grande, e a lógica 
quantitativa acaba incentivando a formação de um verdadeiro "mercado 
acadêmico". Já havia percebido isso ao me inscrever em um congresso, no meu 
caso o da ABRAPLIP, mas poderia ser de qualquer área e em qualquer lugar. Se 
você quer que seu trabalho seja apresentado, antes da inscrição deve enviar um 
resumo e aguardar o aceite. Elaborei o resumo, nas normas que exigiam, e o 
submeti. Em poucas semanas, um e-mail informa que o trabalho foi aprovado, e o 
ingênuo aqui fica feliz da vida: vai no site, preenche a ficha de inscrição, 
imprime o boleto, paga no banco a taxa de cento e poucos reais (há eventos de 
R$ 300,00, R$ 500,00, e por aí afora, especialmente se você for da área de 
Medicina ou Direito). No dia da minha apresentação no evento, a surpresa: havia 
cinco pessoas na sala: um professor e quatro apresentando trabalhos. Público 
para quê? Discussão para quê? Afinal, dali sairemos com um certificado (enviado 
por e-mail), um CD-ROM e um número a mais no Lattes!
Evidentemente, a proporção não é um por um, mas tão evidente quanto é que os 
congressos hoje estão inchados com dezenas de apresentações de trabalhos, e o 
aceite desses é uma mera formalidade. Um trabalho medíocre será aprovado se não 
comprometer o evento e o autor lá estará, enquanto um aluno excelente que faça 
um artigo excelente mas por algum motivo não possa pagar a inscrição, ah, esse 
não estará lá. Afinal, sai caro um bom Lattes...
Mas vamos além, afinal de contas, poucos dos que se aventuram em cursos de 
pós-graduação não teriam dinheiro para a inscrição de um evento desses. E a 
passagem? E o hotel? E férias, para quem não tem bolsa? Sim, porque se você 
tiver pretensão de dar aula na USP, na UFRJ ou na UFRGS, é bom sua vida 
acadêmica não ficar restrita a Cacimbinhas, é bom você ter ido aos eventos 
nacionais mais importantes da sua área, ter contatos, viajar. E não espere 
algum desconto especial para viagens acadêmicas por parte das companhias 
aéreas. Muito menos bolsas oferecidas pelos cursos de pós-graduação, a não ser 
em raríssimos ― e discutíveis ― casos. Afinal, sai caro um bom Lattes...
Infelizmente, não é só isso. Estávamos tão acostumados a participar de 
congressos e pagar por isso, estamos tão satisfeitos em aproveitar esses 
eventos para fazer turismo pelo Brasil (ah, claro, ninguém acha que o controle 
de presença nesses eventos seja muito rigoroso, né?) que nem percebemos o quão 
injusta é essa lógica do "pagando bem, que mal tem". Quero ir além. De uns 
tempos para cá, tem se tornado comum no Brasil pagar pela publicação de 
artigos! Sim, os artigos científicos, tão puros, tão imparciais, tão citados 
como referência do conhecimento pela mídia, pelos nossos professores, 
publicá-los também tem um preço, e bem salgado.
Ainda não havia me acontecido isso, mas uma amiga da área da Enfermagem ousou 
submeter seu artigo de conclusão de curso para a Revista Gaúcha de Enfermagem 
e, adivinhem, o artigo foi aceito para a publicação com uma condição: ela e as 
outras duas autoras do artigo deveriam ser assinantes da revista para essa 
publicação, e, claro, isso tem um custo: R$ 130,00. Cento e trinta! Fiquei 
pensando se já aconteceu de alguém enviar artigo e ele não ser aceito, afinal 
cenzinho é cenzinho...
Pensei em reclamar para a UFRGS que uma revista com seu logotipo fizesse esse 
tipo de coisa, mas a Universidade está em férias. Entrei em contato, então, com 
a Ouvidoria do Ministério da Ciência e Tecnologia, a fim de denunciar esse tipo 
de abuso num país e numa universidade que lutam pela inclusão acadêmica de 
negros e pobres. A resposta, conclusiva, me fez perceber que o Lattes realmente 
tem preço:
Prezado Marcelo,
A cobrança para publicação de artigos é prática frequente na área 
internacional, inclusive porque alguns periódicos científicos são bancados 
pelos próprios autores. A informação, pelos custos que envolve, resulta cara. 
No Brasil, esta prática ainda não está amplamente disseminada mas já é 
praticada, principalmente na área médica.
No caso específico, segundo sua informação, o pagamento não é propriamente pelo 
artigo, mas para que ela se torne sócia da revista. Sugerimos que consulte a 
política editorial do periódico, que deve estar impressa na própria revista ou 
no seu site. A política editorial informa quais são os critérios utilizados 
para seleção e publicação de artigos.
Nada obstante, caso ela não concorde com o critério, pode submeter seu artigo a 
outros periódicos que não exijam contrapartida financeira. Seguramente na sua 
área de especialização existem vários em todo o Brasil.
Atenciosamente,
Ouvidoria-Geral do MCT
Indignado, entrei em contato com minha orientadora de graduação, uma professora 
muito amiga, Doutora em Comunicação. E aí a professora me lembrou de que quando 
terminou seu Doutorado, recebeu pelo menos cinco cartas a parabenizando e a 
convidando a publicar seu belíssimo trabalho em livro. Mas, é claro, um livro 
acadêmico é sempre importante e, afinal, sai caro um bom Lattes. Caro quanto? 
Cinco mil reais.
Não posso concordar com essa lógica, e me surpreende que entidades como a UNE 
fiquem mais preocupadas com o preço da passagem de ônibus do que com esse tipo 
de descalabro. Não é novidade alguma que a seleção para os cursos de 
pós-graduação passam por critérios pessoais, políticos, nada objetivos, e no 
momento que se cria uma ferramenta para tornar a escolha um pouco mais 
democrática, admitiremos que essa ferramenta sirva para privilegiar os 
estudantes com mais poder aquisitivo? Sem demagogia, dessa forma algum pobre 
que entrou na universidade pelas cotas ou pelo Pró-Uni conseguirá ingressar em 
Mestrados e Doutorados a partir desse critério mercantilista? 
Para mim, o caso é muito grave. São essas pessoas com Lattes recheados que irão 
lecionar nas universidades federais e particulares (e há aos borbotões), são 
elas que irão formar os futuros médicos, advogados, jornalistas, professores? E 
quais os valores que essa geração acadêmica tem a passar? O valor do "quanto 
mais, melhor", do "quem pode mais, chora menos"? E essa realidade, todos sabem, 
se reflete desde o Ensino Fundamental, onde as creches e escolas públicas são 
cada vez mais abandonadas e as particulares proliferam e profissionalizam-se. 
Mas aí já é assunto para outra crônica...


Fonte: 
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2749&titulo=Quanto_custa_rechear_seu_Curriculo_Lattes
                                          
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