Ulisses e as sereias digitais: apetrechos e conteúdos de informação

http://lexias.tumblr.com/    (na web)


Em 1906, enquanto terminava seu livro 
"Dublinenses", James Joyce considerou adicionar 
outro conto, sobre um negociante de anúncios 
chamado Leopold Bloom com o título Ulisses.  A 
história foi completada em outubro de 1921. A 
ação do livro, que se desenrola em um único dia, 
16 de junho de 1904, e  situa os personagens da 
Odisséia de Homero na Dublin moderna e representa 
Ulisses, Penélope e Telêmaco em personagens 
irlandeses:  Leopold Bloom, sua esposa Molly 
Bloom e Stephen Dedalus, cujos caracteres 
contrastam com seus  modelos Ulissianos. O livro 
explora diversos círculos da vida dublinense. O 
Bloomsday  é um feriado comemorado em 16 de junho 
na Irlanda com uma caminhada em homenagem a 
narrativa dublinesca que segue pelas ruas 
descritas no livro. É um feriado nacional 
dedicado a um livro impresso com papel e tinta.

Assim, a data de 16 junho tem sido um ícone da 
narrativa papel que no em seu esplendor festeja, 
também, Gutenberg que facilitou a criação da base 
física para a leitura impressa. Nesta atualidade 
este dia traz a baila a reiterada discussão sobre 
o futuro do livro e seu possível acabamento. 
Considero, esta uma discussão sem sentido, pois 
no final das contas estão discutindo o final ou a 
permanência de um formato físico, uma base de 
inscrição da informação. Esquecem que conteúdo 
das narrativas desta base física não irá 
desaparecer nunca, apesar de, potencialmente, ir 
para uma estrutura de suporte digital. Isto é o 
livro não irá acabar só irá para outro formato.

As pessoas se afeiçoam com muita emoção aos seus 
apetrechos de manuseio da informação que usam 
como sendo sua memória de plantão. Mas, o que 
importa é aquilo que está contido neles e que 
maneja nosso imaginário construindo e 
reconstruído nossas imagens. Contudo, "para o 
cérebro não existe diferença entre a realidade e 
a imaginação ": se acredito firmemente que o 
"meio é a mensagem" está formada a confusão. O 
valor do dispositivo se confunde com o valor do 
conteúdo nele contido. Esta distinção entre meio 
e conteúdo fica mais difícil quando o "gadget" é 
interativo e permite uma conversação.

"Enquanto suporte material da comunicação, o meio 
tende a ser definido como transparente, inócuo, 
incapaz de determinar positivamente os conteúdos 
comunicativos que veicula A sua única incidência 
no processo comunicativo seria negativa, causa 
possível de ruído ou obstrução na veiculação da mensagem." (1)

Ítalo Calvino reflete os conteúdos e apresenta 
cinco proposições para a qualidade das narrativas 
no milênio em que ora estamos: a leveza, a 
rapidez, a exatidão, a visibilidade, a 
multiplicidade dos textos; a sexta sugestão, não 
escrita, seria a consistência. Calvino parece 
antever com suas colocações a direção futura da 
escrita e a leitura digital, pois todas as 
propostas estão muito direcionadas para textos em 
um formato digital, embora não tenha sido esta a 
intenção explícita do autor. (2)

Uma preocupação que percorre todo o texto de 
Calvino é a imagem da representação da informação 
e da sua interiorização. A mensagem como um 
cristal tem nas suas facetas uma clara precisão e 
capacidade ao refratar a luz; é a representação 
da invariância. A constância das estruturas 
lapidadas. Mas o reflexo pode se transformar em 
chama quando refratado no sujeito que somos 
provocando na reflexão incessante agitação 
interna, manipulando sensibilidade e percepção no trato do conteúdo recebido.

A mensagem, então, precisa ser leve como o 
pássaro, mas não como a pluma que cai. Esta 
leveza associa no traço visível a coisa invisível 
e ausentada, com poder de ser metaforicamente 
ampliada pela intercessão de narrativas em 
convivência. Fatos e ideias tinham um percurso 
formal bem definido dentro de um sistema de 
geração e uso da escrita em papel. Mas, uma 
escritura digital tem o seu modo simplificado e 
múltiplas revelações o que subvertem a estrutura 
da escrita em rapidez, visibilidade e 
multiplicidade. A velocidade do meio de 
transferência impõe à mensagem uma economia de 
palavras, precisa na exatidão de significados.

Quem não entende que a velocidade é uma força da 
informação digital arrisca não ver a emergência 
da mudança no formato dos documentos. Há na 
simultaneidade do "aqui-e-agora" uma negação do 
tempo sequencial. É uma a busca de interioridade 
para um tempo místico, um tempo de celebração de 
todos os tempos. Um tempo em que há sempre opções 
de enunciados para cada colocação de um discurso. 
A reflexão individual está ampliada pelas 
facilidades de acesso às memórias eletrônicas e o 
receptor não aceita mais percorrer os caminhos 
mapeados por universos formatados de uma 
ideologia sequencial da escrita. As comemorações 
de papel e tinta, em 16 junho, se associam a um rememorar das coisas idas.

Porem, a rapidez do tempo de produção, acesso e 
transferência da informação nada tem a ver com o 
tempo de reflexão para sua criação ou para 
interiorização. Os procedimentos para criar ou 
interiorizar um conteúdo se realizam no tempo 
próprio de cada indivíduo, um tempo proprietário 
para pensar a mensagem. Este tempo em nada se 
relaciona com a velocidade do tempo online para 
acesso e transferência de arquivos digitais.

Esta é a realidade que a rede anuncia e 
configura: "Se a previsão do final do livro 
impresso já provoca no leitor tradicional mais 
que estranheza, uma recusa, o que dizer do 
escritor que vê nesta vertigem uma espécie de 
atentado ao objetivo e a natureza de seu 
trabalho? Mas ao que parece o rumo esta definido 
e a sorte do papel e da tinta está lançada. Não 
haverá argumentos que consigam desviar este 
penoso destino, nem clarividente ou profeta que 
possa prevenir sua sobrevivência. O funeral já 
está em marcha e de nada vale que nós, que 
conservamos nossa fidelidade às folhas impressas 
protestemos e nos enraiveçamos em meio a 
desesperança." [3]. Este junho em Dublin haverá uma despedida respeitosa:

"Que os aviões circulem no céu a tristeza
Escrevendo a mensagem "Ele  Morreu"
Coloquem fumos de crepe na gargantilha dos pombos de rua
Façam que todos os guardas de trânsito usem luvas de algodão preto
Ele foi meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste
Meus dias de semana e meu descanso semanal
Meu meio-dia e a meia-noite, minha fala e minha canção
Eu pensei que este amor fosse para sempre: mas eu estava errado" [4]


Aldo de A Barreto

Notas:
1- O meio é a mensagem por Olga Bombo
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/cadernos/mcluhan/estudo_...
2 - "Seis propostas para o próximo milênio"
http://www.dgz.org.br/dez99/Art_03.htm
3- Henrique Vilas- Matas, Dublinescas, Cosac Naify 2011
4 - W.H. Auden, Poem [fragmento]
5 - Combatendo idéias irracionais
     http://www.editoraferreira.com.br/publique/media/nanci25.pdf
6 - Esta postagem trata da "despedida" do papel e da tinta como
elementos para edição de conteúdos sombólicos e consequentemente dos
apetrechos que deles dependem para disseminar narrativas.




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