As antevisões de Lawrence Lessig
Ativista da Cultura Livre e criador das licenças Creative Commons debate
hoje à noite, no Auditório Ibirapuera
Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo

Professor de direito em Harvard, o ativista Lawrence Lessig é um dos
maiores defensores do que se convencionou chamar de "cultura livre", e foi
com vistas a garantir a livre circulação de informação que ele inventou as
licenças Creative Commons (CC), um sistema alternativo de controle de
copyright.
Lessig. 'Sou muito mais otimista em relação ao Brasil que em relação aos
Estados Unidos', diz - Divulgação
Divulgação
Lessig. 'Sou muito mais otimista em relação ao Brasil que em relação aos
Estados Unidos', diz

No Brasil, os CCs viraram pano de fundo de um agitado debate. Adotadas pelo
ex-ministro Gilberto Gil em sua gestão, foram removidas do site do MinC
assim que a ministra Ana de Hollanda assumiu, em janeiro. Lessig, que não é
propriamente um radical, mas um "left-liberal" americano, estranhou a
disputa. Na segunda-feira, a caminho do Brasil para debate hoje, às 20h, no
Auditório Ibirapuera, ele falou por telefone ao Estado de sua casa, na
Califórnia.

O sr. acha que o governo Dilma é inimigo das licenças Creative Commons?
Não acho que seja inimigo, mas acho que há muitos mal entendidos sobre o
Creative Commons. No começo da nova administração, não surpreendeu a
incompreensão. O que acontece é que Gil era um pensador profundo, entendia
as questões melhor do que a maioria das pessoas. Não sinto como se alguém
tivesse declarado guerra (aos CC), e sou esperançoso em relação à
possibilidade de tornar a questão mais compreensível para todos.

O sr. costuma usar a expressão "guerra de copyrights" quando trata dos
embates de direito autoral no mundo. O sr. acha que a retirada do selo
Creative Commons pelo Ministério da Cultura é um lance disso que o sr.
chama dessa guerra?

Não falo de guerra, mas principalmente do jeito que as corporações tentam
usar os governos para garantir, como políticas, suas posições extremistas.
Meu entendimento do que acontece no Brasil é que não é algo similar ao que
está ocorrendo nos Estados Unidos, é uma manifestação de interesses muito
fortes querendo proteger a maneira de se fazer negócios que predominava no
século 20. É disso que trato em minhas manifestações sobre o Brasil. Sou
muito mais otimista em relação ao Brasil do que em relação aos Estados
Unidos, nesse aspecto.

A Áustria decidiu usar as licenças CC em todos os documentos do governo.
Vocês estão em 80 países neste momento.

Sim, de fato. E houve também uma adesão muito forte na Nova Zelândia dias
atrás.

Mas, aqui no Brasil, muitos críticos do Creative Commons usam a expressão
"imperialismo" para defini-las, pelo fato de serem norte-americanas. Dizem
que isso joga suspeição sobre as licenças.

Eu certamente entendo porque as pessoas no Brasil têm suspeitas sobre
qualquer coisa que venha dos Estados Unidos. Mas é preciso que se diga que
é justamente uma alternativa à pesada lei de copyright que há nos Estados
Unidos, e é também uma alternativa duramente combatida pelo governo
americano. O fato também é que o movimento Creative Commons não se espalhou
com força a partir dos Estados Unidos, mas do resto do planeta. O apoio
para o projeto que lançamos aqui 7 anos atrás veio de fora dos Estados
Unidos. É certo que foi lançado nos Estados Unidos, mas se espraiou pelo
mundo todo, e sua direção é multinacional. Quem foi chairmain do projeto
durante dois anos foi um japonês, Joi Ito. Aqui no Brasil, quem faz parte
do projeto é Ronaldo Lemos, uma figura-chave na divulgação e esclarecimento
do papel dos Creative Commons. Esse projeto tem envolvido pessoas do mundo
inteiro, não é particularmente americano. A ideia básica surgiu após eu ter
participado do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, onde eu vi
demonstrações de paixão e visão das pessoas no País que estão por trás da
inspiração do projeto. Ainda assim, eu entendo que as pessoas suspeitem de
qualquer coisa que venha dos Estados Unidos.

Há um esforço mundial no momento para controlar as redes sociais,
estabelecer uma espécie de controle. Como o sr. vê essa questão?

A reação do governo inglês é paralela à reação, este mês, da administração
de São Francisco, nos Estados Unidos, que resolveu bloquear mensagens de
celular nos transportes urbanos e causou uma revolta de hacktivistas. Eles
entraram nos computadores do Bart (Bay Area Rapid Transport) de São
Francisco e bloquearam o portal, além de divulgarem dados dos usuários
catalogados pela companhia. Também divulgaram mensagens de apoio pelas
liberdades civis na internet, solidarizando-se com os ingleses. Isso é algo
que temos abordado há muito tempo: é preciso proteger a liberdade trazida
pela internet. Esse ataque à liberdade pode acontecer não só em governos
totalitários, mas também em governos que se dizem democráticos, livres. É o
que estamos vendo agora. É uma forte razão para as pessoas se manterem
vigilantes. Em um dos primeiros livros que escrevi, intitulado Code and
Other Laws of Cyberspace (1999), o principal argumento é que o ciberespaço
muda não só as leis de copyright, mas também o poder da lei de assegurar as
liberdades. É por isso que temos de manter atenção.

O sr. acredita que a adoção de licenças Creative Commons pode melhorar os
ganhos das companhias que têm aderido a elas?

Sim. Eu acho que há certamente benefícios, mas não para todo tipo de
negócios. Se o seu negócio é fazer os clientes repartirem, dividirem,
Creative Commons Licenses vão ajudar muito. As pessoas podem confiar, e os
contatos que são feitos são parte essencial das empresas da economia
criativa. Não estamos tão interessados em consumidores e companhias que
querem vender seus produtos, mas em gente talentosa que quer dividir sua
arte, sua produção. Para estes, as licenças oferecem uma ampla gama de
alternativas.

FONTE:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,as-antevisoes-de-lawrence-lessig-,762804,0.htm


_______________________________________________
Arquivos da Bib_virtual: http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/
Instruções para desiscrever-se por conta própria:
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/options/bib_virtual
Bib_virtual mailing list
[email protected]
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/listinfo/bib_virtual

Responder a