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Sent: Saturday, June 30, 2001 10:07 PM
Subject: [Direito_Saude] Os surdos e o fracasso escolar: brevemente...

 

OS SURDOS E O FRACASSO ESCOLAR�

                                             Por Anahi Guedes de Mello

            Rela��o Entre Dist�rbios de Aprendizagem e Fracasso Escolar & o Fracasso Escolar no Contexto das Pessoas Portadoras de Defici�ncias.

A compreens�o do fracasso escolar enquanto processo psico-social complexo est� muito al�m das evid�ncias dos altos �ndices de evas�o e reprova��o escolar, principalmente no 1� grau. Embora a natureza das disfun��es na aprendizagem deve ser considerada como conseq��ncia de in�meros fatores, e n�o a como a causa primeira do fracasso escolar, a id�ia de fracasso escolar nos leva a uma rela��o direta entre dist�rbios de aprendizagem e fracasso escolar. De fato, dificuldades, transtornos, dist�rbios e problemas de aprendizagem s�o express�es muito usadas para se referir �s altera��es que muitas crian�as apresentam na aquisi��o de conhecimentos, de habilidades motoras e psicomotoras, no desenvolvimento afetivo e outras. Assim, levanta-se a seguinte quest�o: se a revers�o do quadro do fracasso escolar na ordem social do contexto educacional brasileiro j� � t�o trabalhosa e penosamente dif�cil de se solucionar, o que esperar ent�o dos quadros alarmantes de altos �ndices de reprova��o e evas�o escolar das pessoas portadoras de defici�ncias e, sobretudo, no caso do presente trabalho, dos surdos?

            Qualquer aluno que n�o aprende n�o realiza nenhuma das fun��es sociais da educa��o, acusando sem d�vida o fracasso desta e, ao mesmo tempo, sucumbindo a esse fracasso (Paim, 1989). Apesar dessa constata��o, n�o podemos inserir todos os que t�m dificuldades para aprender num mesmo grupo e trat�-los como se fossem iguais.

Assim, que crit�rio utilizar para identificar os grupos? Miklebust (1971) prop�e que tal classifica��o se realize com base na “manifesta��o” mais evidente e que produz o maior impacto sobre a crian�a. Assim, para os portadores de defici�ncias mentais, � o atraso mental sua maior afeta��o, respons�vel pelas dificuldades generalizadas para aprendizagens acad�micas, motoras e sociais. Para os portadores de defici�ncias sensoriais, as afec��es mais evidentes s�o a cegueira ou a surdez ou ainda a surdocegueira; para os portadores de problemas de conduta, os transtornos emocionais. Todos esses constituem o alunado da Educa��o Especial, juntamente com os superdotados que n�o apresentam, necessariamente, dificuldades de aprendizagem. H�, por�m, um outro grupo de alunos com dificuldades para aprender, cuja afec��o mais evidente � a defici�ncia da aprendizagem, apesar de adequadas intelig�ncia, vis�o, audi��o, capacidade motora e equil�brio emocional.

Estudos sobre a neuropsicologia da aprendizagem demonstram que, nesse grupo, a generalizada integridade org�nica convive com a defici�ncia na aprendizagem. Esta pode manifestar-se como dificuldades motoras ou psicomotoras, de aten��o, memoriza��o, compreens�o, desinteresse, escassa participa��o e problemas de comportamento.

Esse numeroso grupo de crian�as brasileiras de diferentes camadas sociais � que tem feito crescer os percentuais de analfabetos, de repetentes, dos que abandonam precocemente a escola e daqueles que, por vezes, s�o indevidamente encaminhados � Educa��o Especial. � para eles que novos modelos de atendimento especializado devem ser implantados no 1� grau regular, contribuindo para promover a qualidade do ensino, evitando-se o aumento do j� enorme contingente que comp�e o fracasso escolar.

As Diferentes Concep��es do Fracasso Escolar nas Redes P�blicas de Ensino no Brasil. 

Anos 60: medicaliza��o generalizada do fracasso escolar, com a vis�o psiconeurol�gica do desenvolvimento humano, que tenta explicar os desvios ou dificuldades por quadros tais como a disfun��o cerebral m�nima, a dislexia e a dislalia.

Anos 70: entram em cena os psicopedagogos, uma nova categoria profissional que, orientada por esta abordagem, dedica-se ao atendimento das dificuldades de aprendizagem e passam a colaborar no debate sobre os altos �ndices de repet�ncia na escola p�blica de 1� grau. Nessa perspectiva, o fracasso escolar passa a ser explicado pela exist�ncia de diferen�as individuais na capacidade de aprendizagem das crian�as.

Nessas d�cadas, vigoraram-se duas principais teorias para explicar o fracasso escolar: a Teoria da Car�ncia Cultural e as Teorias  Cr�tico-Reprodutivistas (Patto, 1988).

Teoria da Car�ncia Cultural: como a maioria das crian�as mal sucedidas na escola s�o de classes populares, as defici�ncias no desenvolvimento psicol�gico infantil seriam conseq��ncias da pobreza de est�mulos do ambiente cultural desfavorecido, do qual prov�m. Em nome da car�ncia cultural, foram organizados, no Brasil, in�meros projetos de educa��o compensat�ria, mas que, no entanto, da mesma forma como ocorreu nos EUA, n�o apresentaram resultados satisfat�rios, servindo para marcar ainda mais a discrimina��o e a conseq�ente seletividade social.

Teorias Cr�tico-Reprodutivistas: introduziram a possibilidade de se pensar o papel da escola numa perspectiva cr�tica de sociedade. Essas teorias limitavam-se a explicar o fracasso escolar como sendo, na verdade, o �xito da escola, na medida em que, sendo um instrumento de reprodu��o, a escola na sociedade capitalista necessariamente reproduziria a domina��o e explora��o.

E por que os surdos fracassam na escola?

Cerca de 80 a 90% dos surdos do pa�s n�o concluem/conclu�ram o 1� grau;

Junto com o agravante da surdez, as teorias da car�ncia cultural e as cr�tico-reprodutivistas s�o fatores a mais que comprometem ainda mais o desempenho escolar dos surdos;

H� uma abordagem “omissa” da Educa��o acerca das diferen�as culturais e caracter�sticas individuais generalizadas entre surdos oralizados e n�o oralizados, onde para cada um dos grandes grupos de surdos requer-se pr�ticas pedag�gicas diferenciadas;

Qual o principal fator agravante que contribui para o fracasso escolar dos surdos? Os problemas ling��stico-cognitivos. Por qu�? Um beb� que nasce surdo balbucia como um de audi��o normal, mas suas emiss�es come�am a desaparecer � medida que n�o tem acesso � estimula��o auditiva externa, fator de m�xima import�ncia para a aquisi��o da linguagem oral. Assim tamb�m, n�o adquire a fala como instrumento de comunica��o, uma vez que n�o a percebendo, n�o se interessa por ela, e n�o tendo “feed back” auditivo, n�o possui modelo para dirigir suas emiss�es. Assim, na concep��o geral do uso do m�todo oralista (obviamente isso n�o � uma regra geral):

Surdez falta de est�mulos auditivos n�o domina uma l�ngua oral n�o desenvolve a linguagem durante o per�odo cr�tico do desenvolvimento humano s�rios atrasos na linguagem e comunica��o n�o desenvolve o pensamento graves problemas ling��stico-cognitivos n�o atinge plenamente os est�gios do desenvolvimento humano em cada faixa et�ria definida pela Teoria de Piaget dificuldades na leitura e na escrita isolamento social na comunidade ouvinte   mais as intera��es negativas de contexto s�cio-hist�rico que se processam na escola e o estigma/estere�tipo da surdez atraso escolar dificuldades de aprendizagem FRACASSO ESCOLAR!!! 

Solu��es? solu��es pedag�gicas diferenciadas para cada grupo de surdos, estimula��o e diagn�stico precoce da surdez. Reconhece-se, aqui, que se deve permitir ao surdo, se assim ele o reivindica, o direito de acesso � sua l�ngua natural, que � a l�ngua de sinais. A l�ngua de sinais assume outro contexto de estrutura��o gramatical altamente complexa que permite ao surdo um “tipo” diferente de pensamento, baseado nas possibilidades inteiramente visuais (concep��o espa�o-temporal e esquema corporal). Embora haja s�rias diverg�ncias quanto ao melhor m�todo para a aquisi��o da linguagem ao surdo, a maioria dos educadores e surdos concordam no modelo do Biling�ismo como o melhor m�todo de acesso � linguagem e educa��o do surdo.

 

A Contribui��o de L. S. Vygotsky Para a Surdopedagogia�:

A surdez constitui um defeito significativamente menor que a cegueira. Do ponto de vista biol�gico, o �. O animal surdo, provavelmente, � menos indefeso que o animal cego. N�o ocorre assim com o homem. A surdez do homem resulta numa desgra�a incomensuravelmente maior que a cegueira, porque a surdez o priva das rela��es com as pessoas. Ao privar o homem da fala, o separa da experi�ncia social e o exclui da comunica��o geral. A surdez �, por excel�ncia, um defeito social. � mais direta que a cegueira e altera as rela��es sociais da personalidade. Assim, o primeiro problema da surdopedagogia � devolver ao surdo a fala. Para ele, a rigorosidade excepcional e sem precedentes � um acompanhamento inevit�vel do m�todo oral, pois, como reconhecem seus defensores, de todos os m�todos de ensino, o m�todo oral � o que mais contradiz � natureza do surdo, mas nenhum dos m�todos est� em condi��es em devolver o surdo � sociedade humana, como pode faze-lo pelo m�todo oral.

Mesmo na �rea da surdopedagogia, explorou com maestria o conceito de heterogeneidade dos processos humanos, onde defende o direito que o surdo tem, como qualquer ser humano, em conviver com o outro num contexto heterog�neo do social, atrav�s da conviv�ncia harmoniosa das intera��es sociais, criticando a diretriz educacional de se avaliar crian�as surdas para classific�-las e educ�-las em grupos uniformes, em contextos homog�neos de instru��o. Para ele, o argumento para n�o segregar estava na concep��o de heterogeneidade como inst�ncia favor�vel de desenvolvimento, pois as rela��es interpessoais que envolvem n�veis diferentes de funcionamento permitem � crian�a surda transformar suas capacidades. Noutras palavras, para Vygostsky, toda etapa cr�tica do desenvolvimento humano, come�ando pela linguagem e pensamento, tem que, necessariamente, passar pelo processo das rela��es sociais humanas.

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� Resumo preparativo para o semin�rio Os Surdos e o Fracasso Escolar, referente � disciplina de Psicologia da Educa��o - PSI 5107, Universidade Federal de Santa Catarina, maio de 2001. Porquanto, por se tratar de apenas um resumo para semin�rio, as refer�ncias bibliogr�ficas dos autores citados n�o constam;

� Uma abordagem vygotskiana sobre a surdez ser� melhor referenciada posteriormente num outro breve resumo, com anota��es sobre partes importantes da Teoria da Linguagem de Vygotsky em contraposi��o com a Teoria do Desenvolvimento Humano de Jean Piaget.


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