Intel e OLPC finalmente unidas

Por Jaime Balbino

Causou certa comoção o anúncio de uma parceria entre a OLPC e a Intel, depois 
dos dois lados terem travado ásperas trocas de acusação, como Negroponte 
chamando a estratégia de barateamento do ClassMate de dumping e a Intel afirmar 
que o seu projeto "também" é um projeto educacional, parodiando Negroponte.

Deixando as fofocas de lado, como as patrocinadas pelo Meio-Bit. Qualquer 
análise um pouco racional perceberá que as críticas, principalmente as da OLPC, 
se referiam à divisão inútil de esforço numa briga por fatias de mercado que 
tenderia a inviabilizar ambos os projetos, com prejuízos maiores para a OLPC, 
dado seu maior comprometimento, foco e objetivo.

A partir do momento que a Intel levanta a bandeira branca, faz sua mea-culpa e 
aceita discutir seriamente a disseminação dos laptops de baixo custo, deixando 
claro quais são seus interesses, não há porque brigar ou criticar mais.

Durante o 1o Encontro de Laptops Educacionais perguntei aos representantes da 
Intel que acabavam de fazer uma longa preleção sobre o ClassMate e as redes 
WiMax quais eram as intenções de convergência dessas tecnologias, incluindo o 
EEE da Asus e a sua nova plataforma MID, para equipamentos móveis.

Tentei ser o mais discreto possível, jogando “muito verde”, e o resultado foi 
uma farta colheita, “bem madura”:

    * Eles admitiram que o ClassMate é um "computador-conceito" que pode ser 
fabricado com todas ou partes de suas características por qualquer empresa 
interessada. Isto é, não veremos o ClassMate sendo comercializado, 
principalmente porque a tecnologia mais cara no qual é baseado (o 
Pentinum/Celeron) não é competitiva para este tipo de aparelho. Mas os 
softwares, tamanho, indicadores de resistência e sugestões de uso podem fazer 
parte de outros projetos educacionais.
    * Sem discrição os dois representantes "torceram o nariz" para o EEE da 
Asus. Ele não tem nada a ver com o ClassMate e não foi baseado nele. No entanto 
ele é um produto voltado para mercados emergentes, que pode ser utilizado em 
educação e, principalmente, utilizará a nova plataforma de mobilidade da Intel. 
Em resumo: é o tipo de parceria que a Intel gosta de fazer.
    * O WiMax é peça fundamental e motor de todas as ações em mobilidade da 
Intel. O que parece interessar realmente à empresa é vender serviços móveis com 
esta tecnologia, da qual possui a patente. A nova plataforma MID, laptops 
educacionais e outros equipamentos móveis de uso geral apenas agregam valor à 
investida da Intel em ganhar este mercado - antes que outra tecnologia sem-fio 
melhor apareça. 

Aqueles que acham estranho e até suspeito o ingresso da Intel na OLPC não 
percebem os movimentos que a empresa fez nos últimos anos e como ela está 
tentando se adaptar à nova realidade: A Intel simplesmente desistiu do mercado 
de dispositivos móveis, apesar do seu crescimento surpreendente e de ter sido 
um dos principais fornecedores de tecnologia ela simplesmente abandonou o filão 
porque os lucros eram pequenos e o nível de inovação baixo. Ela decidiu, 
sabiamente, se concentrar naquilo que faz melhor e lhe é mais rentável: 
desenvolver processadores e outras tecnologias de última geração, tão caras e 
avançadas que não podem ser embutidas em dispositivos móveis, que usam chips 
com mais de 10 anos de existência (o IPhone da Apple utiliza dois chips antigos 
para todas as suas funções).

Depois que a OLPC apareceu a Intel fez todos os movimentos para dar alguma 
resposta em um ramo que ela não queria ver desenvolvido. O Américo Damasceno 
chamou este mercado de "PC-BIC" em alusão à famosa e, principalmente, barata 
caneta esferográfica. Manter os computadores de baixo-custo presos ao nicho 
educacional é interessante, o problema é quando estas máquinas avançam sobre os 
mercados realmente rentáveis, como os escritórios e demais consumidores. Este, 
por sinal, é o objeitvo de projetos como o EEE da Asus e o Mobilis da Encore.

Quem recuou e aceitou o peso dos argumentos foi a Intel e não a OLPC. Se ela 
conseguir compatibilizar o XO com a rede WiMax já terá um ganho estratégico 
enorme. Além disso, passará a integrar um time de desenvolvedores e tecnologias 
com grande potencial de assimilação. Pensem comigo: o que seria da tecnologia 
da Rede Mesh se não fosse a OLPC?

O mais importante para a OLPC é que a plataforma que ela passou mais de 3 anos 
desenvolvendo irá "conversar" com a nova plataforma móvel da Intel. Produtos, 
softwares e conectividade serão compatíveis. Isto é um ganho enorme para ambos 
e, principalmente, para nós, usuários. 

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