Desculpem a dês-formatacao, mas a esta hora to sem disposição de localizar o
original...


> 
> The Boston Globe
> 14/03/2006
> 
> Estudos sobre os genes lançam luz sobre a evolução
> 
> Gareth Cook
> 
> Para entender uma das mais recentes teorias sobre a evolução, pense
no programa de 
> televisão "Iron Chef" (literalmente, "Chef de Ferro").
> 
> Dois chefs concorrentes recebem um determinado ingrediente e, a
seguir, correm a 
> criar pratos. Ambos começam com, digamos, carne de lagosta, mas um
deles pode 
> produzir uma salada de lagosta com algas, enquanto o outro pode
apresentar almôndegas 
> de lagosta e milho.
> 
> Substituam os ingredientes culinários por genes, e isso explicará
como os humanos 
> podem ser tão similares aos chimpanzés - que compartilham mais de
98% do nosso código 
> genético - e ao mesmo tempo tão diferentes. Os cientistas acreditam
que, para se 
> tornarem humanos, os indivíduos não criam muitos genes novos. Eles
fazem uso 
> diferente daqueles genes que já possuem.
> 
> Em dezembro, pesquisadores da Universidade Duke anunciaram algumas
das primeiras 
> evidências concretas para reforçar esta idéia. Eles se concentraram
em um gene 
> responsável pela fabricação de uma proteína envolvida com a memória
e a percepção. 
> Embora a proteína seja exatamente a mesma nos cérebros dos humanos e
dos chimpanzés, 
> a equipe descobriu que os humanos desenvolveram minúsculas mudanças
genéticas que 
> fazem com que as células cerebrais façam, ou "expressem", uma
parcela maior da 
> proteína crucial, talvez ajudando o cérebro humano a funcionar
melhor. Um pouco mais 
> dessas proteínas aqui, um pouco menos delas acolá, e - voila -, um
chimpanzé se 
> transforma em um humano.
> 
> A pesquisa sobre os chimpanzés é parte de uma profunda mudança
conceitual. Os 
> biólogos há muito suspeitavam de que a "expressão de genes" - a
forma como as células 
> fabricam uma quantidade maior de certas proteínas, e menor de outras
- poderia ser 
> importante para responder a várias questões biológicas. Mas agora
alguns cientistas 
> acreditam que esse processo possa desempenhar um papel vital na
explicação de como 
> uma espécie evolui até se tornar uma outra com uma velocidade às vezes 
> impressionante.
> 
> "Aquilo que costumávamos ver como mudanças grandes e complexas são
de fato 
> notavelmente fáceis de se conseguir por meio de mudanças na
expressão dos genes", 
> afirma Gregory A. Wray, professor de biologia da Universidade Duke
que liderou a 
> pesquisa sobre os chimpanzés. "Isso está modificando a forma como
pensamos sobre a 
> evolução".
> 
> A nova pesquisa sobre a expressão dos genes poderia fornecer uma
resposta para um 
> problema que vem confundindo os biólogos desde Darwin, e que foi
recentemente adotado 
> pelos proponentes do desenho inteligente: a idéia de que a vida é
demasiadamente 
> complexa para ter ocorrido sem o auxílio de um ser superior. Com a
"sobrevivência do 
> mais apto", é fácil enxergar que um leão que corre mais rapidamente
será um melhor 
> caçador e, portanto, terá mais chances de sobreviver e de passar
esse atributo aos 
> seus descendentes. Com o passar do tempo, essas melhorias se
acumulam, e os leões 
> evoluem.
> 
> Mas de onde vêm essas mudanças em primeiro lugar? Ou, em outras
palavras, como é que 
> uma única e aleatória mudança genética seria capaz de melhorar algo
tão complexo 
> como, digamos, as pernas de um leão, com todas as suas articulações,
tendões, nervos 
> e músculos?
> 
> "Precisamos entender como se chegam aos vários tipos de novidades -
a primeira mão, o 
> primeiro olho, o primeiro cérebro", argumentou Marc Kirschner, em
uma recente 
> palestra na Escola de Medicina da Universidade Harvard, da qual é
professor. "É a 
> variedade da vida que necessita de explicação". Kirschner é co-autor
de um novo 
> livro, "The Plausibility of Life" ("A Plausibilidade da Vida"),
sobre as fontes 
> biológicas da mudança evolucionária.
> 
> A pesquisa sobre a expressão de genes, e particularmente um campo
ativo chamado de 
> "biologia do desenvolvimento evolucionário", está agora respondendo
a esta pergunta, 
> segundo Sean B. Carrol, cientista da Universidade de
Wisconsin-Madison e do Instituto 
> de Medicina Howard Hughes.
> 
> Em cada célula, existem genes que criam as proteínas, que são os
blocos construtores 
> da vida. Mas essas proteínas podem também funcionar como sinais,
"ligando" ou 
> "desligando" outros genes.
> As proteínas desses genes podem afetar ainda mais genes. Assim, uma
proteína de um 
> único gene pode desencadear uma série de outras mudanças. Um estudo
publicado na 
> revista "Nature" da semana passada por cientistas da Universidade
Yale revelou que, à 
> medida que os humanos evoluíam a partir dos seus ancestrais macacos,
os genes 
> reguladores tinham maior probabilidade de sofrer mudanças do que os
genes que não 
> modificavam outros genes.
> 
> As mudanças na expressão de genes são particularmente importantes
durante o 
> desenvolvimento embrionário. Segundo Carrol e outros cientistas, uma
pequena, ou 
> acidental, alteração genética pode provocar mudanças na expressão de
muitos genes, o 
> que altera a forma como o corpo de um animal se desenvolve antes que
ele nasça. Por 
> exemplo, a modificação de um único gene em uma mosca da fruta fará
com que ela tenha 
> uma perna, e não uma antena, na cabeça. De certa forma, a mutação
modificou o sinal 
> biológico que significa "ponha uma antena aqui" para "ponha uma
perna aqui". Às 
> vezes, tal mudança genética - e todas as mudanças físicas por ela
causada - farão com 
> que o animal se adapte melhor ao seu meio, e assim ocorre a evolução.
> 
> Os biólogos são praticamente unânimes em concordar que a expressão
de genes é 
> importante, mas o seu papel na evolução ainda é uma questão bastante
em aberto porque 
> só recentemente os pesquisadores começaram a encontrar exemplos claros.
> 
> Uma das suas descobertas mais notáveis é a pesquisa publicada sobre
aquilo que passou 
> a ser chamado de "Os tentilhões de Darwin". Quando o navio de
Charles Darwin, o 
> Beagle, chegou às Ilhas Galápagos, ao largo da costa do Equador, em
1835, o jovem 
> naturalista ficou particularmente fascinado pelos tentilhões. Em
cada uma das ilhas, 
> estes pássaros de penas amarronzadas pareciam similares, mas os seus
bicos eram 
> diferentes.
> 
> Em algumas das espécies, os tentilhões possuíam bicos largos e
fortes, ideais para 
> romper sementes duras, enquanto em outras os bicos eram mais finos,
apropriados para 
> atingir o pólen das flores ou perfurar frutas. Darwin concluiu que
os tentilhões 
> tiveram início como uma única espécie,mas depois se diferenciaram
nas espécies que 
> ele observou, possuindo cada uma delas bicos adaptados para
aproveitar os tipos 
> específicos de alimentos encontrados em seus respectivos ambientes.
Os tentilhões 
> contribuíram para inspirar a teoria da evolução de Darwin.
> 
> Em 2004, uma equipe liderada pelo professor da Escola de Medicina da
Universidade 
> Harvard, Cliff Tabin, demonstrou que várias alterações complexas no
bico - uma 
> estrutura mais robusta, que precisa se adequar aos ossos remodelados
do crânio - 
> poderiam ser explicadas por uma única alteração genética. Quando um
gene específico, 
> chamado Bmp4, surgia precocemente durante o desenvolvimento do bico,
os tentilhões 
> adquiriam bicos mais robustos, de acordo com um trabalho publicado
no periódico 
> "Science". A sua equipe, que incluía Arhat Abzhanov, da Escola de
Medicina da 
> Universidade Harvard, fez tal descoberta ao ativar artificialmente o
gene no estágio 
> inicial do desenvolvimento de uma galinha. O bico da galinha
lembrava mais aquele dos 
> tentilhões quebradores de sementes de Darwin.
> 
> A equipe de Tabin não identificou o que faz com que o gene se
manifeste mais 
> precocemente em alguns tentilhões, mas sabe-se que ele faz com que
outros genes se 
> tornem mais ou menos ativos. Tais genes, conhecidos como genes
reguladores, agem como 
> os coreógrafos de um animal em desenvolvimento. De certa forma, o
gene pode ser 
> imaginado como um ponteiro: mova-o para cima, e toda a estrutura do
bico terá um 
> determinado formato; mova-o para baixo, e o bico terá um formato
diferente.
> 
> Assim, isso explica como pequenas mudanças genéticas aleatórias
podem criar um 
> conjunto coordenado de mudanças capaz de resultar em um animal mais
bem adaptado. 
> Trata-se apenas do girar de um ponteiro, motivado por uma alteração
genética 
> acidental.
> 
> Outros cientistas descobriram sistemas similares em funcionamento na
evolução de 
> outras formas de vida. Carroll, autor de um recente livro sobre a
biologia do 
> desenvolvimento evolucionário, "Endless Forms Most Beautiful" ("As
Formas Infinitas 
> São as Mais Belas"), documentou alterações nos genes reguladores que
modificam os 
> padrões de manchas nas moscas das frutas. John Doebley, um outro
cientista da 
> Universidade de Wisconsin-Madison, identificou pequenas alterações
que auxiliavam o 
> teosinto, uma planta que se parece com uma grande gramínea, a se
transformar no milho 
> selvagem, a planta que era uma fonte de alimento para os nativos da
América.
> 
> Um outro exemplo é o aumento dramático do tamanho dos cérebros
humanos comparados 
> àqueles dos nossos primos macacos, segundo Christopher A. Walsh,
chefe do 
> departamento de genética do Hospital Infantil de Boston. Ele ajudou
a identificar um 
> gene que, quando sofre mutação, faz com as crianças nasçam com
cérebros com menos da 
> metade do tamanho normal - na verdade, comparáveis em tamanho ao
cérebro de um 
> chimpanzé. O que é notável quanto a essa doença, denominada
microcefalia, é que ela 
> não é fatal. Ela é debilitante, mas os pacientes aprendem a andar
por conta própria, 
> e às vezes até a falar umas poucas palavras.
> 
> Walsh sugere que isso dá a entender que mudanças neste gene
específico, ocorridas há 
> muito tempo, podem ter ajudado os humanos a desenvolverem cérebros
maiores. O gene 
> não parece estar envolvido na regulação de outros genes, mas ele
demonstra como uma 
> mudança relativamente pequena pode causar um efeito dramático.
> 
> Embora Walsh e outros cientistas estejam utilizando as últimas
ferramentas da 
> genética, eles estão seguindo a trilha de questões que estão
presentes desde um 
> período bem anterior a Darwin: como explicar a enorme variedade da
vida, de elefantes 
> com presas de marfim a besouros, de humanos a beija-flores? A lenta
acumulação de 
> novos genes durante vários milhões de anos é uma parte crucial da
resposta. Mas 
> também importantes são as diminutas alterações que fazem com que
algo surpreendente e 
> novo venha a existir.
>






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