Sent: Wednesday, May 30, 2001 1:40 PM
Subject: Coisas do Brasil
COISAS DO BRASIL
Por Jos� Arbex Junior
28 de Maio de 2001
A Petrobr�s, uma das maiores empresas de energia do mundo, � um dos
poucos s�mbolos que ainda conseguem galvanizar um certo sentimento de
identifica��o nacional entre os bra-sileiros. A eventual privatiza��o da
Petrobr�s, por isso mesmo, seria um evento que transcenderia a mera
esfera econ�mica, para adquirir um estatuto estrat�gico. Para utilizar
uma analogia militar, equivaleria a derrubar o �ltimo basti�o da
nacionalidade, no pa�s mais importante da Am�rica Latina. O caminho,
ent�o, estaria muito mais desimpedido para a completa recoloniza��o do
hemisf�rio.
Ora, o imperialismo americano colocou em pr�tica uma estrat�gia de
recoloniza��o em grande escala. Essa estrat�gia inclui um movimento de
pin�a, composto por um grande componente geopol�tico - a ocupa��o
militar da Amaz�nia, por meio do Plano Col�mbia -, e por um grande
componente econ�mico - a cria��o da ALCA (Associa��o de Livre Com�rcio
das Am�ricas), tema de uma reuni�o de todos os pa�ses do hemisf�rio,
exceto Cuba, convocada para o dia 20 de abril, em Quebec.
A ocupa��o da Amaz�nia, a pretexto de combater o narcotr�fico, foi
precedida de uma vasta campanha pela "internacionaliza��o" da regi�o, o
suposto "pulm�o do mundo" que precisa ser "salvo" pela civiliza��o
branca, de prefer�ncia protestante, contra a a��o predat�ria dos
"b�rbaros" latino-americanos. E a ALCA surge como uma resposta dos
Estados Unidos � incompet�ncia das na��es do hemisf�rio, que jamais
conseguiram organizar de maneira eficiente o seu parque produtivo.
Claro que tudo seria muito mais f�cil, n�o fosse a exist�ncia de alguns
movimentos que teimam em resistir, e n�o fosse a perman�ncia de alguns
poucos s�mbolos nacionais importantes, como � o caso da Petrobr�s. A
destrui��o da Petrobr�s como s�mbolo torna-se t�o importante, nesse
quadro, como a sua privatiza��o. Isto �, o seu valor psicossocial
rivaliza com os lucros que a empresa pode gerar. Da� que seria muito
�til, a qualquer um interessado na privatiza��o da Petrobr�s, que a
empresa fosse desmoralizada como s�mbolo. Facilitaria o processo de
privatiza��o e quebraria uma imensa barreira � estrat�gia de
recoloniza��o americana.
Essa constata��o torna inevit�vel a pergunta: ser� que a espantosa s�rie
de "acidentes" envolvendo a Petrobr�s � realmente "acidental"? Se a
resposta for positiva, paramos por aqui. Concluir�amos, ent�o, que n�o
apenas Deus n�o � brasileiro, como � favor�vel � privatiza��o da
empresa. Talvez ele at� seja protestante, loiro e de olho azul. Mas, se
a resposta for negativa, ent�o ter�amos de refletir sobre quem
poderia estar provocando esses acidentes. N�o h�, � claro, como fazer
uma afirma��o taxativa, mas a hist�ria fornece algumas indica��es
precisas.
Em 1953, Mohamed Mossadegh, presidente do Ir�, nacionalizou o petr�leo
de seu pa�s, ent�o explorado por companhias brit�nicas e americanas. Foi
derrubado por um golpe articulado pela CIA (servi�o secreto dos Estados
Unidos), que empossou o ditador fantoche Reza Pahlevi, respons�vel por
uma das ditaduras mais sangrentas do planeta. Caiu em 1979, sob o
impacto da revolu��o isl�mica liderada pelo aiatol� Khomeini.
Em 1954, o ent�o presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz, nacionalizou
uma empresa americana exportadora de bananas, a United Fruit. Foi
derrubado por um golpe articulado pela CIA, gerando uma guerra civil
que, em quatro d�cadas, matou pelo menos 50.000 pessoas. Depois da
Revolu��o Cubana, em 1959, a CIA multiplicou suas a��es em toda a
Am�rica Latina, apoiada na odiosa Doutrina de Seguran�a Nacional, criada
em 1962 pelo "democrata" John Kennedy, que transformou os ex�rcitos
nacionais em inimigos de seus pr�prios povos (como se viu, no Brasil,
com a instaura��o da ditadura militar, em 1964). Durante o esc�ndalo
Ir�-Contras (1987), comprovou-se que a CIA utilizou o narcotr�fico como
meio de obter verbas para, clandestinamente, comprar armas do Ir� e ced�-las �
guerrilha de direita (os "contras"), que lutava para derrubar o governo
sandinista da Nicar�gua.
Mais recentemente, em 1996, a Fran�a quase rompeu rela��es diplom�ticas
com os Estados Unidos, ao constatar que a Casa Branca utiliza um sistema
internacional de espionagem eletr�nica, o Echelon, mediante o qual
conseguiu "furar" e vencer uma licita��o internacional para criar o
SIVAM (Sistema de Vigil�ncia da Amaz�nia). A licita��o foi vencida pela
empresa americana Raytheon, que tirou uma empresa francesa do p�reo. O
governo americano foi levado a admitir, formalmente, a exist�ncia do
sistema "Echelon" de espionagem.
Como perguntar n�o ofende, vamos colocar de novo a quest�o: ser� que a
espantosa s�rie de "acidentes" envolvendo a Petrobr�s � realmente
"acidental"?
Quando o presidente do Senado qualifica de "velha prostituta" um
ex-presidente do Senado, e quando este acusa o outro de "ladr�o" e
responde que prostitutas abra�aram a sua profiss�o por n�o terem tido a
chance de saquear o Tesouro p�blico, e quando nada acontece - quando nem
sequer a m�dia reage, com indigna��o, a espet�culo t�o grotesco, ent�o
resta pouco a dizer, exceto, talvez, concordar com ambos, e lamentar que
a m�dia tenha descido a tal grau de coniv�ncia com a banaliza��o do mal.
A "nova onda" funk gerou dois tipos antag�nicos de rea��o, ambos
equivocados. O primeiro � moralista; condena o uso de "palavras
obscenas" e "gestos lascivos", como faz, por exemplo, a edi��o 1.693 da
revista Veja, de 28 de mar�o (p�ginas 83 a 86). Com esses argumentos,
ter�amos de crucificar uma ampla linhagem de autores "malditos",
passando por Greg�rio de Matos, Bocage e um certo Carlos Drummond de
Andrade, para citar s� os de l�ngua portuguesa. No outro extremo, est�o
aqueles que acham que "tudo pode", e identificam no funk uma
manifesta��o "popular"; confundem o popular com o vulgar, com o
popularesco. � o racioc�nio que, no limite, diria que Ratinho � popular,
ao passo que Karl Marx � de "elite".
O problema do funk n�o � o funk. A moda vai passar, como j� passou a
onda da "boquinha da garrafa" e outras bobagens semelhantes. O problema
� que cada uma dessas novas "ondas" contribui para depreciar um pouco
mais a rela��o do ser humano com seu pr�prio corpo, para banalizar a
rela��o sexual, para industrializar o erotismo e criar comportamentos de
massa que s�o, de fato, a nega��o da sexualidade naquilo que ela tem de
mais singular e individual. � a opera��o inversa � da alta cultura ou
mesmo da cultura popular e folcl�rica: em vez de criar novas
possibilidades para o esp�rito, cria comportamentos condicionados; no
lugar do pluralismo, o sempre igual, a rotina, o mesmo: gestos, ritmos,
versos padronizados, produzidos em s�rie para um p�blico condicionado a
n�o pensar.
Como n�o h� limite para o desejo sexual e para as puls�es, � apenas
razo�vel supor que a pr�xima "onda" v� ser ainda mais expl�cita, mais
violenta, mais agressiva do que a atual (como o funk � mais expl�cito
que a garrafa, e esta mais do que a lambada e assim por diante). Mas
este �, precisamente, o fundamento da sociedade de consumo: o gozo est�
sempre al�m, � preciso sempre mais. C�sar entendia isso muito bem, ao
oferecer como espet�culo a entrega dos crist�os aos le�es. A televis�o,
em nossa �poca, substituiu o circo romano; a carne que se mostra � a do
sexo, das cachorras e dos tigr�es. O sangue fica para o suposto
"jornalismo verdade" das chacinas em favelas e cen�rios urbanos. E a
classe m�dia, lobotomizada entre dois p�los - sexo e viol�ncia, Eros e
T�natos, entrega-se, impotente, � raz�o c�nica do salve-se-quem-puder. A
cr�tica moralista do funk s� serve para ocultar a ind�stria da carne e
do sangue, tanto quanto a sua aceita��o populista e demag�gica.
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Jos� Arbex Junior � jornalista.
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