Sexo-refresco
Quando o desejo basta
   
    Um desconhecido, uma troca de olhares, um momento mágico de pura atração. 
Nem precisa rolar nada: só a energia sexual desencadeada por essas situações já 
joga a auto-estima lá em cima. Mulheres que viveram essa delícia contam por que 
o sexo-refresco pode ser tão revigorante 
    MARCIA LOBO | REPORTAGEM JULIANA DINIZ | REALIZAÇÃO NORIS MARTINELLI
  
Uma fração de segundo é suficiente. Para ser exata, meros 150 milésimos de 
segundo. É o tempo que pesquisadores ingleses calcularam ser o bastante para 
uma troca de olhares despertar forte atração sexual. Se acontece quando você 
está parada num congestionamento ou na fila do cinema com seu marido...pronto, 
seu dia está ganho! Pode ou não dar em alguma coisa - geralmente não dá -, mas 
não faz diferença. O importante é sentir. Você sabe do que estou falando: 
daqueles momentos mágicos em que um completo desconhecido consegue levantar 
nosso astral como anos da análise,a Mega-Sena acumulada e até o homem amado não 
conseguiriam. Às vezes, são flashes; ou ficam para sempre gravados na memória, 
onde podemos ir buscá-los numa crise emocional ou simplesmente para nos 
deliciarmos com a lembrança.   
  Toda vez que me sinto pra baixo, me achando um lixo, a última das mulheres, 
penso nele. Eu estava com três amigas - e ele, com o irmão (ou filho) pequeno - 
assistindo a um espetáculo de jazz ao ar livre. A gente se comeu com os olhos 
durante quase uma hora
e, apesar de o tempo todo ficarmos separados por uns cinco metros e uma pequena 
multidão agitada, ainda me lembro de cada detalhe daquele rosto. Do cabelo 
louro esvoaçante, do sorriso e, principalmente, do olhar. Para dizer a verdade, 
me lembro mil vezes mais dele do que de muitos ex-namorados. Quando a música 
terminou, foi cada um para o seu lado e nunca mais nos vimos. Não poderia ser 
de outro jeito. Isso aconteceu numa ensolarada tarde do verão norueguês, no 
parque Frogner, em Oslo. Durante férias inesquecíveis, há 20 anos."

Fernanda nem precisaria me contar essa história, que já conheço de cor. Mas 
pedi que contasse novamente porque também sei como adora falar do assunto. 
Afinal, eu era uma das tais amigas naquele parque e fui testemunha do que chama 
de "o momento mais erótico" de sua vida. E bota testemunha nisso! A certa 
altura, confesso que me senti constrangida e temi que os dois se agarrassem ali 
mesmo. Para dar uma idéia da energia sexual que trocaram, até hoje eu fico 
excitada quando me lembro da cena. Tínhamos chegado na véspera para uma 
excursão de duas semanas pela Escandinávia e fiquei imaginando que, se no 
primeiro dia já pintava um clima daqueles, as férias prometiam fortes emoções.
  Para nossa decepção, durante a viagem inteira não aconteceu mais nada digno 
de nota. Não é que alguma de nós estivesse especialmente carente na época, mas 
ficamos querendo sentir a mesma coisa. Ainda mais porque nunca tínhamos visto a 
Fernanda tão bonita e tão cheia de vida como depois do glorioso passeio no 
parque. Daí em diante, virou uma espécie de ritual; toda vez que a gente se 
encontrava, a primeira pergunta era: "E aí, já aconteceu com você?" Com o 
passar dos anos, acabamos todas vivendo nossos casos de tesão instantâneo - 
nenhum, porém, tão fulminante e explícito. Só há pouco tempo, numa dessas 
conversas, Fernanda nos falou sobre o comentário da irmã mais nova quando lhe 
contou sua aventura norueguesa: "Mas que azar! Se vocês estivessem sozinhos, 
teria rolado, não teria?" Diz minha sortuda amiga que ficou com cara de boba, 
sem saber o que responder. Nunca havia lamentado o fato de aquela química toda 
não ter acabado em cama. Nem sequer tinha certeza se pensou em
 cama. E certamente jamais encarou seu grande momento de glória como algum tipo 
de perda. Bem pelo contrário. Nós, idem, e ficamos injuriadas. Será que éramos 
um bando de caretas empolgadas a troco de nada? Essas coisas costumam acontecer 
com as mulheres? E, quando acontecem, as outras reagem de maneira diferente? 
Bem, o jeito era investigar.

A irmãzinha desmancha-prazeres tinha pelo menos um aliado de peso: ninguém 
menos do que um dos gurus da psicanálise, o francês Jacques Lacan. Dizia ele: 
"A mulher quer ser desejada, não amada. Só consegue se pensar, se construir, a 
partir do desejo do outro". Você pode achar pouco lisonjeiro e um tanto 
machista (nós achamos), mas quem há de negar que se sentir desejada é um 
poderoso afrodisíaco? Muita mulher já se envolveu com homens que não tinham 
nada a ver só porque não conseguiu resistir a alguém que a desejava tanto. Quem 
sabe, em circunstâncias mais favoráveis (isto é, sem a gente empatando), 
Fernanda teria seguido seu instinto e se deixado arrebatar para uma noite de 
paixão. Ela garantia, porém, que viver aquele momento foi mais do que 
suficiente.
  
Não só ela. E aqui entram as nossas aliadas. Conversamos com várias mulheres 
sobre esse clique que pega a gente, e uma delas definiu a coisa lindamente: 
"Ah, já sei do que você está falando. É um verdadeiro refresco sexual". 
Concordamos todas que se trata disso mesmo, uma espécie de poção revigorante 
que saboreamos para poder seguir em frente mais dispostas e felizes. Quer um 
exemplo? Convenhamos que um motorista de caminhão não chega a ser o príncipe 
encantado dos sonhos femininos, mas a estudante de direito paulista Lívia 
Lucena, 21 anos, não hesitou quando lhe pedimos para contar seu mais arrepiante 
refresco sexual: "Eu tinha saído do escritório quando o sinal fechou e um 
caminhoneiro começou a buzinar e a me chamar. Não dei bola, mas o sujeito 
insistiu tanto que arrisquei uma olhada. E fiquei vidrada! Que morenão! Que 
braços musculosos! Aí, me senti uma deusa por ter chamado a atenção daquele 
homão".

Às vezes nem é preciso ser notada, o que joga um (já que estamos falando no 
assunto) caminhão de areia na tese do dr. Lacan. Mariana Simon, uma vendedora 
de 25 anos que mora em São Paulo, fica feliz da vida quando sai de casa de 
manhã cedo para o trabalho e cruza com um loiro lindo que jamais deu a mínima 
para ela: "O carteiro da rua Oscar Freire é o homem mais perfeito que já vi", 
garante. O namorado sabe dessa paixonite, mas, segundo ela, leva numa boa. 
Talvez porque também saiba que ela não tem o temperamento atirado de uma das 
nossas recordistas, a catarinense Vaniza Lucela Zimmermann, 26 anos. Suas 
paixões à primeira vista já viraram namoro e uma vez, acredite, chegou até a 
trocar um "refresco" por outro.

É pouco provável que aconteça com Vaniza o que aconteceu com Luciana de Moraes, 
27 anos, que até hoje se pergunta se não deveria ter dado uma chance ao bonitão 
envolvente, freqüentador assíduo da loja onde trabalhava em São Paulo. Era 
noiva na época (está casada), mas ficou balançada com a persistência dele, as 
flores e bombons que lhe mandava. Com dor no coração, desiludiu de vez o 
apaixonado quando elo confessou que era casado. Tudo bem que nesse caso havia 
grandes probabilidades de o refresco se tornar amargo. A verdade, porém, é que 
muitas vezes nos arrependemos de não pagar para ver no que daria. A estudante 
de publicidade paranaense Andressa Farias, 24, há seis meses faz o mesmo 
trajeto torcendo para reencontrar o moreno gatíssimo que, certa noite, 
emparelhou o carro com o dela insistindo para que parasse. Ela seguiu em frente.
  Por que algumas de nós param e outras não? Pode ter a ver com o velho 
condicionamento que nos faz confundir atração sexual com estar apaixonada, duas 
coisas que a ciência já provou serem completamente diferentes. Um estudo feito 
escaneando o cérebro de pessoas em começo de relacionamento e publicado no 
periódico americano JOURNAL OF NEUROPHYSIOLOGY em julho de 2005 mostra que o 
lado direito do cérebro reage diante do amor e o lado esquerdo aos refrescos da 
vida. Tanto assim que especialistas como o psiquiatra Henrique del Nero, 
coordenador do Núcleo de Ciências Cognitivas da Universidade de São Paulo, 
estão cansados de explicar a pacientes preocupadas que o melhor sexo nem sempre 
é com a pessoa que mais se ama. Vai ver, não conseguimos conciliar a imagem que 
temos de nós mesmas com a reação dos nossos hormônios. Afinal, deixar-se levar 
por um homem que mexe com nosso sistema límbico (fazendo as batidas cardíacas 
dispararem e as glândulas sexuais trabalharem feito loucas)
 não combina com o resultado de uma pesquisa recente da Universidade Federal do 
Rio de Janeiro, coordenada pela antropóloga Mirian Goldenberg. À pergunta "O 
que mais atrai você no sexo oposto?", os homens responderam "beleza". A maioria 
das mulheres garantiu que era a "inteligência". Vá entender a nossa cabeça.

Fernanda certamente não tinha como avaliar se seu deus nórdico era ou não um 
intelectual. Mas pode ter empregado instintivamente uma habilidade feminina 
descoberta há pouco tempo. Conseguimos avaliar com precisão o grau de 
masculinidade de um homem só de olhar para o rosto dele, garante o dr. Dario 
Maestripieri, professor de desenvolvimento humano comparativo da Universidade 
de Chicago, coordenador de uma pesquisa em que mulheres eram convidadas a olhar 
fotos de homens. Os refrescos dessa vida teriam todos nota 10 nessa pesquisa.



 

                
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