*SOCIEDADE* - *INTERNET*: Entrevista Clay Shirky

“O Google não é a solução” – Levaremos décadas para construir a biblioteca
ideal para a era da internet, diz o escritor americano.



*QUEM É*: Clay Shirky, de 46 anos é professor de jornalismo da Universidade
Nova York.

*O QUE FAZ:* É escritor e conferencista. Estuda a influência cultural dos
novos meios de comunicação.

*O QUE PUBLICOU*: Os livros *Here comes everybody* (ago como *Aí vem todo
mundo*) e *Cognitive surplus* (ou *Excedente cognitivo*), nenhum deles
publicados no Brasil.



Peter Moon



O excesso de informação a que somos submetidos é aparente, diz Clay Shirky,
professor da escola de jornalismo da Universidade de Nova York. Segundo
Shirky, nossa sobrecarga de informação não é recente. Tem anais de 500 anos.
Começou com a invenção da imprensa por Gutenberg. Naquela época como hoje, o
problema era o excesso de informações, mas a falta de meios eficientes para
filtrar e achar o que se busca. Hoje, essa ausência faz as pessoas
recorrerem aos celulares, às redes sociais e ao Goolge. Mas isso não
resolve. Segundo Shirky, levou décadas para a humanidade aperfeiçoar o
modelo de organizar a s informações dos livros em grandes bibliotecas.
Agora, com o dilúvio via internet, o desafio é equivalente. Só que numa
escala incomparavelmente maior.



*ÉPOCA:* A era da informação é marcada pelo excesso de notícias a que somos
submetidos. Quanto esse excesso começou?

*Clay Shirky:* Em 1453, com a invenção da imprensa. Deste então, nós sempre
estivemos sobrecarregados de informações. Em nenhum momento da história
moderna ninguém pôde – por seus próprios meios – dar conta do dilúvio de
informações a que foi submetido. Por causa da internet, temos a impressão de
que o excesso atual é maior. O problema não é o aumento exponencial na
quantidade de informação disponível, mas a falta de meios eficientes para
organizar a busca do que se deseja no meio de um oceano de dados.



*ÉPOCA: *Temos o Google.

*Clay Shirky: *O buscador do Goolge é a melhor solução encontrada até o
momento. Não é a definitiva. Ainda será necessário décadas até descobrirmos
um mecanismo digital de busca que seja tão eficiente e confiável como a boa
e velha biblioteca. No século XVI, com a explosão de publicações de livros,
as pessoas se sentiam afogadas em informação. No começo, os livros impressos
eram grandes e caros. Em torno de 1500, os editores italianos reduziram as
dimensões dos livros para um formato bem menor. O novo formato permitiu aos
leitores carregar livros no bolso e na bolsa. O preço dos livros caiu
enquanto as edições e as tiragens aumentaram. Foi aí que o leitor de início
do século XVI se viu sobrecarregado de informações. Mesmo os intelectuais
ricos não tinham tempo para ler tudo o que era publicado.



*ÉPOCA: *A solução foi a biblioteca?*  *

*Clay Shirky: *Sim, mas a idéia da biblioteca teve primeiro que ser
resgatada. Na Antiguidade, bibliotecas eram locais para guardar livros e
buscar informações. Essa função foi desvirtuada pela Igreja nos 1.000 anos
da Idade Média, quando bibliotecas passaram a ser lugares destinados a
esconder livros. A reinvenção da biblioteca passou pela criação tanto de um
espaço físico para reunir leitores e livros quanto pela invenção de métodos
para organizar e guardar livros, de modo a serem rapidamente localizados
quando necessário. Todo esse processo levou décadas. É o que acontece hoje.
A internet pública tem quase 20 anos. Ainda não surgiu um método definitivo
de busca de informações. Hoje, o Google pode ser o mecanismo mais popular,
mas não é perfeito nem de uso universal, como a biblioteca tem sido nos
últimos 500 anos.

*ÉPOCA: *O que falta para termos uma biblioteca digital ideal?

*Clay Shirky: *Nosso problema é o mesmo dos anos 1990. Ainda não contamos
com filtros realmente eficientes para pinçar no meio do palheiro digital
aquela agulha especifica que buscamos. Levará décadas para aprendermos a
gerenciar as informações neste novo mundo digital.





*ÉPOCA: *Em Excedente cognitivo, você diz que o excesso de informações é
benéfico para a liberdade de expressão. Mas o que se vê é o fechamento de
jornais e revistas em todo o mundo.

*Clay Shirky: *A transformação por que passa a imprensa escrita é um
processo doloroso e sem volta. Quando surgiu, a imprensa escrita eliminou os
antigos folhetins do século XVII. A imprensa escrita mostrou-se um modelo de
negócio tão bom que sobreviveu por 200 anos. Esse modelo de negócio
sustentado pela venda de publicidade, venda avulsa e assinaturas acabou. Os
jornais e as revistas precisam mudar para sobreviver ou desaparecer. O
estrago é maior na imprensa local, a dos diários das cidades médias e
pequenas e dos jornais de bairro. Nos Estados Unidos, a imprensa local
acabou. Ainda não surgiu um substituto para filtrar e levar as notícias aos
leitores. Quem assumiu esse papel foi o cidadão, usando o celular, as redes
sociais e o Twitter.



*ÉPOCA: *São ferramentas poderosas. Seu uso mobilizou multidões nas
manifestações por democracia nos países árabes. Corremos o risco de censura?


*Clay Shirky: *A censura já começou. Os governos e as empresas estão
apavorados com o poder dos novos meios. Veja o (*site*) WikiLeaks, que vem
vazando milhares de documentos do governo norte-americano. Sua publicação na
internet revelou ao mundo como os governos agem. Faltaram ao WikiLeaks os
meios para filtrar e organizar aquela montanha de dados. Assim mesmo. Tudo
mudou. Compara o WikiLeaks ao Napster, o  primeiro serviço de troca de
músicas via internet, fechado em 2001 (*que abriu caminho para cópia
generalizada de música na Internet*). O gênio saiu da garrafa.



*ÉPOCA: *A agilidade da internet e do celular não substitui o bom
jornalismo. Prova disso foi a investigação do diário inglês *The Guardian*,
que expôs as práticas ilegais do tablóide *News of the World* e colocou na
berlinda o magnata Rupert Murdoch.

*Clay Shirky: *O trabalho do *The Guardian* foi excepcional. É o melhor
jornal do mundo. Os caras ficaram quase dez anos em cima da mesma história!
E conseguiram o que se pensava impossível. Praticamente colocaram no banco
dos réus o até então todo-poderoso dono da *News Corp*. Foi lindo. Políticos
e empresários ingleses morriam de medo de Murdoch. Temiam o poder de seus
tablóides, que ele usava para atingir seus objetivos e atacar seus inimigos.
Ao ver Murdoch na TV, interrogado no Parlamento inglês, as pessoas perderam
o medo. O poder dele acabou. Eu o compara à Microsoft, Em 1998, ela foi
processada pelo governo norte-americano por práticas monopolistas. Naquele
momento, seus concorrentes perderam o medo. Hoje, a Microsoft ainda é rica.
Porém, é irrelevante para a indústria de informática.

Fonte: Revista Época, n.694, 5 set. 2011


-- 
Junior Vieira
Bibliotecário - CRB - 8/7453
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