Podemos sintetizar tudo isso numa comparação bem popular e rasteira diante de tanta sapiência. O arbusto que se curva ao vento e depois permanece vivo e a árvore que quebra mas não se curva.
Fico com a árvore.
Vou sempre preferir Brahms e Mahler, e nem pensar em ler Lair Ribeiro, ficando com o Saramago.
Mesmo correndo o risco de danificar e arrebentar o hardware. Aí eu me suicido e está resolvida a questão.
Sem desmerecer uma vírgula do que foi dito pelo Dr. Marco Antônio e o Rubem Alves.
 
Carlos Antônio.
 
 
----- Original Message -----
Sent: Wednesday, March 22, 2006 11:48 AM
Subject: [gl-L] Fwd: Quem é normal, mesmo?

---------- Forwarded message ----------
From: Isis.figueiredo Date: 20/03/2006 16:55
Subject: Quem é normal, mesmo?
To: undisclosed-recipients

 
 
 
 Quem é normal mesmo?

Rubem Alves
 

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram
supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista
no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para
pensar para me arrepender.Percebi que nada sabia.

Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que,
do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas
cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando
Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me
assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van
Gogh
matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não
suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma
suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se. Essas eram pessoas
lúcidas
e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós
termos sidos completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental?
Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre
iguais,previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as
coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo
que
o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar
uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley
Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais
perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é
uma
coisa muito perigosa. Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas
demais
para isso.

Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.
Sendo
donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro
que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que
teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado,
nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam
sempre
fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e
certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso
apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com
computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe,
requer
a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente
"equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio".O
hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é
feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que
formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um
hardware e um software.O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios,
tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma
série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos
computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas,
dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a
linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por
defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que
se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e
bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software,
entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa
com
chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos
podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se
fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software
humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são
palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus,
amigos e até mesmo psicanalistas. Acontece, entretanto, que esse computador
que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o
seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois
não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos.

Lemos os poemas eróticos e Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um
aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware,
tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine
mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se
arrebenta
de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no
princípio: a música que saia de seu software era tão bonita que seu
hardware
não suportou. Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições
de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca,
saúde
mental até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A
beleza é
perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são
especialmente contra-indicados.Quanto às leituras, evite aquelas que fazem
pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.
Se há
livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os
jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam
diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica
garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos
domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo essa
receita você terá uma vida tranqüila,embora banal. Mas se você cultivou a
insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o
fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então,
realizar os seus sonhos.

Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se
esquecido de como eles eram. Há tanto por fazer além dos teus mundos
felizes!...

 
 


--
abção

seadog

---

Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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