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Subject: [listageografia] P-36
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Sexta-feira, 30 de março de 2001
O afundamento da maior plataforma da Petrobras
A CULPA É DA TERCEIRIZAÇÃO?
Duas semanas após o afundamento da maior plataforma de exploração da
Petrobras, a P-36, que estava em operação há apenas um ano no Campo
Roncador, Bacia de Campos (RJ), ainda não estão claros os motivos do
acidente. O relatório da Agência Nacional do Petróleo (ANP) sobre o
desastre, que resultou na morte de 10 petroleiros e prejuízos de US$ 80
milhões mensais para o país, só ficará pronto no final de maio. Até lá
continuarão circulando teorias sobre o sinistro.
A principal dessas teorias é que, por causa de uma válvula defeituosa, gás
natural teria se acumulado numa das colunas que suportavam a plataforma,
provocando as explosões que permitiram a sua inundação. Em seguida, os
outros compartimentos da coluna foram também inundados, o que fez a P-36
tombar, afundando-a.
A propósito, a Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) chegou a
afirmar que o projeto da P-36 tinha um erro essencial. Segundo seu diretor
de comunicação, Argemiro Pertence, o queimador de gás natural teria sido
instalado muito próximo do deck principal, contrariando as normas de
segurança. Pertence disse que às vezes a temperatura no deck chegava a 80?
C, o que pode ter alterado o funcionamento dos equipamentos para detecção
de irregularidades operacionais.
Outra informação dá conta de que, três dias antes do acidente, tanto o
gerente geral da Unidade de Negócios da Bacia de Campos, Carlos Eduardo
Bellot, quanto os supervisores de produção da P-36, Hélio Menezes Galvão e
Paulo Roberto Viana, e o gerente setorial da plataforma, Claronildo de
Covas Santos, sabiam da existência de uma falha no sistema de escapamento
de gás mas não mandaram interromper a operação, embora tivessem autonomia
para fazê-lo.
O diretor da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia
(Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Segen Estefen, também
apontou um erro de projeto como provável causa do afundamento da P-36.
Segundo Segen, um dos dois flutuadores da plataforma, que estava sob a
coluna onde aconteceram as explosões, tinha um tubo de ventilação
interligando os compartimentos, que deveriam ser estanques para impedir o
alagamento geral. A existência desse tubo contrariou todas as regras de
construção naval, pois uma comporta não deveria ter comunicação com outra.
Deixaram de ser levadas em conta, segundo Segen, até mesmo as experiências
acumuladas com a tragédia do Titanic.
O afundamento da P-36 é apenas um entre dezenas de outros desastres
registrados na Petrobras nos últimos anos, a maioria deles vazamentos de
óleo, que provocaram sérios danos ambientais. Nesse contexto, os
sindicatos dos petroleiros têm denunciado que as causas desses acidentes
têm a ver com problemas mais graves na gestão da empresa.
Uma dessas denúncias relaciona esses acidentes com o fato de há 12 anos a
empresa ter interrompido a renovação de pessoal qualificado e deixado de
fazer investimentos suficientes nas áreas de segurança industrial e de
meio ambiente, exatamente num período em que se ampliaram as suas
atividades. Em apenas três dos últimos vazamentos, ocorridos na Baía da
Guanabra (Rio de Janeiro, início de 2000) e no rio Iguaçu (Paraná, julho
de 2000), despejaram-se 6,45 milhões de litros de óleo. E desde 1998, a
Petrobras registrou 95 mortes em acidentes de trabalho, um morto a cada
12,4 dias. Em comparação, na Grã-Bretanha, que também explora petróleo em
alto mar, a média foi de duas mortes por ano, no mesmo período.
No ano passado, a Petrobras fechou o balanço com o maior lucro jamais
obtido por uma empresa brasileira: R$ 10,1 bilhões. Bateu recordes também
na produção de petróleo e de gás, atingindo 1,271 milhão de barris/dia,
mais que o dobro dos 617 mil barris/dia produzidos em 1989.
Segundo as lideranças dos petroleiros, esse sucesso está sendo obtido às
custas da segurança dos trabalhadores, uma vez que a empresa optou pela
dispensa de seus empregados, substituindo-os por mão de obra terceirizada
e por maior automatização de equipamentos. Hoje, para cada empregado
próprio (33 mil no total) há 1,2 terceirizado (41 mil no total).
O presidente da empresa, Henri Phillipe Reichstul, em seus depoimentos na
Câmara e no Senado, até admitiu que os terceirizados não recebem o mesmo
treinamento rigoroso dos empregados próprios, mas procurou negar qualquer
relação desse fato com os continuados acidentes que têm ocorrido
principalmente desde 1998. E informou que nos próximos dois anos a
Petrobrás gastará R$ 1,8 bilhão com o Plano de Excelência em Gestão
Ambiental e Segurança Operacional (Pégaso).
O incrível é que até janeiro do ano passado, quando ocorreu o derramamento
de 1,29 milhão de litros de óleo na baía de Guanabara, a Petrobras não
tinha um planejamento central para evitar e remediar possíveis acidentes
em suas unidades. As providências eram sempre tomadas localmente, sem base
em normas unificadas, que só agora estão sendo agrupadas no Pégaso. Essa
informação foi dada à Folha de S. Paulo por um dos responsáveis pelo
programa, o gerente de segurança Irani Varella.
Há quem diga que o atual presidente da Petrobras, Henri Philippe
Reichstul, estaria, com tantos desastres a estourar em suas mãos, pagando
pela omissão do ex-presidente, Joel Mendes Rennó, que durante a sua gestão
de seis anos teria descurado da manutenção de equipamentos e dutos. Apenas
investigações mais abrangentes sobre as causas do afundamento da P-36 e
dos demais acidentes poderão indicar quem está com a razão. E afastar as
fortes suspeitas de que a atual direção da empresa está buscando lucros a
qualquer custo.
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