O APÓSTOLO S. JOÃO — Estava já com 90 anos de idade, quando foi trazido do desterro na ilha de Patmos a Roma, em campo aberto, diante da porta Latina. O imperador Domiciano queria dar um escarmento a todos os cristãos, precisamente na pessoa do ancião patriarca e discípulo predileto do Senhor. O ancião evangelista, sem dúvida primeiro foi açoitado, segundo o costume da época. Depois, assim, com o corpo literalmente descascado da pele pelos açoites, perante toda a multidão foi submergido num caldeirão de óleo, piche e resina ferventes.

Assim uma e outra vez era retirado e logo de novo submergido no líquido fervente. No súbito silêncio da multidão que esperava ouvir os gritos dilacerantes como era comum aos condenados a tal suplício, só ouviram por cima do crepitar das chamas e do borbulhar do líquido fervente a voz, firme para sua idade, de S. João Evangelista recitando versículos de louvor a Jesus tirados do seu próprio evangelho.

Mais e mais vezes o mesmo submergir, o mesmo silêncio, a mesma voz louvando a Jesus Cristo…, até que por fim o fogo apagou naturalmente e o óleo, a resina, o piche deixaram de ferver. O santo foi retirado completamente incólume ou antes revigorado. Levaram-no de novo ao desterro24.

Milagre muito repetido

* Século III. Na perseguição aos cristãos durante o curto tempo em que Cláudio II, o Gótico, foi imperador romano (268-270), entre outros muitos mártires foram condenados o bispo S. Cipriano e a abadessa Santa Justina.

Primeiramente e durante muito tempo a então jovem e recém convertida Justa (o nome pagão) venceu os venenos e poções mágicas (como se realmente existisse a magia!) feitos contra ela pelo célebre mago Cipriano. Justa simplesmente fazia o sinal-da-cruz e enfrentava todo e qualquer feitiço ou poção mágica (venenos). Tanto impressionou ao mago Cipriano o poder do sinal-da-cruz contra os seus feitiços, que também ele se converteu ao cristianismo.

Chegou a ser bispo… e mártir S. Cipriano. Mas Justa não só superou os venenos do feiticeiro Cipriano. Já abadessa, agora com o nome cristão de Justina que lhe conferiu o agora bispo Cipriano, juntos enfrentaram os tormentos sob o prefeito romano Eutórmio. S. Cipriano e Santa Justina sararam como que automaticamente dos açoites com varas e ganchos de ferro. Não só: foram jogados num caldeirão cheio de piche fervente. Longo tempo, com desespero dos algozes, lá ficaram completamente ilesos e completamente ilesos saíram daquele banho25.

— É este mesmo santo cuja história foi completamente deturpada pelos ocultistas, transformando-o em papa!, e papa feiticeiro!, a quem absurdamente atribuem o supersticiosíssimo “O Legítimo (?) Livro de S. Cipriano”!

* Final do século III. Durante a perseguição dos imperadores associados (285-293) Diocleciano e Maximiano. Santa Lúcia foi submergida até o pescoço em piche fervente e chumbo derretido. Incrível para as testemunhas: aí permaneceu durante horas, e quando pensavam que retirariam um corpo completamente carbonizado pelo óleo, e ao contato com o ar completamente enrijecido pelo chumbo, encontraram a santa completamente ilesa26.

* Corresponderia no calendário gregoriano ao dia 9 de janeiro do ano 313. Maximiano II, que comandou o Império romano do ano 308 ao 313, enviou Marciano a extirpar o cristianismo em Antioquia, o que a perseguição dos seus predecessores Diocleciano e Maximiano não haviam conseguido. Um dos primeiros atos de Marciano foi convocar a seu tribunal o rico cristão S. Julião, que albergava na sua casa muitos sacerdotes e outros cristãos esperando livrar-se da perseguição.

S. Julião teve de presenciar a morte de muitos sacerdotes na fogueira. Mas não se intimidou. Sofreu então violentas torturas tão valentemente, que o próprio filho do presidente pediu o batismo.

Quando em Roma o imperador Maximiano II se inteirou da firmeza de S. Julião e da converS. do filho de Marciano, ordenou a seu presidente que exterminasse o próprio filho junto com S. Julião no caldeirão de óleo, piche e resina ardentes. Marciano, não querendo presenciar a morte do seu filho, encomendou a execução a um dos seus subalternos. S. Julião, junto com vários outros companheiros cristãos, foi lançado no caldeirão. E tanto ele como seus companheiros, todos, saíram do banho ardente completamente ilesos. Mais ainda, durante o banho e ao sair cantavam: “Sim, ó Deus, Tu nos provaste (…), passamos pelo fogo e pela água, e Tu nos fizeste encontrar refrigério” (Sl 66,10.12 — afasto-me ligeiramente da tradução da Bíblia de Jerusalém, porque além dessa tradução ser discutível a tradução que apresento é a que os historiadores trazem como cantada pelos mártires)27.

* Século IV. S. Erasmo, bispo de Campanhia. Na perseguição de Diocleciano. Primeiro foi açoitado com varas, depois com porretes nodosos, e quando tinha quase todo o corpo em carne viva, para cruel divertimento com o lógico arrepio da multidão, foi jogado num caldeirão cheio de piche, óleo e resina ferventes. Muito tempo depois, S. Erasmo saiu completamente ileso28.

E os teólogos católicos?

Como é de sobra sabido por todos, o modernismo é filho do racionalismo do século XIX. Naquele século o modernismo grassou preferentemente entre os teólogos protestantes. Rejeitavam os milagres bíblicos e dos primeiros anos para a instalação do cristianismo. Os protestantes nem consideraram a possibilidade de milagres posteriores, dando por suposto que não existiam. (Evidentemente me refiro às denominações protestantes seculares, sérias, com notável conhecimento teológico; não à multidão de seitas recentes, de notável superficialidade teológica, na realidade fundamentalmente folclóricas, fanáticas e fanatizadoras, a serviço dos interesses escusos dos seus mais altos dirigentes.)

Hoje, porém, a maior parte dos modernistas S. teólogos católicos. E ao inverso: hoje a maior parte dos professores católicos de teologia S. modernistas! Pretendem acabar também com os milagres que os protestantes nem sequer consideraram: os milagres ao longo de toda a história do cristianismo até hoje.

Ora… É muito importante. Porque os teólogos católicos modernistas têm de escolher: ou católicos ou modernistas. As duas coisas é “irreflexão teológica” demais! Dedico o fim deste capítulo aos teólogos modernistas de hoje.

A BÍBLIA E O JUDAÍSMO — É claro que o pensamento judaico, quando não verdadeiramente fundamentado na Revelação bíblica, nem é nem pode ser argumento teológico para os cristãos.

Mas quando se trata de interpretação judaica da Bíblia tanto mais força tem e deve ter quanto mais universal no tempo e no espaço. O cristianismo é a coroação do Antigo Testamento, e Jesus é o Messias anunciado durante séculos.

Ora, o Judaísmo sempre acreditou que na Bíblia se mencionam algumas ou mesmo muitas intervenções milagrosas de Deus, e esta tradição foi e é universal nos mestres de Israel. Foi só a partir da Idade Média que Baruch Spinoza (com alguns poucos pensadores judeus), apoiando-se erradamente num aparente aristotelismo herdado através de Averróes (que acreditava nos milagres) e ainda mais modificado por Maimônides (que também acreditava nos milagres), caiu no racionalismo e negou os milagres. Foi considerado ateu, ao menos herege do judaísmo, e inclusive expulso da Sinagoga (ele e outros seguidores).

NA BÍBLIA E NOS SANTOS PADRES — Ainda maior força teológica deveriam conceder os teólogos modernistas, se querem ser considerados católicos, a este outro argumento: a Bíblia como foi entendida e vivida nos inícios do cristianismo (e deveria me estender pelos maiores teólogos, filósofos e outros cientistas de toda a história do cristianismo).

Os próprios modernistas reconhecem que para os protagonistas da Bíblia, assim como para os santos Padres, para os escritores eclesiásticos e para os cristãos dos três primeiros séculos era indiscutível que havia milagres. Quando alguém duvidou, foi considerado herege.

Como garantia deste reconhecimento pelos próprios modernistas, basta citar três: o congresso de exegetas celebrado em Chantilly para a “releitura” (?) e os “métodos modernos de abordagem” (?!) “dos relatos bíblicos de milagres29; Com os mesmos objetivos, o congresso de exegetas e de teólogos em geral celebrado em setembro de 1973 em Lille, organizado pela Association Catholique Française pour l’Étude de la Bible (ACFEB); e, no que se refere aos milagres, a “enquête renouvelée” propondo “plusieurs lectures” ou novas releituras (?!) realizada e publicada sob a coordenação do grande (?) líder modernista Léon-Dufour30.

Ora, se está fora de toda dúvida que a Bíblia apresenta certeza de que havia milagres; se os primeiros cristãos tinham certeza unânime de que havia milagres; e também unanimemente nos milagres fundamentavam sua fé e sua pregação, é muito justo perguntar aos teólogos católicos modernistas: é essa mesma certeza e é esse mesmo fundamento da fé e da pregação também hoje, ou o cristianismo mudou tão radicalmente?

Dado que os modernistas S. simplesmente eco dos racionalistas; dado que nada analisam em matéria de milagre; dado que inclusive se negam a estudar os milagres modernos, que poderiam iluminar brilhantissimamente “os relatos bíblicos de milagres”; e dado também que não apresentam nenhuma outra prova minimamente consistente que seja, é muito justo perguntar o que devem escolher: fazer-se eco das afirmações bíblicas e dos primeiros cristãos ou fazer-se eco das tergiversações certamente mal-intencionadas dos racionalistas do século XIX?

*** Eu sei que também aqui e agora muitos modernistas apresentarão sutilezas…

— Sou parapsicólogo e não adivinho. Mas é que seria um milagre de cura acabar, sem terapia ou de repente, com o puro apriorismo incrustado na mente dos modernistas pelo bonito embora oco estilo dos racionalistas. Os racionalistas apresentarão as sutilezas e evasivas também em estilo muito bonito, mas igualmente oco.

[Continua] 

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