Mesmo que a popularidade manipulada de Lula chegue a 99%, eu continuo no grupo 
dos 1%.
 
Reinaldo.
 

Não vi a tal entrevista de Lula na Rede TV, que rendeu dois pontos no Ibope na 
Grande São Paulo, segundo informou ontem Lauro Jardim. Integrava o grupo dos 98 
que estava vendo outra coisa ou estava com a TV desligada. Pânico na TV, que 
veio em seguida, bateu nos 10 pontos. Não vi também. Segundo me contam, Sabrina 
Sato foi à Uniban de minivestido, e a moçada, no fim, parece não ter gostado 
muito… Entendo. Um leitor me manda o trecho da entrevista em que Lula chora ao 
falar da morte da primeira mulher, que estava grávida.
Vocês sabem certamente o que é a sensação do déjà-vu, não? Trata-se de uma 
maluquice qualquer do cérebro, ainda não devidamente explicada, que nos informa 
que uma coisa qualquer já aconteceu, que já tivemos aquela experiência; é como 
se a gente se lembrasse do que não houve — parece coisa de Fernando Pessoa de 
pileque, hehe. Pois é.
Estaria eu diante do déjà vu? Não!!! Aquele mesmo texto, com variações, com 
outras lágrimas, foi dito pelo próprio Lula, também diante das câmeras, em 
2002. Até algumas imagens de poesia dramática coincidem. A diferença — ou nem 
tanto — é que o interlocutor era Duda Mendonça. Não quero nem especular sobre a 
dor da morte da mulher e de um filho. Seria indecoroso! Como foi indecoroso, e 
escrevi isso em 2002, que Lula tivesse sido convocado a lembrar isso diante das 
câmeras para conquistar votos.
Mas, como Lula é Lula, na entrevista de agora, contou que conheceu Mariza três 
anos depois, também viúva, e fez com ela um pacto: no dia de Finados, nenhum 
dos dois iria ao cemitério. É realmente espantoso!!! Desta feita, ele só se 
dispensou de fazer uma crítica ao sistema de saúde, a exemplo de sete anos 
atrás. Tornou-se uma vítima um pouco mais sofisticada. No filme que comoveu 
Elio Gaspari — e, segundo ele, comoverá as platéias e deixará as oposições 
chateadas —, a história será recontada milhares de vezes para milhões.
Ô, Gerald Thomas! Volte logo com seu blog para que possa escrever sobre 
processos de construção de personagem; como é que os atores são convidados, em 
abordagens digamos, convencionais, a recorrer à memória afetiva para compor os 
seus papéis.
Uma dor vivida  diante das câmeras, com um propósito, nunca é uma dor genuína, 
mas processo de representação crível da realidade. Estamos diante da mimese 
aristotélica. E notem: não é assim só porque eu quero; porque decidi resistir a 
Lula. É assim porque assim são as coisas. Na concepção dramática aristotélica, 
uma situação precisa ser crível, ainda que não verdadeira. O falso, muitas 
vezes, convence mais do que a verdade. Não! Não me tomem por bruto! Não estou 
dizendo que o choro de Lula era mentiroso em 2002 ou em 2009. Ele realmente 
chorou. Lula é uma personagem, assim, aristotélica…
Na tal entrevista, o presidente especulou, conforme se noticiou, que o mensalão 
foi uma conspiração da oposição para dar um golpe no seu governo. Ah… Lula e 
sua memória afetiva merecem mesmo um tratado psiquiátrico. O mais formidável 
disso tudo é que o Duda Mendonça de 2002, que gravava as suas lágrimas para 
exibir a milhões de pessoas, era aquele publicitário que iria receber — ou já 
tinha recebido, não sei — alguns milhões de dólares no exterior como pagamento 
pela campanha eleitoral. Era parte do dinheiro arrecadado ilegalmente pelo 
partido. Antes mesmo de chegar ao poder. Mas, como vocês sabem, o mensalão não 
passou de um golpe… das oposições!!!
Entenderam como as coisas se compuseram? O publicitário que criava a personagem 
que recorria à memória afetiva para falsificar, segundo as exigências da 
mimese, uma ocorrência verdadeira seria parte da lambança ética do petismo, que 
Lula nega ter existido sete anos depois — não só isso: atribui tudo a uma 
conspiração dos adversários.
É… É uma pena que a popularidade de Lula não seja de 99%. Eu me sentiria ainda 
melhor em fazer parte de um miserável 1% que pudesse gritar: “Quem não conhece 
Aristóteles que te compre!”
Aí o Petralha rombudo diz: “O povo não conhece Aristóteles, rá, rá, rá”. Eles 
sempre dizem “rá, rá, rá”!  Pois é… É por isso que compra gato por lebre e Lula 
por Lula.
 
 
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-o-homem-da-mimese-aristotelica/

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"Quelle connerrie est la guerre" 
(Jacques Prévert)


      
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