Orfandade comunicacional
[Correio Braziliense - Coluna Nas Entrelinhas] 

Por que um bom pedaço da população fica “excluída” quando 
os candidatos ou seus programas dão sinal de vida nas ondas 
do rádio ou nas telas de tevê? 

Por Alon Feuerwerker
[email protected] 


Se o sujeito descer aqui num disco voador vindo, sei lá, de Marte concluirá que 
no Brasil só há pobres, ou só gente que precisa
desesperadamente do governo para resolver os próprios problemas. É a conclusão 
de alguém cuja única fonte de informação são os
programas dos candidatos nos intervalos regulamentares no rádio e na televisão 
destinados às campanhas eleitorais. 

Eleição é varejo, e o eleitor está atrás de soluções para sua vida. Eu mesmo já 
escrevi aqui sobre o tema, defendendo esse ponto de
vista. Dito isso, é o caso de perguntar: será que não há na campanha 
presidencial brasileira interesse por debater assuntos que não
digam exclusivamente respeito às necessidades fundamentais das camadas mais 
pobres? 

Qualquer estatística comprovará que a mudança no perfil de renda do brasileiro 
e da brasileira foi radical nas últimas duas décadas.
Tudo bem que tucanos e petistas debatam interminavelmente sobre quem contribuiu 
mais, talvez na casa do zero vírgula qualquer coisa.
Mas um detalhe é consensual: independentemente da paternidade, o Brasil é hoje 
um país com ampla classe média. 

Quem fala para esse novo país? Até agora ninguém. Os candidatos empenham-se na 
comunicação “do que eu vou fazer por você se eu
chegar lá”, mas falta alguém para informar que medidas vai adotar para o novo 
emergente, inclusive e principalmente o beneficiário
da recente aceleração da mobilidade social, para que ele possa cuidar melhor da 
vida. 

Um exemplo é a discussão sobre os juros. Os candidatos não querem melindrar os 
bancos, está certo. Mas será que é só isso? Qual o
motivo para nenhum dos principais postulantes sequer pensar em atacar duramente 
na tevê o juro de 10% ao mês no cheque especial,
quando a inflação anual ronda os 5%? 

Claro, esse é um problema para quem tem cheque especial e usa, uma turma que 
certamente não é a maioria. Mas será pouca gente? 

Um argumento é que os materiais para tevê e rádio devem ser pensados conforme o 
perfil do público que se informa principalmente por
esses dois meios. Não cola. Nos demais canais não há variações significativas. 
Além da tevê e do rádio, há os jornais, as revistas
e, principalmente, a internet. Nem por isso os candidatos aproveitam para 
conversar com outros que não os pobres estilizados das
qualis. 

Naturalmente, os marqueteiros devem estar certos e eu errado. O que mais há em 
campanha eleitoral é gente, especialmente
jornalistas, disposta a dizer o que os marqueteiros devem fazer ou deixar de 
fazer. Parece-me um tanto pretensioso, se se considerar
que para fazer os programas de rádio e tevê os candidatos contratam 
marqueteiros, e não jornalistas. 

Mas confesso que tenho essa curiosidade. Por que um bom pedaço da população 
fica “excluída” quando os candidatos ou seus programas
dão sinal de vida nas ondas do rádio ou nas telas de tevê? 





























.




Responder a