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Eu já deixei claro aqui que o Jabor não é uma das
minhas preferências como cronista ou comentarista, principalmente pela linha
reacionária que assumiu e defende. Em cada cem comentários ele acerta três ou
quatro.
Sobre o título da crônica que ele faz sobre o
filme, acho que quis fazer um mea culpa pelo preconceito que o fez pensar em não
assistir e ao mesmo tempo uma brincadeira com a história que é desenvolvida. Mas
achei boa a análise dele e o filme é realmente bom.
Já com referência ao conceito que ele faz de macho,
aí já deixo por conta do próprio. Cabe a ele explicar.
Caros Antônio.
----- Original Message -----
From: Paulo Sérgio
Pinto
Sent: Wednesday, March 22, 2006 6:38 AM
Subject: Re: [gl-L] Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis
machos senhora: macho que é macho senta no nabo? :-) Fatima Conti wrote: > Oi > > Você viu? > > -- > Beijins > Fa > ---------------------------------------------------------------- > "Se homem fosse dinheiro, todas as notas seriam falsas." > ---------------------------------------------------------------- > > > Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis machos > > [07 Março 02h21min 2006] > > > Eu não queria ver o filme O Segredo de Brokeback Mountain. Não queria. > Ver filme de viados, eu? (Escrevo viado porque, como disse Millor, quem > escreve veado é viado). Muito bem; eu resistia à idéia, mais ou menos > como o Larry David (o roteirista de Seinfeld) disse, num artigo > engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado. > > O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que, > hoje, os civilizados todos dizem que ''tudo bem, que são contra a > homofobia'' e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que > viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe a > homossexualidade no final (Toda Nudez Será Castigada), já filmei > travesti em Eu te Amo e em Eu Sei que Vou te Amar, além da ''biba'' > louca do O Casamento, em que o grande ator André Valli dá um show > inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no > entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos > machistas finos de ''Chapada dos Viadeiros''. > > Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: ''Ah... porque o Ang > Lee é um cineasta mediano, ah... porque será mais um filme politicamente > correto, onde o amor de dois cowboys é justificado romanticamente... Vou > fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays > devem ser compreendidos em seu 'desvio'? Não. Não vou'', pensei. > > Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua. > Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o > Murilinho... cantor de foxes em boates, havia o Clóvis Bornay e poucos > outros... O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para > lhes tirar sangue. E no anonimato, enxameavam os pobres ''pederastas'', > de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas > noites escuras, em busca de satisfação. > > Mais tarde, com o tempo, surgiram as ''bichas loucas'', que se assumiam > com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe > odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje > humorístico, que até hoje alimenta nosso show na TV... A bicha virou uma > personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo. > E tudo bem... são engraçados mesmo. > > Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu o gay power, com > homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem > virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais, > aspirando a uma ''normalidade'' que contrariava sua ''missão'' > trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia, > sacaneando-os: ''Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos > caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado?''. > > Em suma, por mais que ''aceitemos'' os gays, eles sempre foram uma fonte > de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade ''clara''. > O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a > unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o > perobo, o boy, o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos > tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério > inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay cowboy é > muito próximo de nós, a diferença fica mínima. > > Por isso, eu não queria ver o tal filme dos cowboys. Como? Cowboy de > mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do > impossível? Não. Eu não. Mas, aí, por falta de programa, > ''distraidamente''... (aí, hein, santa?...) fui ver o filme. E meu susto > foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para a > homossexualidade, o filme não demandava minha solidariedade. Não. > > Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma > narração simpática de um amor ''desviante''. O filme se impõe > assustadoramente. Os dois cowboys jovens e fortes se amam com um tesão > incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme, > hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano > não agüentava. > > Nem europeu, que ia ficar filosofando. Brokeback é imperioso, realista, > sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois > começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral > vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é > que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me > adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee. > > Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado > no meu machismo ''tolerante''. Eu é que era o careta, eu é que era o > viado no cinema e eles os machos corajosos, se desejando não como > pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e > corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme > nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo. > > Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um > filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de um > profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia, > claro, mas não são ''vítimas da sociedade''. Não. Viveram acima de nós > todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo. > > Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um > heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na Ilíada, algo > desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas > assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos > move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante, > que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de > sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas. > > Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa > sexualidade. > > > Publicado originalmente em > http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/jabor.asp --- Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se. Comentários: www.yahoogroups.com/group/goldenlist-L/messages Newsletter: www.yahoogroups.com/group/goldenlist/messages Yahoo! Groups Links <*> To visit your group on the web, go to: http://groups.yahoo.com/group/goldenlist-L/ <*> To unsubscribe from this group, send an email to: [EMAIL PROTECTED] <*> Your use of Yahoo! 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