----- Original Message -----
From: Menezes
Sent: Sunday, June 10, 2001 10:25 PM
Subject: [Direito_Saude] ESTADO DE MEIA LUZ

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"...Mas sabotagens n�o se fazem apenas com bombas.
Desliga-se uma chave, liga-se outra, manipula-se mal o sistema, quebra-se uma pe�a estrat�gica.Tudo isso n�o � assim t�o absurdo, principalmente no ano da privatiza��o do setor el�trico, com o governo se debatendo na crise econ�mica e deixando vazar ocultas inten��es de vender Petrobr�s, CEF e Banco do Brasil. Os corporativistas s�o organizados. Os ditos nacionalistas d�o suporte. Anos atr�s, no Rio, come�ou a haver quedas esquisitas de energia todo dia, na mesma hora, acho que no sub�rbio de Bangu. Pesquisa-se daqui, investiga-se dali, a culpa era de urubus que se amontoavam nos fios de transmiss�o para devorar restos de fim de dia de um abatedouro pr�ximo, causando r�pidos curtos-circuitos.Tudo o que o governo n�o apura e n�o pune continua por a�, sobrevoando o pa�s e as imagina��es como alma penada. Ou como urubu de carni�a."

Artigo sobre o "apag�o" ocorrido em 11 de Mar�o de 1999, intitulado "O Apag�o e os Urubus", jornal Folha de S. Paulo, 14-03-99, Eliane Cantanh�de - Bras�lia.
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ESTADO DE MEIA LUZ
 
H� semanas atr�s, logo ap�s o sucesso da opera��o abafa que impediu a instala��o, no Congresso Nacional, da Comiss�o Parlamentar de Inqu�rito que investigaria v�rias suspeitas de irregularidades na Administra��o P�blica Federal, o jornalista da Folha de S�o Paulo, Janio de Freitas, escrevia que uma "coluna da Folha", no seu dizer, defendia tortuosamente o governo federal. T� l�: com todas as letras e, ali�s, em tintas bem mais fortes!

A indigna��o de Janio de Freitas em face daquela opera��o, a qual, em termos de empenho pol�tico, nivelou-se �quelas in�teis a��es hist�ricas motivadas por supostas raz�es de Estado, n�o encontrava eco numa "coluna da Folha" perdida entre as colunas do escritor Carlos Heitor Cony e do jornalista Cl�vis Rossi, ao contr�rio.

Lembrei-me de um texto de Gast�o Wagner de Souza Campos - m�dico sanitarista e atual Secret�rio Municipal de Sa�de de Campinas, S�o Paulo -, escrito em meados da d�cada de oitenta, onde, de passagem, ele tratava da coopta��o ou da convers�o de jornalistas combativos ao que, j� nesta �poca, este autor designava de pensamento neoliberal. Escreveu Gast�o que eles, os jornalistas rec�m-convertidos, passaram a pensar, somente, em suas carreiras. E, salvo engano, assim arrematava: "e at� fazem belas carreiras"...

Lembrei-me, ainda, que, durante as elei��es presidenciais de 1994, o Ministro da Fazenda, Rubens Ric�pero, no est�dio da Rede Globo de Televis�o, antes de gravar uma entrevista, disse um punhado de bobagens que evidenciavam a grotesca utiliza��o pol�tica da m�quina governamental em favor do candidato ent�o apoiado pelo Presidente Itamar Franco. Ric�pero, para desespero do entrevistador, n�o se apercebeu que estava no ar, ou melhor, limitadamente no ar: a cena foi assistida t�o s� pela diminuta parcela da popula��o que captava os sinais atrav�s de antena parab�lica. Resumo da �pera: o candidato do Presidente Itamar Franco depois afirmou, no hor�rio eleitoral gratuito, que aquilo era "arma��o" (as massas, at� os dias de hoje, n�o possuem antena parab�lica) e Rubens Ric�pero, num ato de contri��o transmitido ao vivo para todo o pa�s e com direito a bis, pediu demiss�o (logo ap�s foi nomeado pelo governo brasileiro para ocupar um outro cargo, desta feita no exterior).

Lembrei-me, por fim, que no dia 11 de mar�o de 1999 eu estava em Bauru, trabalhando. Na noite deste dia, como em outras noites, fiquei com fome e sai para procurar um restaurante. J� dentro do estabelecimento de comercializa��o de alimentos preparados, me surpreendeu a s�bita interrup��o do fornecimento de energia el�trica, mas o propriet�rio, eu e o discreto casal de fregueses n�o nos fizemos de rogados: os donos fizeram o que lhes cabia, pois providenciaram luz de vela para todas as mesas, enquanto n�s comemos sossegados! No dia seguinte rumei para Ja� para dar continuidade �s tarefas inerentes ao meu labor e, � noite, retornei a S�o Paulo.

Na paulic�ia � que fui me dando conta das reais dimens�es da interrup��o do fornecimento de energia el�trica, pois, a princ�pio, julguei que o epis�dio tinha se circunscrito ao Munic�pio de Bauru. Li e assisti �s vers�es oficiais sobre o ocorrido que foram sendo cuspidas nos meios de comunica��o de massas por um governo federal que n�o parecia governo: parecia um operador nacional de sistema, parecia qualquer coisa, menos governo. E assim, vim a saber que, no dia anterior, havia eu jantado a meia luz porque um caprichoso raio caiu em Bauru, danificou um equipamento da CESP - empresa do setor el�trico ent�o vinculada � Administra��o P�blica Estadual - e apagou quase todo o Brasil!  

O pa�s ficou a meia luz porque um raio caprichoso havia ca�do em Bauru, foi a singela explica��o final, e oficial, para o fen�meno. Mas o atentado � intelig�ncia do distinto p�blico n�o parou na veicula��o de v�rias vers�es sobre o ocorrido. Uma "coluna da Folha" que definitivamente n�o tem o "rabo preso com o leitor", ali�s, a mesma coluna � qual se referia Janio de Freitas h� semanas atr�s, deu vaz�o � sua neutralidade a favor do governo federal instalado em 1995 e produziu o artigo, merecedor de premia��o no quesito originalidade, cujo derradeiro trecho citei no in�cio. De certo sem contrariar o "Manual da Reda��o", na �poca, a tal "coluna da Folha" formulou uma tese sobre a suposta autoria do "apag�o", vejam:
 
"...mas sabotagens n�o se fazem apenas com bombas. Desliga-se uma chave, liga-se outra, manipula-se mal o sistema, quebra-se uma pe�a estrat�gica.Tudo isso n�o � assim t�o absurdo, principalmente no ano da privatiza��o do setor el�trico, com o governo se debatendo na crise econ�mica e deixando vazar ocultas inten��es de vender Petrobr�s, CEF e Banco do Brasil. Os corporativistas s�o organizados. Os ditos nacionalistas d�o suporte"...
         
Hoje, os agentes da "moderniza��o" da Na��o Brasileira e do seu Estado de Meia Luz, se esquecem de contar-nos que em 1999, muito provavelmente ap�s o "apag�o" que ocorreu no m�s de mar�o, o governo federal criou o Plano Emergencial de Energia *, para guard�-lo numa gaveta conforme se viu, enquanto membros de sua maior bancada de apoio - aquela composta por jornalistas federais, estaduais e municipais - dirigiam-se � popula��o brasileira e insinuavam que o "apag�o" poderia ter sido consequ�ncia de audaz ato de sabotagem dos "corporativistas", pois, estes, al�m de serem "organizados", contariam com o "suporte" dos "ditos nacionalistas"... 
 
Hoje, a popula��o brasileira caminha para o rotineiro estado de meia luz porque foi v�tima de uma caprichosa pol�tica de aliena��o da soberania nacional, cujos efeitos, no caso do setor energ�tico, surpreendeu de acordo com c�ndida manifesta��o oficial sobre a quest�o.
 
Literalmente, inaugurou-se no pa�s o estado d'alma � meia luz! Cepas inteiras de jornalistas, ressalvadas as exce��es de sempre, n�o mais se preocupam em fazer "belas carreiras", pois orgulham-se de serem disciplinados agentes da Ordem Neoliberal - afinal, esta � a ess�ncia do trabalho destes profissionais sem brilho; autoridades pol�ticas patrocinam, ami�de, atos de contri��o divulgados pelos meios de comunica��o de massas, mas continuam implementando as mesmas pol�ticas p�blicas que submetem aos nefastos des�gnios do capital a vida de milh�es e milh�es de brasileiros, banalizando, deste modo, a pr�pria vida das pessoas, portanto, o desejo, o sonho, a esperan�a, a utopia, o otimismo, a vontade, a exist�ncia, a felicidade...
 
Sem d�vida, inaugurou-se no pa�s o estado d'alma � meia luz! Pretendia-se que a banda do breu fosse assumida pela (quase) totalidade da popula��o brasileira, que, em um gesto patri�tico de autocomisera��o e realismo, reconheceria a sua m�xima culpa por todos os males que afetam o Brasil e - de quebra - agradeceria ao Senhor pela gra�a de termos cidad�os t�o previdentes � frente da condu��o dos nossos destinos - a eles a banda de luz
 
�, de fato, inaugurou-se no pa�s o estado d'alma � meia luz...
 
Resta saber quem enxotar� de todos os templos os tolos fracassados. Por outro lado, resta saber quem convencer� os autores de todas as colunas similares � vision�ria "coluna da Folha", referida neste texto, de que � muito feio escribas conservadores at� a medula pretenderem-se neutros ao analisarem (v� l�...) quest�es pol�ticas candentes. N�o seria melhor assumirem a condi��o de governistas ou, se for o caso, assumirem-se enquanto defensores das opini�es dos donos dos jornais?
 
Daqui da banda do breu (a luz el�trica acaba de faltar e n�o me recordo mesmo de nomes completos de Ministros da Fazenda...) a plebe reverente aguarda os gestos patri�ticos dos seres da banda de luz. Am�m!
 
Ricardo Menezes
S�o Paulo, 10 de Junho de 2001
 
NOTA 1 - * Fonte: FSP, Janio de Freitas, 2001.
NOTA 2 - Abaixo o artigo, cujo trecho final foi citado no in�cio, na �ntegra. Fonte: Folha de S�o Paulo.
 
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O apag�o e os urubus
14-03-1999
Autor: ELIANE CANTANH�DE  - 7360cobr - Editoria: OPINI�O P�gina: 1-2
3/5513 - Edi��o: Nacional Tamanho: 2050 caracteres Mar 14, 1999 Se��o: BRAS�LIA

O APAG�O E OS URUBUS
Eliane Cantanh�de - Bras�lia

As tr�s bombas colocadas no ano passado em pontos estrat�gicos das linhas de transmiss�o de Furnas eram suficientemente sofisticadas e poderosas para, por exemplo, parar S�o Paulo inteirinho.Mesmo assim, ningu�m deu muita bola. Nem voc� a�, leitor, preocupado com seu emprego, a economia, o aumento da CPMF e os baixos rendimentos da poupan�a. Pior: nem a c�pula do governo e a Pol�cia Federal, que n�o viram nem cheiraram suspeitos, objetivos, alvos, nada. Deu no que deu. Agora n�o foi s� S�o Paulo, mas Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste que acabaram atingidos por um blecaute (ou raio?) assustador. Mesmo sem bombas, foi leg�timo supor que poderia haver uma conex�o entre as bombas de 98 e o apag�o de 99. O governo negou todo o
tempo, mas s� da boca para fora. No fundo, todos temiam o pior. At�, ou principalmente, porque um caso t�o grave como bombas em linhas el�tricas jamais foi esclarecido.A hip�tese de uma nova bomba, que desta vez tivesse explodido, foi praticamente descartada desde o in�cio. At� porque, do contr�rio, o restabelecimento de energia teria sido muito mais dif�cil e demorado.Mas sabotagens n�o se fazem apenas com bombas.

Desliga-se uma chave, liga-se outra, manipula-se mal o sistema, quebra-se uma pe�a estrat�gica.Tudo isso n�o � assim t�o absurdo, principalmente no ano da privatiza��o do setor el�trico, com o governo se debatendo na crise econ�mica e deixando vazar ocultas inten��es de vender Petrobr�s, CEF e Banco do Brasil. Os corporativistas s�o organizados. Os ditos nacionalistas d�o suporte. Anos atr�s, no Rio, come�ou a haver quedas esquisitas de energia todo dia, na mesma hora, acho que no sub�rbio de Bangu. Pesquisa-se daqui, investiga-se dali, a culpa era de urubus que se amontoavam nos fios de transmiss�o para devorar restos de fim de dia de um abatedouro pr�ximo,
causando r�pidos curtos-circuitos.Tudo o que o governo n�o apura e n�o pune continua por a�, sobrevoando o pa�s e as imagina��es como alma penada. Ou como urubu de carni�a.
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