Fa

O que vc acha da frase abaixo?

(Escrevo viado porque, como disse Millor, quem escreve veado é viado)

Vai para os registros....



-----Mensagem original-----
De: [email protected] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em
nome de Fatima Conti
Enviada em: Wednesday, March 22, 2006 1:47 AM
Para: undisclosed-recipients:
Assunto: [gl-L] Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis machos


Oi

Você viu?

-- 
Beijins
Fa
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"Se homem fosse dinheiro, todas as notas seriam falsas."
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Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis machos

[07 Março 02h21min 2006]


Eu não queria ver o filme O Segredo de Brokeback Mountain. Não queria. 
Ver filme de viados, eu? (Escrevo viado porque, como disse Millor, quem 
escreve veado é viado). Muito bem; eu resistia à idéia, mais ou menos 
como o Larry David (o roteirista de Seinfeld) disse, num artigo 
engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado.

O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que, 
hoje, os civilizados todos dizem que ''tudo bem, que são contra a 
homofobia'' e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que 
viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe a 
homossexualidade no final (Toda Nudez Será Castigada), já filmei 
travesti em Eu te Amo e em Eu Sei que Vou te Amar, além da ''biba'' 
louca do O Casamento, em que o grande ator André Valli dá um show 
inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no 
entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos 
machistas finos de ''Chapada dos Viadeiros''.

Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: ''Ah... porque o Ang 
Lee é um cineasta mediano, ah... porque será mais um filme politicamente 
correto, onde o amor de dois cowboys é justificado romanticamente... Vou 
fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays 
devem ser compreendidos em seu 'desvio'? Não. Não vou'', pensei.

Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua. 
Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o 
Murilinho... cantor de foxes em boates, havia o Clóvis Bornay e poucos 
outros... O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para 
lhes tirar sangue. E no anonimato, enxameavam os pobres ''pederastas'', 
de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas 
noites escuras, em busca de satisfação.

Mais tarde, com o tempo, surgiram as ''bichas loucas'', que se assumiam 
com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe 
odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje 
humorístico, que até hoje alimenta nosso show na TV... A bicha virou uma 
personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo. 
E tudo bem... são engraçados mesmo.

Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu o gay power, com 
homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem 
virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais, 
aspirando a uma ''normalidade'' que contrariava sua ''missão'' 
trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia, 
sacaneando-os: ''Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos 
caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado?''.

Em suma, por mais que ''aceitemos'' os gays, eles sempre foram uma fonte 
de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade ''clara''. 
O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a 
unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o 
perobo, o boy, o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos 
tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério 
inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay cowboy é 
muito próximo de nós, a diferença fica mínima.

Por isso, eu não queria ver o tal filme dos cowboys. Como? Cowboy de 
mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do 
impossível? Não. Eu não. Mas, aí, por falta de programa, 
''distraidamente''... (aí, hein, santa?...) fui ver o filme. E meu susto 
foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para a 
homossexualidade, o filme não demandava minha solidariedade. Não.

Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma 
narração simpática de um amor ''desviante''. O filme se impõe 
assustadoramente. Os dois cowboys jovens e fortes se amam com um tesão 
incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme, 
hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano 
não agüentava.

Nem europeu, que ia ficar filosofando. Brokeback é imperioso, realista, 
sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois 
começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral 
vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é 
que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me 
adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee.

Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado 
no meu machismo ''tolerante''. Eu é que era o careta, eu é que era o 
viado no cinema e eles os machos corajosos, se desejando não como 
pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e 
corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme 
nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo.

Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um 
filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de um 
profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia, 
claro, mas não são ''vítimas da sociedade''. Não. Viveram acima de nós 
todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo.

Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um 
heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na Ilíada, algo 
desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas 
assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos 
move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante, 
que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de 
sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.

Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa 
sexualidade.


Publicado originalmente em
http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/jabor.asp

Recebi de "Silvia"


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