Oi

Reflexões sobre a brilhante vitória argentina na copa.

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Beijins
Fa
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"Metade das pessoas que você conhece está abaixo da média."
  - Steven Wright
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Sábado, 17 de junho de 2006


Marcos Caetano - Estoy preocupado...


Buenos Aires, 25 de junho de 1978. Exatamente às cinco horas daquela 
fria tarde portenha, o amargo e brilhante Jorge Luis Borges iniciava sua 
palestra frente a umas cinco almas no auditório da Universidade de 
Buenos Aires. Uma platéia tão reduzida para ouvir a “charla” do mais 
consagrado escritor argentino de todos os tempos poderia parecer 
estranho. Poderia, se deixássemos de considerar que naquele exato 
instante, a três quarteirões dali, a Seleção Argentina adentrava a 
cancha para conquistar a primeira Copa do Mundo de sua história.

Dizem que Borges marcou a palestra para o absurdo horário como protesto 
contra a ditadura militar, que certamente se aproveitaria – como se 
aproveitou – da vitória da seleção celeste e branca para prolongar seu 
regime de trevas. Sem dúvida, esse foi um dos motivos. Mas algo me diz 
que ele faria a palestra naquele dia e hora fosse qual fosse o regime 
político vigente. Borges simplesmente detestava futebol. E eis aqui o 
meu ponto: houve uma época em que nossos vizinhos eram os amargos, os 
tristes, os góticos. Hoje a situação é diferente. Em termos 
futebolísticos, los hermanos estão alegres como uma ala de passistas no 
carnaval brasileiro.

Minha coluna estava prontinha para ser publicada. Ia dizer o óbvio, ou 
seja: salvo a Espanha, que goleou a Ucrânia – adversário que não chega a 
ser abonador –, todos os demais candidatos ao título até que venceram 
seus jogos, mas jogando a conta do chá. Aí veio o jogo da Argentina e 
tudo o que eu havia escrito se perdeu. Depois dos 7 x 0 sobre a antes 
elogiada seleção de Sérvia e Montenegro, os argentinos apresentaram as 
credenciais de primeiro grande time desta Copa. Escrevi 7 x 0 porque o 
jogo acabou 6 x 0 apenas graças ao árbitro, que anulou um gol legítimo 
dos nossos eternos rivais. E foi assim que eu tive que recomeçar a 
coluna. Sorte minha que o telefone tocou e, com um tom gravíssimo na 
voz, João Moreira Salles resumiu o que passava pela cabeça de quem viu a 
exibição dos rioplatenses. Da preocupação do amigo, nasceu esta coluna.

Os pontos preocupantes começaram fora de campo, no banco de reservas. 
Diziam que o nosso banco faria a diferença. Acredito que Robinho, 
Juninho Pernambucano e até Fred ainda podem fazer a diferença. Mas, se o 
nosso banco é que é o bambambã, como é que o técnico deles promove a 
entrada de Messi e Tevez? Os dois jovens atacantes foram novas estrelas 
a fulgurar num ataque que impressionou pela versatilidade, marcando gols 
em lindas e trabalhadas jogadas coletivas, com a bola rolando de pé em 
pé, mas que também deixa sua marca em lances individuais, que nascem 
pura e simplesmente da genialidade dos craques. Nossa Seleção marca 
muitos gols em jogadas individuais, mas precisa mostrar mais em jogadas 
combinadas. Potencial para isso, ela tem.

Com um ataque tão impressionante, costumamos nos esquecer que a defesa 
argentina vem se portando de forma irretocável. É verdade que nosso time 
B meteu quatro gols neles na final da Copa das Confederações. Mas que os 
caras estão defendendo o fino, lá isso estão. Como se não bastasse 
tantas virtudes, os vizinhos do andar de baixo jogam com 12. Sim, porque 
Maradona, um dos gênios da história do futebol, incendeia o time dentro 
de campo com sua presença de torcedor apaixonado. Imaginem um garoto de 
vinte, vinte e poucos anos, entrando em campo numa Copa com o maior 
jogador da história de seu país gritando o seu nome. (Ah, se Pelé desse 
pulos com a camisa amarelinha nas tribunas e atirasse beijos para nossos 
craques em campo...).

Apesar de tão contundente exibição dos rivais, ainda acredito que o 
grande futebol brasileiro aparecerá na Alemanha. A Austrália 
entusiasmada é uma vítima sob medida para que isso aconteça. Vale 
lembrar que em 2002 os argentinos eram os favoritos indiscutíveis e nós 
uma espécie de zebra de luxo. Deu no que deu.



Retirado de
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