"O fato da cura de Pierre de Rudder"

O santuário de Oostakker, na Flandres Oriental, é manifestação da devoção secular da Bélgica à Imaculada, já antes da proclamação do Dogma (em 8 de dezembro de 1854). Depois Oostakker foi chamada "Lourdes em Flandres". Uma basílica com residência de jesuítas, encarregados do Santuário e de atender às procissões e peregrinações. É chamado santuário das Três Grutas: Massabielle (Lourdes) no centro, Belém à direta, e da Ressurreição à esquerda. Também A(s) Gruta(s) das Três Fontes. Ali ocorreu o milagre da cura de Pierre De Rudder21.

O ACIDENTE — Pierre-Jacques De Rudder era de Jabbeke, na Flandres Ocidental. O sofrimento oprimia o pobre jardineiro. A morte levara a primeira esposa e filho, e do segundo matrimônio perdera sete dos nove filhos.

Em 16 de fevereiro de l867, Pierre-Jacques De Rudder, de 44 anos, se deteve a conversar com dois conhecidos, os irmãos Knockaert, que estavam derrubando árvores perto do castelo do seu empregador, visconde de Bus. Ofereceu-se a ajudar. Estava tirando galhos de uma planta. Atrapalhava o trabalho dos dois irmãos uma árvore que caíra em lugar errado, que empurravam com alavancas. Mas a árvore escorregou. Caiu sobre Pierre De Rudder. Triturou a perna esquerda de um decímetro abaixo do joelho até o peito do pé inclusive. Tíbia e perônio, quebrados. Os ossos do terço superior da perna esquerda ficaram separados três centímetros dos correspondentes ossos dos dois terços inferiores. No processo consta o testemunho dos dois lenhadores.

Consta também o testemunho do médico de Oudenbourg, dr. Affenaer, chamado pelo patrão de Pierre-Jacques, o visconde de Bus. O médico imobilizou a perna e manteve o conjunto com uma bandagem amidoada.

E AS IRREPARÁVEIS CONSEQÜÊNCIAS — Várias semanas depois, ao retirar o aparelho imobilizador, porque o ferido sofria exacerbadamente, não houvera nenhum progresso. Pelo contrário: os fragmentos de ossos, desprovidos do seu periósteo, estavam banhados em pus. Chaga com longa ulceração, purulenta e gangrenada. Chaga também no peito do pé. O médico foi radical: retirou um seqüestro (fragmentos necrosados de osso). A perna balançava abaixo do joelho.

Pierre De Ruddder ficou um ano na cama. Quando se levantou, só podia caminhar apoiando-se em duas muletas sem que de modo nenhum a perna doente tocasse no chão, pois a dor — como em outras muitas oportunidades — seria dilacerante.

O empregador, visconde Albérico de Bus de Gisignies, leva o manco aos melhores especialistas de Bruxelas, dentre eles ao famoso dr. Thiriart, cirurgião do rei da Bélgica; ao dr. Tschackert, de Bruges; ao dr. Buylaert, de Varsenaere; ao dr. Verriest, Presidente da Associação Médica de Bélgica, que introduziu no aparelho amidoado imobilizador uma abertura ao nível da chaga para que fossem mais simples os curativos e a limpeza do pus. E a outros médicos…

Não há possibilidade de recuperação, especialmente por falta de periósteo, do qual depende a formação do calo ósseo necessário. O balançamento da perna danificara e infeccionara cada dia mais a chaga purulenta, facilitando o necrosamento dos ossos nos extremos da fratura. Os médicos com muita dificuldade conseguiam circunscrever a gangrena às chagas da perna. Todos os médicos citados depuseram no processo.

O doente tinha de lavar suas feridas duas ou três vezes por dia. Foram passando os meses, os anos, oito anos. Agora só amputando a perna à altura do joelho havia alguma possibilidade de salvar-lhe a vida. Poucas possibilidades. A amputação naquela época e na situação da perna, o tratamento e a assepsia seriam muito difíceis… A amputação muito provavelmente só aceleraria a morte do miserável sofredor Pierre De Rudder.

No processo constatou-se que havia inumeráveis testemunhas. Médicos e particulares.

Médicos: destaquemos as freqüentes observações do dr. Van Hoestenberghe, que também teve de retirar vários seqüestros; o dr. Verriest o examinou quatro vezes em 1874, sete anos após o acidente, poucos meses antes que Pierre De Rudder fosse ao santuário de Na. Sra. de Lourdes em Oostakker. Uma semana antes da peregrinação, o dr. Houtsaegher examinou o doente, e concretamente destacou as observações do balanço desordenado da perna, inclusive ficando o calcanhar para a frente e os dedos para trás. Na véspera da viagem, o dr. De Visch faz constar no seu relatório as chagas purulentas e fétidas, uma mais profunda abaixo do joelho e outra mais extensa no peito do pé, como também o movimento de torção e o balançar da perna em todas as direções, podendo dobrar-se sobre si mesma.

Particulares: Jacques Van Hessche, empregado do visconde de Bus, que freqüentemente observou todos os detalhes da perna e que semanalmente levava a Pierre De Rudder a penS. que o visconde, seu ex-patrão, lhe assinara. Jacques de Fraye, que em 1874 constatou meticulosamente todas as afirmações a respeito, inclusive que Pierre de Rudder, levantando com as mãos o joelho esquerdo, fazia balançar a perna em todas as direções, e também, expressamente, que levantando a perna com uma mão, com a outra imprimia-lhe um movimento de torção até os dedos ficarem para trás e o calcanhar para a frente. Com esses movimentos, freqüentemente esguichava pus. Enfim…, Jabbeke é uma vila onde todos se conhecem. Pierre De Rudder inclusive, precisamente pela sua angustiante situação, era conhecidíssimo. Inspirava a compaixão de todos. Tudo público e notório, constatadíssimo.

Oostakker alcançara muita fama pelos milagres de cura pela intercesS. de Nossa Senhora de Lourdes, lá venerada. As curas prodigiosas começaram em 1874. Em 1876 o pe. Scheerlink já publicava 25 casos de curas extraordinárias. E dez anos mais tarde o pe. Denis publicava 49 22.

DRAMÁTICA PEREGRINAÇÃO — Todos os médicos, como também o visconde Albéric de Bus — morrera um ano antes da peregrinação — e seu filho visconde Christian De Bus sempre desaconselharam e até ridicularizaram a pretenS. de Pierre De Rudder de participar de uma peregrinação a N. Sra. de Lourdes em Oostakker para pedir a cura. Só uma graciosa jovem, prima do jovem castelão de quem viria a ser esposa, indiretamente animava a Pierre De Rudder com um compreensivo sorriso.

Quando já viscondessa de Bus, no dia 5 de abril de 1875 chamou seu pobre ex-empregado. Queria, caridosa, ver o estado da perna. Escreve nas suas memórias: "Então ele tirou as faixas, todas impregnadas de pus e sangue. Insuportável odor se desprendia (…) As duas partes do osso quebrado traspassavam a pele e estavam separadas por uma chaga supurante de três centímetros de comprimento".

Comovida, a viscondessa de Bus convenceu seu marido a possibilitar a viagem, não porque esperasse a cura, senão para proporcionar a tão sofredor doente um consolo espiritual, como ela mesma fará constar muito tempo depois, em 1904, na sua peregrinação ao Santuário de Lourdes, na França23.

Na mesma semana anterior à peregrinação, o tanoeiro sr. Jean Houtsaegher, de Stalhide, viu como a perna de Pierre De Rudder se dobrava a tal ponto que apareciam as extremidades dos ossos quebrados.

Três dias antes da viagem, o sr. Louis Knockaert observou com muito detalhe e compaixão a perna de Pierre De Rudder. Dois dias antes da peregrinação, o sr. Auguste De Wulf, de Knocke-sur-Mer, ao voltar a Jabbeke, ansioso para rever seus antigos companheiros após uma ausência de 25 anos, observou a chaga aberta na perna de Pierre De Rudder, e inclusive introduziu nela o dedo comprovando a separação entre as extremidades do osso quebrado. Na tarde daquele mesmo dia, 5 de abril, a sra. Marie Wittezaele também assiste aos curativos e comprova toda a triste realidade.

Na véspera da peregrinação, de novo a sra. Marie Wittezaele, desta vez junto com o sr. Edouard Van Hooren e seu filho Jules, que voltavam do trabalho no campo, viram a perna supurante. Viram como balançava. Observaram as extremidades do osso quebrado separadas entre si uns três centímetros e aparecendo na chaga. Verificaram que a chaga era "do tamanho aproximado de um ovo de galinha" e cheia de pus. Sentiram o fedor. Viram como "a parte inferior da perna girava de forma que o calcanhar ficava quase plenamente na frente"…

No dia da peregrinação a Oostakker, 7 de abril, oito anos e dois meses após a fratura, o guarda-barreira Pierre Blomme o acolhera na sua casa, para que descansasse um pouco do seu esgotamento. Porque Pierre De Ruder, da sua casa à estação do trem, teve de caminhar duas horas, apoiado nas suas muletas e ajudado pela esposa, para percorrer somente dois quilômetros e meio. O sr. Blomme viu o balançar da perna nua, sentiu o cheiro fétido das chagas purulentas e da gangrena etc.

Outro guarda-barreira, sr. Balthazar De Jaegher, que como todos conhecia muito bem a Pierre De Rudder, ajudou-o a subir no trem às 6 da manhã do dia 7 de abril de 1875, e viu, uma vez mais, a perna balançando.

Testemunhos do chefe da estação, sr. De Cuyper, que como todos conhecia muito bem Pierre de Rudder. Dos companheiros de viagem. Sentou-se no trem junto a Jean Duclos e sua mãe. Todos, mais uma vez, viram dona Colete, a esposa de Pierre De Rudder, ajudando-lhe a trocar as bandagens, e observaram a horrorosa situação da perna.

Em Gand-Sud, Pierre De Rudder tem de ir de carro puxado a cavalo. O carreteiro debochou do balançar da perna: "Eis aí um que vai perder sua perna", mas o deboche torna--se um misto de indignação e compaixão quando vê o pus e o sangue escorrendo sobre a carruagem.

E em Anvers o encarregado do ônibus até Oostakker, sr. Louis Van Hulle, ajuda o doente a colocar-se deitado ao longo de um banco, e constata a dificuldade insuperável que Pierre De Rudder tem em manejar sua perna "flexível".

Por fim, em Oostakker — Há que caminhar um pouco. No caminho, detém-se para descansar e reza fervorosamente perante o Crucificado no velho Calvário. Está esgotado. Sua mulher, Colete, oferece-lhe um pouco de água que acaba de pegar na fonte da gruta, para reanimá-lo e possibilitar-lhe dar mais uns poucos passos.

Dia 7 de Abril de 1875. Em Jabbeke, após a saída dos seus pais em peregrinação, a jovenzinha Sylvie, de 14 anos, que fica cuidando da casa e do irmão pequeno, Augusto, de 4 anos, mantém aceso um círio perante a imagem da Sma. Virgem.

Pierre-Jacques De Rudder está agora diante da gruta de Na. Sra. de Lourdes em Oostakker-lez-Gand. Reza. Quase chora. Confia muito filialmente na Mãe Celeste. Segundo o costume quer dar três voltas ao redor do montículo da gruta. O esforço é extraordinário. Já deu duas voltas, apoiado penosamente nas muletas, e amparado pela esposa Colete e por um desconhecido caridoso. E não consegue mais. Consumido pela fadiga extrema, desiste. Deixa-se cair sobre um banco. Reza. Expectativa. Sorrisos irônicos de uns. Lágrimas de compaixão de outros.

E… Pierre De Rudder se levanta, caminha sem muletas entre os bancos dos peregrinos até o pé da imagem de Nossa Senhora, se ajoelha. Só então percebe que caminhara até lá, só então percebe o instantâneo desaparecimento da gangrena, da supuração… Instantânea recuperação dos ossos, da carne… E das forças. Pula, dança, corre cheio de alegria e agradecimento. A esposa cai quase desmaiada de emoção.

IMPOSSÍVEL? talvez não — Imediata constatação médica. Em companhia da esposa e de várias testemunhas, Pierre De Rudder vai ao vizinho castelo da Marquesa Alph. De Courbourne, dona da gruta, construída às expensas do seu pai. No castelo os médicos tocam, examinam… Médicos e particulares, todos constatam sob as duas cicatrizes — que Pierre De Rudder conservará toda a vida — e testemunham "o fato da cura de Pierre De Rudder (que) não pode ser verdadeiro"!

No dia seguinte e no outro e no outro… todos os médicos que antes examinaram e trataram do doente agora vêem e tocam "o fato da cura…"

Em Jabbeke, o dr. Affenaert, na casa do sr. Charles Rosseel, examina a perna de Pierre De Rudder tanto mais meticulosamente quanto mais resiste a acreditar na cura daquela perna quebrada. Todo o conhecimento do médico é que "foi quebrado por encontrar a face interna da tíbia inteiramente lisa à altura da fratura" antes tão conhecida. Por fim tem de reconhecer: "Você está inteiramente curado. Sua perna há sido fortemente consolidada. Ela está como a de uma criança, e não como a de um homem cuja perna há estado quebrada. Os meios humanos eram impotentes a permitir-lhe caminhar; mas o que não podiam fazer os médicos pôde Maria".

Em toda a cidade, invencível curiosidade e emoção. O pároco, pe. Slock, celebrou uma novena de Missas cantadas em ação de graças. A igreja ficou cheia naqueles nove dias. Contavam-se 500 participantes numa população de 2.000 pessoas.

O pe. Alfred Deschamp, jesuíta e doutor em medicina, recolhera inúmeros testemunhos no seu inquérito. O próprio sr. bispo de Bruges, mons. Faict, em 12 de abril, isto é, cinco dias depois do milagre, estando de passagem por Jabbeke, examina em companhia do pároco a perna milagrosamente curada.

"Após sua cura — diz a viscondessa de Bus — nós o conservamos quinze anos como trabalhador" rude e sólido, a quem era preciso mandar que moderasse sua atividade e total dedicação, "e o encontrávamos quase sempre rezando seu terço. Ele edificava a todos". Com a autorização da viscondesa de Bus, Pierre De Rudder, aproveitando os dias de folga, realizou alegremente quase quatrocentas peregrinações a Oostakker para agradecer sua cura a Deus e a Nossa Senhora.

"O fato da cura de Pierre De Rudder…" continuou sendo verificado durante muitos anos.

Novas constatações, 18 e 19 anos depois da cura, foram realizadas durante o mês de janeiro de 1893 pelo dr. Royer, de Lens-Saint-Rémy e em 23 de julho de 1894 pelos especialistas drs. Clement de Piquet, da Áustria, e Van Ysendyck, da Bélgica. "Não pode ser verdadeiro", mas é. Indiscutivelmente. Os três constatam que "a tíbia da perna esquerda (a que havia quebrado) apresenta uma face interna tão lisa como a da direita, sem calo, sem a menor diferença, sendo que na crista (na parte externa) apresenta uma muito ligeira depresS. ao nível da cicatriz", "uma depresS. redonda, do tamanho de uma moeda (…), onde estava a fratura".

[continua]
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   Fernando De Matos:
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