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O Globo - Jo�o Ubaldo Ribeiro - Domingo - 2004-06-06

A roubalheira num boteco do Leblon

Claro, n�s estamos acostumados desde a inf�ncia. Acho que das primeiras coisas que me 
lembro na vida � meu av� dizendo na mesa do almo�o que aqui no Brasil s� tinha ladr�o. 

- Gozado, isso. Eu tamb�m tenho essa mesma lembran�a, s� que � com minha av�. E ela j� 
come�ava falando mal do finado v� Est�cio, marido dela, que morreu antes de eu nascer. 

- Falando mal? Sua av� se queixava de que seu av� era ladr�o? 

- N�o, o contr�rio. Pelo que eu sei da fam�lia, porque naquela �poca ningu�m contava 
nada aos meninos, eles sempre se deram mal e uma das coisas em que ela mais dava no p� 
dele era que ele n�o era ladr�o, achava ele um ot�rio. "Lamb�o", ela usava muito essa 
palavra quando se referia a ele, aquele lamb�o. Ela n�o se conformava, dizia que esta 
vida era curta, Deus no final perdoava tudo mesmo e eles passaram uns apertos porque o 
velho n�o era ladr�o como devia. Ali�s, como devia, n�o, isso ela j� achava pedir 
muito. Mas que pelo menos roubasse uma coisinha, o suficiente para deixar a fam�lia 
numa situa��o mais confort�vel. 

- � muito interessante isso que voc� est� me contando. Interessante que uma senhora 
que nasceu no s�culo dezenove falasse essas coisas. 

- �, era interessante mesmo. A velha Laura lia jornal, acompanhava a pol�tica, falava 
bem e era mais desbocada que a Dercy Gon�alves. At� j� grande, eu curtia muito ouvir 
ela conversando. Ela dizia "eu sou da realidade, meu filho, comigo � na realidade". Me 
deu muito esculacho porque nessa �poca eu era metido a socialista e ela dizia que a 
coisa mais insuport�vel � juventude idealista. Ela falava que a �nica coisa pior do 
que um idealista eram dois idealistas, ela n�o queria saber de nada disso, o neg�cio 
dela era a realidade. 

- Mas eu n�o quero dizer interessante nesse aspecto. � que a gente fica pensando que, 
no tempo, dela, as pessoas tinham uma posi��o muito mais contra a roubalheira, quer 
dizer, a gente fica pensando que a moral era mais elevada. Essa hist�ria dela 
esculhambando seu av� porque ele n�o era ladr�o... 

-- Ela tinha raz�o! Eu dou toda a raz�o a ela! Se ele tivesse sido ladr�o, meu pai, 
que era filho �nico, tinha herdado uma fortuna e eu, que s� tenho uma irm�, 
provavelmente tamb�m ia estar numa boa, pelo menos umas propriedades a� eu ia ter. 

-- N�o, n�o vem me dizer que voc� est� de acordo com essa roubalheira toda que a gente 
fica vendo no jornal, isso � uma vergonha. 

- Vergonha de qu�? Quem sai aos seus n�o degenera, o mal do brasileiro � esse, � 
querer ser uma coisa que n�o �. Vergonha � os caras serem uns incompetentes e n�o 
roubarem direito, para depois pegarem eles. Se bem que n�o aconte�a nada e eles fiquem 
numa boa como sempre ficaram, mas � chato esse neg�cio de pris�o tempor�ria, aparecer 
na televis�o, contratar advogado que tamb�m mete a m�o no que pode, � sempre chato. 
Mas, se n�o fosse isso, n�o era vergonha nenhuma. Ali�s, eu vou mais longe, eu 
engrosso logo. O que n�s temos, como povo, � que assumir que todo mundo � ladr�o mesmo 
e quem n�o � ladr�o est� contribuindo para a perda da identidade nacional. Falei 
bonito como voc� gosta, falei n�o? � isso mesmo, perda da identidade nacional. 

- N�o, tu t� curtindo com minha cara, tu n�o vai achar que a nossa identidade nacional 
� a ladroagem, n�o � assim. 

- Quando que n�o foi assim? Te mira no exemplo da minha av�, cara, seja da realidade! 
Antes da minha av� teve o pai dela e o pai do pai dela e o pai do pai e por a� vai. 
Como � que tu acha que ela descobriu que a realidade � que ladr�o tradicionalmente se 
d� bem, sempre se deu bem aqui, faz parte da nossa heran�a cultural? Gostou de novo? 
Faz parte da nossa heran�a cultural, n�s temos mais � que aproveitar do que querer se 
livrar dela, porque n�o vamos conseguir nunca, t� no sangue, cara. 

- N�o est� no sangue coisa nenhuma. Eu acredito que o povo � honesto. Alguns 
pol�ticos, algumas autoridades, alguns funcion�rios, alguns empres�rios podem ser 
ladr�es, mas nem todos, longe disso, nem todos mesmo. 

- Ah, �? N�o � verdade, � tudo ladr�o, mas vamos dar de barato que alguns n�o sejam, 
pelo menos assim diretamente, passando os cinco dedos diretamente na massa. E de onde 
� que os ladr�es sa�ram, foi de Marte? Importaram de um pa�s fornecedor de ladr�o? N�o 
� tudo desse povo mesmo, cara, onde � que tu vive, deixa de ser cego, enxerga a 
realidade! O nosso povo � maravilhoso, � todo mundo ladr�o e quem n�o rouba � porque 
ainda n�o encarou a realidade. Tem que subverter o pensamento. Roubar � uma realidade 
positiva, temos que incutir isso na cabe�a de uma vez por todas e, se cada um roubar, 
sem frescuras, num instante a sociedade est� equilibrada. O desgaste � querer lutar 
contra nossa pr�pria natureza, isso nunca vai dar certo. 

- Mas pelo menos um furo tem, nesse teu pensamento. Se todo mundo come�ar a roubar de 
todo mundo, vai acabar ningu�m tendo de quem roubar. 

- Desculpe, mas teu racioc�nio demonstra ignor�ncia da ci�ncia econ�mica, isso � 
elementar. Com todo mundo roubando de todo mundo, o ciclo econ�mico se fecha, vai ter 
sempre algu�m de quem roubar. O que roubou hoje ser� roubado amanh� e vice-versa. 
Entendeu? Est� na cara, o nosso atraso � n�o aceitar a realidade, a nossa voca��o, e 
n�o querer usar ela a nosso favor, tudo preconceito pequeno-burgu�s, como se dizia 
antigamente. Ta�, acabo de trair a v� Laura, fiquei idealista, mas desse jeito ela ia 
aprovar. Vou fundar o roubismo, tu pode ter certeza que � a �nica solu��o para o pa�s, 
e pode escrever que eu j� sou roubista radical, eu sou roubista do B. 

JO�O UBALDO RIBEIRO � escritor.

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Fonte: http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/ubaldo.asp

- c.a.t.
  www.iis.com.br/~cat


�timo dia pra voc�.

 

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