Sexta-feira, 12 de maio de 2006

no mínimo volta à primeira página José Paulo Kupfer
 
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Perigos do dólar a R$ 1,99

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11.05.2006 |  Apesar das cada vez mais freqüentes e intensas intervenções do Banco Central, o dólar continua deslizando e já aponta para uma cotação abaixo de R$ 2. Algo impensável quando, há pouco menos de quatro anos, ficou claro que Lula seria presidente e os mercados entraram em “estresse”, levando o câmbio da moeda americana a quase R$ 4. Mas a lusitana rodou, o mundo girou e, agora, se os mercados estão numa boa, a economia real é que ameaça um estresse.

A idéia de que é problema um dólar desvalorizado na moeda local não é intuitiva. Para o senso comum, ao contrário, um real forte significa que a economia também está forte. Há mesmo quem, apesar do dever profissional de informar direito o distinto público, solte foguetes toda vez que o dólar desaba. Estes estão de olho exclusivamente nos índices de inflação, que, na visão tosca que difundem, só estarão ótimos se convergirem para uma zona de deflação.

Parênteses: a idéia de que deflação nos preços é problema, pelo menos nas versões prolongadas e acentuadas, também não é intuitiva. Mas, geralmente, é um indicador de anemia na demanda, ou seja, no emprego e na renda, ou, fenômeno mais raro, de excesso de oferta, do qual já tivemos experiência na entrada do Plano Real e de que podem ser observados sinais no atual momento.

É verdade que o câmbio valorizado tem o poder de jogar a inflação no chão. Mas também pode ser mortal para a indústria local e o negócio agrícola. Dependendo do nível da valorização e do tempo em que se estende, não há competitividade doméstica que resista aos preços, convertidos na moeda valorizada, dos bens e serviços que vêm de fora. Se nem mesmo economias de ponta – abertas, com moedas conversíveis, mais concentradas em serviços e produção de alta tecnologia agregada – agüentam o tranco, o que dizer das instáveis e vulneráveis economias emergentes?

O drama é que, quando uma economia emergente entra num ciclo de valorização cambial, os primeiros resultados são só sorrisos. Empurrados por uma espécie de “dumping” de mercado pelos produtos importados ou pelo desvio para o mercado interno de parcelas do que antes era exportado e se tornou caro demais para os compradores externos, os preços tendem a desabar. O lado risonho dessa história, sempre louvada pelos liberais econômicos de casaca, é uma melhoria da remuneração real das famílias – com preços estáveis ou até recuando, obviamente, compra-se mais com o mesmo dinheiro.

Não havendo, porém, nada ou quase nada além do câmbio para explicar a belezura, é líquido e certo que, passado o efeito da anestesia, a dor volta, com mais intensidade ainda. É o que já se observa em segmentos do agronegócio e começa a tomar corpo na indústria automobilística, depois de desarrumar setores como o têxtil e o de calçados.

Recorrente nas economias com setor externo vulnerável, o problema, no caso brasileiro atual, está sendo camuflado pelos inéditos e positivos resultados da balança comercial. Os saldos, apesar do câmbio valorizado, têm sido realmente volumosos. Nos últimos 12 meses, alcançaram US$ 45 bilhões e, embora a tendência seja de redução, as melhores apostas são de saldos em torno de US$ 40 bilhões no fim do ano. Só que isso se deve a uma conjuntura especialmente favorável, em que o baixo crescimento interno ajuda a frear o ímpeto importador e a manutenção do aquecimento do comércio internacional, puxado pela voracidade compradora da China, abre espaço para as exportações, sobretudo as de commodities. Até quando a onda vai durar?

Enquanto isso, dependendo das especificidades setoriais, a economia real doméstica vai balançando. Depois do fechamento de fábricas têxteis e da transferência pura e simples de unidades de produção de calçados para a China, a indústria automobilística dá sinais de que pode engasgar. A Volkswagen saiu na frente e anunciou a demissão de cerca de 6 mil funcionários – um quarto do total de seus empregados! – e o fechamento de pelo menos uma unidade das quatro que opera no Brasil. O presidente da subsidiária brasileira acusou o câmbio valorizado pelas atribulações locais da empresa.

A situação da Volks, sem a menor dúvida, é mais aguda do que a das demais montadoras instaladas no País. Há razões só dela para as dificuldades que enfrenta, a começar pela perda de mercado para concorrentes asiáticos até em seu quintal europeu. Também no Brasil, suas fábricas mais antigas, como a emblemática unidade de São Bernardo do Campo (SP), perderam o bonde da tecnologia e da produtividade. Mas errará quem considerar que se trata apenas de um problema isolado de uma empresa em dificuldades nas suas operações mundiais e locais.

Nem com fábricas mais modernas e competitivas, as montadoras estão conseguindo superar o impacto do câmbio valorizado. Sabe-se de contratos de uma montadora de origem americana, com cinco anos de vigência e movimentando mais de US$ 100 milhões de dólares, que vencem em agosto e não serão renovados. A fábrica estava perdendo US$ 200 por veículo exportado e, além disso, uma subsidiária européia oferece o mesmo produto a preços mais atraentes. Especialistas garantem que, no conjunto do setor, as quedas nas margens de lucro chegam a 20%.

Pior do que isso, não se ouve mais falar em novas plataformas de produção no Brasil. Na Argentina, os custos de produção, exceto componentes importados, estão 30% menores e, acreditem, montadoras já estudam a sério fabricar novos veículos no vizinho de governo caloteiro e populista, em lugar de produzi-los no Brasil. O anúncio da Volks chamou a atenção, acendeu uma luz amarela, mas a reviravolta negativa ainda não é totalmente visível a olho nu. Quem entende do riscado, contudo, jura que, mantidas as condições atuais, em até três anos, a produção de veículos na Argentina vai crescer mais do que no Brasil.

Vamos pagar (com real valorizado) para ver?



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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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