Oi

Antigamente, o ensino nas escolas públicas em geral, era bom
e na maioria das escolas particulares era ruim.

Lembra do famoso "Pagou, passou?"

De uma coisa eu sempre tive certeza:

As escolas particulares não melhoraram em nada.

O que aconteceu é que a escola pública piorou muito.

-- 
Beijins
Fa
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"Pessimista é aquele indivíduo que usa cinto e suspensórios."
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Preocupe-se. Seu filho é mal educado.


"A idéia de que a escola particular brasileira é boa e
protege seus alunos das deficiências da escola pública
é falsa. Nossas escolas particulares são apenas menos
ruins do que as públicas – mas, se comparadas às
escolas de outros países ou a um nível ideal de
qualidade, certamente ficam muito distantes"




O Pisa é atualmente o teste internacional de qualidade da educação mais 
reconhecido globalmente. Ele é aplicado a cada três anos pela OCDE e sua 
última edição, sobre a qual temos resultados disponíveis, pintou um 
quadro aterrador para o Brasil. Em primeiro lugar, porque nosso 
desempenho geral foi baixíssimo. Entre os quarenta países participantes 
(trinta desenvolvidos e dez em desenvolvimento), ficamos em último lugar 
em matemática, penúltimo em ciências e 37º na área de leitura. Esse 
resultado não é de todo surpreendente, já que há anos e em vários outros 
testes internacionais colhemos resultados parecidos. Há sempre uma 
tendência do setor mais ilustrado da nossa sociedade de dar de ombros a 
esses resultados, creditar o fracasso nacional às escolas públicas e 
imaginar que, colocando o filho em uma boa escola particular, o problema 
não o afeta. O Pisa demonstra que esse raciocínio não é apenas tacanho, 
mas também fundamentalmente equivocado – e aí, sim, há uma surpresa 
digna de nota. O problema não é apenas das escolas públicas, mas da 
educação como um todo. Não há ilhas de excelência no mar de lodo. Em 
matemática, por exemplo, apenas 1,2% dos alunos brasileiros chega aos 
dois níveis mais altos de desempenho, contra uma média de 15% dos 
estudantes dos países da OCDE, 19% dos de Macau (China) e 7% dos da 
Rússia. A situação fica ainda mais clara quando fazemos o recorte por 
nível socioeconômico: o desempenho dos 25% mais ricos do Brasil é menor 
do que a média dos 25% mais pobres dos países da OCDE. Deixe-me repetir: 
os alunos da nossa elite têm desempenho educacional pior do que os mais 
pobres dentre os países desenvolvidos.

A idéia de que a escola particular brasileira é boa e protege seus 
alunos das deficiências da escola pública é falsa. Nossas escolas 
particulares são apenas menos ruins do que as públicas – mas, se 
comparadas às escolas de outros países ou a um nível ideal de qualidade, 
certamente ficam muito distantes.

Os pais que colocam seus filhos em escolas particulares estão, na 
realidade, pagando por um diferencial que vem mais deles (pais) do que 
da escola em si. Estudos recentes do economista Naercio Menezes Filho 
indicam que 80% da diferença de desempenho entre as escolas públicas e 
as privadas é explicável pelo status socioeconômico da família do aluno. 
Outros 10% são explicáveis pelo status dos colegas de ensino. Apenas os 
10% restantes são atribuíveis à qualidade da própria escola. Ou seja, de 
cada 10 pontos de performance superior de um aluno de escola particular, 
8 são explicados pelo fato de ele já vir de casa com maior bagagem 
cultural, ter acesso a livros e viver em um ambiente sem carências 
materiais agudas; 1 ponto é explicado pelo fato de os colegas dele virem 
igualmente de ambientes privilegiados – e a literatura empírica é 
categórica ao apontar os efeitos que os colegas têm sobre o desempenho 
de um aluno (peer effects) –; e o outro ponto pode ser atribuído à 
qualidade da escola.

Não é muito difícil entender por que esse quadro é assim. O ator 
fundamental do processo de ensino é o professor. A boa administração 
escolar sempre é positiva e surte resultados, mas nem toda a eficiência 
gerencial do mundo fará com que um mau professor dê uma boa aula. 
Segundo o Perfil dos Professores Brasileiros, da Unesco, 81% dos atuais 
professores cursaram seu ensino fundamental em escolas públicas e quase 
70% fizeram o curso secundário em escolas públicas. Se esse professor é 
formado em instituições de ensino claudicantes, ele tenderá a ser também 
um professor despreparado, por mais rica e organizada que seja a escola 
em que leciona. Não é possível para a nossa elite criar uma blindagem 
para se proteger das mazelas do setor público. Não apenas porque a 
escola pública formará a mão-de-obra dessa elite dirigente, mas também 
porque formará os professores dos seus filhos. Em todos os países do 
mundo, educação é um projeto público e nacional. Ou todos vão bem, ou o 
país vai mal.

Isso não significa dizer, obviamente, que a escola particular não tenha 
razão de existir ou, pior, que deva ser proibida. Em uma sociedade 
livre, cada família deve ter o direito de dar aos seus filhos a educação 
que merece – inclusive uma educação que, medida por testes padronizados, 
seja de qualidade igual ou inferior à da escola gratuita. No caso de um 
país com as carências educacionais que temos, mesmo que a diferença 
pró-particulares seja pequena, nenhum pingo de excelência pode ser 
sacrificado.

O que esses dados sugerem é que esse modelo de ensino chegou ao seu 
esgotamento. Seus problemas são em larga medida resultantes de uma mesma 
mentalidade que permeia nossa vida nacional e causa dificuldades por 
onde passa. Por muito tempo, os que tiveram a responsabilidade de pensar 
o país pensaram antes de tudo em si mesmos. Assim, criamos um sistema 
educacional em que a qualidade do ensino ministrado aos mais pobres não 
importa e o objetivo do ensino destinado aos ricos é ser tão-somente 
melhor do que o destinado aos pobres. Enquanto éramos uma sociedade 
autárquica e agroexportadora, essa miopia não tinha conseqüências 
maiores. Não é preciso Ph.D. para plantar café e não é preciso 
preocupar-se com a indústria chinesa em tempos de reserva de mercado. O 
problema é que nas últimas décadas o mundo mudou e o Brasil quer 
participar desse mundo novo – sem, porém, mudar a si mesmo. No momento 
em que o mercado passa a ser global e não nacional ou estadual e em que 
a competitividade das nações se dá pela produção de bens e serviços de 
alto valor agregado, o modelo educacional brasileiro já não dá mais 
conta do recado. Precisamos colocar mais gente nas escolas e 
especialmente em nossas universidades, e a saída para isso é apenas uma: 
a melhoria da qualidade do ensino que nossas crianças recebem. Mau 
ensino hoje é igual a evasão amanhã.

A conclusão é lógica: mesmo quem coloca os filhos em escolas 
particulares deve se preocupar com a qualidade da educação pública. E 
com urgência. Não apenas por espírito cívico, mas por amor-próprio 
também. Atualmente, 13% dos alunos do ensino básico estão em escolas 
privadas e os outros 87% estudam em instituições públicas. O único 
encontro entre esses dois grupos que gera alguma mobilização do setor 
mais avantajado é quando os ex-alunos da escola pública entram na escola 
do crime e cutucam as janelas dos carros dos ricos com os seus 
revólveres. Aí, já é tarde demais. No Brasil de 2007, voltar nossa 
atenção para o que acontece na 1ª série do ensino fundamental das 
escolas de periferia virou questão de sobrevivência – coletiva e 
individual, figurada e literal.


Sexta-feira, 1º de novembro de 2007

Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação
E-mail: [EMAIL PROTECTED]


Retirado de
http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_011107.shtml

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