http://papodehomem.com.br/a-enciclopedia-britanica-acabou-e-eu-tambem-nao-estou-me-sentindo-muito-bem/

A Enciclopédia Britânica acabou, e eu também não estou me sentindo muito bempor
Alex Castro <http://papodehomem.com.br/author/alex-castro/>
em 15/03/2012 às 10:12 |
Cultura<http://papodehomem.com.br/secoes/principal/cultura/>,
Debates <http://papodehomem.com.br/secoes/principal/debates/>, PdH
Shots<http://papodehomem.com.br/secoes/pdh-shots/>,
Tecnologia<http://papodehomem.com.br/secoes/principal/tecnologia-principal/>

Essa 
semana<http://papodehomem.com.br/a-enciclopedia-britanica-acabou-e-eu-tambem-nao-estou-me-sentindo-muito-bem/mediadecoder.blogs.nytimes.com/2012/03/13/after-244-years-encyclopaedia-britannica-stops-the-presses/>,
a Enciclopédia Britânica anunciou o fim da sua edição impressa. Depois de
244 anos em catálogo, a edição de 2010 será a última em papel.

Mas ela não está acabando: eles simplesmente vão concentrar suas atividades
na internet, onde o conteúdo pode ser corrigido instantaneamente.

Em termos de vendagem, o melhor ano da Enciclopédia Britânica foi 1990, com
120 mil coleções
vendidas<http://mediadecoder.blogs.nytimes.com/2012/03/13/after-244-years-encyclopaedia-britannica-stops-the-presses/>só
nos Estados Unidos. Quatro anos depois, comecei a acessar internet de
casa, pelo Ibase/Alternex <http://pt.wikipedia.org/wiki/Alternex>.

Cresci com uma Enciclopédia Britânica em casa. Edição de 1978, comprada com
sacrifício pelos meus jovens pais, que nem falavam inglês tão bem assim,
mas que acreditavam no ideal de que toda casa classe média tinha que ter
uma Britânica. A cada ano que passava, a edição se tornava mais
escandalosamente obsoleta mas, fazer o quê? Qual era a opção?

Eu gostava mesmo era da coleção que veio junto, a Britannica Great
Books<http://en.wikipedia.org/wiki/Great_Books_of_the_Western_World>,
que foi onde li pela primeira vez os autores que moldaram a minha vida,
como Homero, Sófocles, Eurípides, Herótodo, Tucídides, Lucrécio, Virgílio,
Tomás de Aquino, Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Descartes, Sterne, Gibbon,
Marx, Darwin, Freud, Melville, Shakespeare, Tolstoi e Dostoievski.

Hoje, tenho todos esses livros no meu Kindle <https://kindle.amazon.com/>.


Alguns dinossauros mortos

Só nos últimos poucos anos, eis algumas instituições que importavam para
mim e que se foram, em maior ou menor grau:

2008, outubro: meu jornal norte-americano favorito, de incrível cobertura
internacional e sempre muito independente, o Christian Science
Monitor<http://www.csmonitor.com/>,
torna-se um dos primeiros grandes jornais do país a migrar para a
internet<http://www.nytimes.com/2008/10/29/business/media/29paper.html?bl&ex=1225425600&en=63df0ce22e52f090&ei=5087%0A>.
Eu era assinante até o ano anterior, mas tinha cancelado minha assinatura.

2009, janeiro: fecha a Virgin
Megastore<http://www.nytimes.com/2009/01/15/nyregion/15virgin.html?_r=1&em>de
Times Square, em Nova Iorque. Nas décadas de 80 e 90, ela foi
importantíssima na minha vida. No meu aniversário de vinte anos, em 1994,
me dei de presente uns 15 CDs de ska, para conhecer melhor o gênero. No
século XXI, estive em Nova Iorque diversas vezes, mas não voltei mais lá.

2010, julho: o Jornal do Brasil <http://www.jb.com.br/>, um dos principais
e mais antigos do país, depois de uma longa agonia, torna-se o primeiro
jornal importante a migrar para a
internet<http://oglobo.globo.com/economia/jornal-do-brasil-deixara-de-circular-tera-apenas-versao-na-internet-2979918>.
O Rio de Janeiro, agora, na prática, é uma metrópole de seis milhões de
habitantes com um único jornal. Minha família já não assinava o JB desde
2000 e eu esporadicamente comprava às sextas, para ler a Revista Programa.

2011, janeiro: fecha a Modern
Sound<http://programaflashclubestacio.blogspot.com/2011/01/o-fechamento-da-modern-sound-em.html>de
Copacabana, no Rio de Janeiro, uma das maiores e mais importantes
lojas
de música no Brasil. Não tendo acesso à Virgin o ano inteiro, foi lá que
comprei os CDs mais raros e
interessantes<http://felatothefunk.blogspot.com/2011/01/rip-modern-sound.html>.
Houve época, ó jovens, que você ouvia uma música legal na rádio, às vezes
tinha que ligar pra perguntar qual foi (porque não havia sites) e a sua
única esperança de ouvir essa música de novo, e outras do mesmo artista,
era indo a lojas com catálogo gigantesco, como a Virgin e a Modern Sound.
Que eu saiba, também não pisei lá no século XXI.


O responsável sou eu… e não me sinto culpado

Quem matou esses dinossauros fui eu. Eu sou o típico cliente para quem
essas empresas tinham significado e importância, e que mesmo assim foi
lentamente abandonando-as.

E claro que não fiz isso sozinho. Você, leitor, provavelmente foi meu
cúmplice.

Essas empresas acabaram (ou quase) porque se tornaram irrelevantes
justamente para as pessoas que mais gostavam delas. Se a Virgin ou a Modern
Sound fossem fazer falta na minha vida, eu não estaria sem visitá-las há
mais de dez anos. Se o Jornal do Brasil ou o Christian Science Monitor
fossem realmente importantes para mim, eu teria assinado até o último dia.


As pessoas querem música e notícia, não celulose e metal

As carpideiras da indústria fonográfica e da imprensa impressa parecem
aquelas pessoas que lamentavam o fim das diligências quando inventaram os
trens. Sim, como tem gosto pra tudo, acredito que houvesse pessoas que
realmente gostassem das diligências em si, como objeto. Mas, convenhamos, a
maioria das pessoas quer somente ir daqui pra ali. Se inventam um novo
método, melhor e mais rápido, elas mudam para ele sem chorar e sem pensar
duas vezes.

Não é à toa que a Modern Sound e a Virgin desapareceram, enquanto o Jornal
do Brasil, o Christian Science Monitor e a Enciclopédia Britânica ainda
estão vivos e tentando se reinventar. Os dois primeiros não produziam nada,
eram apenas intermediários e, por isso, se tornaram totalmente
irrelevantes. Os três últimos ficaram famosos justo pela qualidade do
conteúdo que produziam e, mesmo se o antigo suporte desse conteúdo esteja
em crise, o conteúdo em si continua interessando ao consumidor final.

(Ano passado, por exemplo, a Enciclopédia Britânica fechou acordo com a
Capes<http://oglobo.globo.com/educacao/capes-disponbilizara-conteudo-da-enciclopedia-britannica-para-alunos-do-ensino-fundamental-2820364>e,
agora, todo o conteúdo da enciclopédia está disponível para estudantes
do ensino fundamental de escolas públicas brasileiras.)

As pessoas frequentavam a Virgin Megastore e assinavam o Jornal do Brasil
porque gostavam de música e de informação, não necessariamente de discos de
metal e folhas de papel. Ainda vamos ouvir muito chororô por parte dos
amantes de disquinhos e papeizinhos, mas a grande maioria das pessoas
estará muito feliz e satisfeita curtindo suas músicas e consumindo sua
informação por outros meios.
_______________________________________________
Arquivos da Bib_virtual: http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/
Instruções para desiscrever-se por conta própria:
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/options/bib_virtual
Bib_virtual mailing list
[email protected]
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/listinfo/bib_virtual

Responder a