Continua a refutação

ESTATÍSTICA: MERAS FORMULAÇÕES — Está bem claro que muitos cientistas modernos não entenderam que a estatística não passa de um método de medida e de formulação de conhecimentos. A razão crítica menor, maior ou imensa na formulação estatística não atinge outra formulação por hipóteses ou por teorias ou por leis, segundo os casos.

A estatística em absolutamente nada atinge o milagre32.

Determinadas formulações estatísticas podem significar plena certeza. Exatamente como a formulação por leis (físicas ou da natureza, às que preferencialmente nos referimos ao discutir com os racionalistas o tema dos milagres; mas podemos incluir também as leis morais e as metafísicas).

Escreve Émile Borel, considerado uma das maiores autoridades no método científico do cálculo de probabilidades: “Imaginemos que houvessem amestrado um milhão de macacos para que batessem ao acaso as teclas de máquinas de escrever. E que sob a vigilância de domadores analfabetos estes macacos datilógrafos trabalhassem ardorosamente dez horas por dia com um milhão de diferentes máquinas. Os domadores analfabetos depois recolheriam as páginas datilografadas e as reuniriam em volumes. Imaginemos que ao fim de um ano estes volumens encerrassem a cópia exata dos livros de toda espécie e em todas as línguas conservados nas bibliotecas mais ricas do mundo! Tal é a probabilidade de que se produza num instante muito curto, no recipente A, na composição da mistura de gás, uma diferença da ordem de uma milésima parte”.

“Supor que essa diferença assim produzida subsistirá durante alguns segundos equivale a admitir que durante vários anos nosso exército de macacos datilógrafos, trabalhando sempre nas mesmas condições, produzirá a cada dia a cópia exata de todas as palavras que pronunciarão todos os homens sobre toda a superfície do globo, e todos os impressos, livros e jornais no mesmo determinado dia da semana seguinte. A respeito das probabilidades de semelhantes diferenças é mais simples dizer que S. puramente impossíveis” (naturalmente…)

“Podemos prever (…) que água colocada (numa retorta de laboratório) sobre o fogo ferverá e não se converterá em gelo. Não obstante, (na formulação pelo cálculo de probabilidades) não é impossível no sentido absoluto do termo, senão somente grandemente improvável, que a água sobre o fogo congele (…) Sem dúvida que para todo homem sensato (a formulação em) tal grau de probabilidade equivale à certeza33.

Comentam outros dois grandes especialistas tanto no método científico de cálculo de probabilidades como na análise filosófica, Masi e Alexandri: “Segundo (a mera formulação por) o cálculo de probabilidades é (ou se formula como se fosse) possível que a água numa retorta colocada sobre o fogo se convirta em gelo, e que por sua parte o fogo se faça mais quente a expensas do calor desprendido pela água. Mas é certo que jamais acontecerá na base das probabilidades. Se alguma vez ocorrer o fenômeno, deverei perguntar qual foi a causa física que o produziu, e com certeza não recorrerei para sua explicação à distribuição probabilística do calor”34.

A possibilidade de erros, isto é, a freqüência e grau em que os acontecimentos se afastam da média esperada estatisticamente, é expressa pela chamada curva de Gauss (na forma de um sino baixo e largo): Os acontecimentos que se separam da média S. tanto menos freqüentes quanto mais se separam. Assim, por exemplo, se estatisticamente a altura média dos homens adultos em todo o mundo é de 1,75 m, quanto mais nos afastemos dessa média estatística, centímetro a centímetro, por ambos os lados, tanto mais vai diminuindo o número de indivíduos representados nessas alturas, por excesso e por falta.

Mas a curva de Gauss, embora formulada estatisticamente, corresponde a leis biológicas mais ou menos conhecidas. Portanto, as “ladeiras do sino” vão desenhando-se harmoniosamente, sem erupções.

E todas as possiblidades da biologia ficam infalivelmente dentro dos limites extremos da curva. Milhões de pessoas adultas têm 1,80 m e milhões de adultos tem 1,70 m. Já bastante menos mas ainda muitos têm 1,85 m, como também outros muitos têm 1,65 m. Pode haver alguns gigantes, muito poucos, de pouco mais de dois metros, como pode haver também muito poucos anões de um pouco menos de um metro. Mas pelas leis naturalmente invioláveis da biologia, não duvidaríamos em chamar alienado a quem afirmasse conhecer um homem adulto de vinte centímetros ou um outro de vinte metros.

O que dizemos da altura, por mais conhecido (todos temos uma determinada altura), aplica-se a todas as leis da natureza, por mais que se expressem por estatística.

Os acontecimentos claramente diferentes das leis da natureza, ninguém que não seja nem finja ser alienado poderá negar que se devem a Outra Força, não da natureza. Supranormal. Sobrenatural. Milagre.

Com muita lógica o explica o excelente professor de filosofia pe. Cerruti, S. J.: “A própria existência de leis estatísticas, isto é, o fato de podermos calcular o grau de probabilidade de um fenômeno que se nos apresenta como indeterminado, mostra claramente que sob esse fenômeno há um determinismo fundamental. Porque se ele dependesse somente do puro acaso não seria possível formular nenhuma previS. objetiva a seu respeito”.

“Este determinismo fundamental é exigido também pela física quântica e pelo princípio de indeterminação de Heisenberg. A racionalidade das leis estatísticas, sejam elas estabelecidas a priori ou a posteriori, está sempre baseada no princípio de causalidade determinada, que a causas iguais atribui efeitos iguais”35.

Meu saudoso e sábio professor pe. Riaza, S.J., nos repetia freqüentemente que nos fenômenos microscópicos o princípio de incerteza designa as leis de que não temos certeza, é o modo de qualificar as leis que desconhecemos.

Sempre — continua o pe. Riaza — que os físicos, dentro da apresentação perfeitamente determinada dos elementos dos sistemas físicos e de suas evoluções, acrescentam descrições meramente estatísticas de certas notas particulares, trata-se de aspectos dos fenômenos cujos processos desconhecemos. Tal a descrição estatística das intensidades das radiações, que respondem a evoluções energéticas desconhecidas em cada átomo. O mesmo há que dizer da “vida média” dos átomos radioativos: a ela respondem nos átomos condições internas desconhecidas. Aliás, precisamente essas mesmas leis estatísticas que descrevem estes fenômenos radioativos exigem que aceitemos que há nos átomos individuais certas propriedades que desconhecemos, mas que correspondem à diversa natureza e à diversa situação física de cada um dos átomos. A estatística com roupa indeterminista pretende vestir o subjacente determinismo.

Ainda meu professor pe. Riaza: E além disso, mesmo no mundo microscópico e na física quântica, conhecemos muitas leis perfeitamente definidas: como o princípio de que o produto dos erros nas relações de incerteza não pode ser inferior ao “quantum de ação”; a lei de que toda ação tem um valor mínimo fixo: o “quantum h” ou um múltiplo exato dele; os espectros dos diversos elementos estão exatamente definidos; está definido o número de valências dos diferentes átomos; e os diferentes tipos de reações químicas; os compostos químicos têm fórmula determinada que expressa a composição de cada molécula; está definida exatamente a carga elétrica elementar; e o peso individual do elétron, do próton, de cada um dos diversos isótopos atômicos; etc. etc.36.

Como concluía meu professor: “Uma pessoa adulta não se admira por tais fatos (às vezes imprevistos, da macrofísica), sabe que acontecem de acordo com normas fixas e invariáveis, seguindo leis. Mesmo os fenômenos (da microfísica) que à primeira vista parecem casuais e sem lei mostram uma maravilhosa regularidade e constância que se cristaliza em leis (mesmo que as formulemos e as chamemos) estatísticas. A existência de leis estatísticas é prova de que o domínio da ‘legalidade’ (por todos conhecido na macrofísica) se estende também sobre a aparente desordem individual” de cada corpúsculo na microfísica37. 

A EXPERIÊNCIA CONTRA A “NOVA FILOSOFIA” — Sem apoiar-se na realidade dos fatos não há filosofia, mas puro sofisma. Contra as elucubrações de Bergson e a “nova filosofia” basta abrir os olhos para ver que não é verdade que nada há comum na natureza, que tudo é diferente.

Na imensa variedade de fenômenos há, sim, as propriedades essenciais pelas quais cada coisa se diferencia das outras de outra espécie. E há, também, as características individuais pelas quais cada coisa se diferencia das outras da mesma espécie.

Mas apesar dessas diferenças há as características essenciais pelas quais cada coisa se identifica com todas as outras da mesma espécie. E todos os seres humanos, e todos os animais dentro de cada espécie, e todos os membros de cada espécie de animais, apesar da enorme quantidade de detalhes acidentais, nutrem-se, desenvolvem-se e se reproduzem da mesma maneira. Igualmente, apesar de inumeráveis notas individuantes de cada líquido, de cada gás, de cada sólido, todos têm as mesmas propriedades essenciais próprias da sua natureza ou espécie.

A veste contingente cobre o necessário. Sob a veste individualizante está o comum. Os racionalistas, portanto, assim como o próprio Bergson e os partidários da “nova filosofia”, nada podem objetar contra os milagres.

A verdadeira filosofia…

… APLICADA À FÍSICA — De fato, a verdadeira filosofia prova que o livre-arbítrio é exclusivo de seres inteligentes, as coisas irracionais essencialmente estão determinadas às suas atividades específicas sem possibilidade de escolha. Idênticas causas materiais, em idênticas circunstâncias, produzem idênticos efeitos.

Lapidariamente o expressou o conhecido professor de mística, Pinard de la Boullaye: “A ciência (experimental e teórica: a ciência de observação e a filosofia) de hoje, de amanhã e de todos os tempos exige o determinismo, a não liberdade da matéria e de todas as forças que, de qualquer maneira, procedem dela”38.

… APLICADA À BIOLOGIA — E o determinismo é também patente na biologia, nos seres vivos, objeto mais freqüente do milagre.

Apoio-me na autoridade de Lecomte de Noûy: “As leis do acaso (a estatística) hão prestado grande serviço à Ciência e continuarão a prestá-lo. Não podia ser de outra maneira. Mas isto não passa de uma admirável interpretação subjetiva de certos fenômenos inorgânicos e de sua evolução, não S. a verdadeira e própria explicação da realidade objetiva”.

Também na biologia: “O que não podemos explicar e cuja causa não conseguimos descobrir (no mistério que simplesmente chamamos vida) é o fato de que a propriedade de uma célula nasce de uma coordenação de complexidade, de (aparente) caótica complexidade, gases. Tal coordenação (pela vida), transmissível, hereditária, contínua, foge completamente às nossas leis do acaso (…) Para estudar os fenômenos mais interessantes, como a vida e portanto o homem, vemo-nos obrigados a chamar em nosso auxílio um antiacaso, como o chama Eddington”.

E em outro lugar: “Tudo acontece por acaso (? — aparentemente), enquanto a vida estiver ausente; mas apenas esta aparece, isso não mais se verifica”39.

 [Continua]

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