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INDENIZA��ES MILION�RIAS - a briga continua

Ao Observat�rio da Imprensa 

por Carlos Heitor Cony 
Jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras

Recebi de um leitor, por e-mail, o texto de um cara que se diz colega. Foi 
publicado no Observat�rio da Imprensa. Diz ele que eu j� ganhei vultosa 
indeniza��o do Estado, quando na realidade nada recebi - tenho muita idade e 
pouca sa�de para esperar o tal retroativo, que ali�s j� foi pago a muitos 
jornalistas sem que o tal colega tenha se manifestado.

O colega elogia reportagem publicada no Estad�o, mat�ria mal informada e 
parcial. No quadro em que relaciona os felizardos, com as respectivas quantias, 
paginado com fundo em cor, o Estad�o esquece nomes mais ilustres do que o meu, 
como H�lio Fernandes, Sebasti�o Nery, Maur�cio Azedo (presidente da ABI), 
Leandro Konder, Cristina Konder, Fl�vio Tavares e sei l� quantos outros. 

A ignor�ncia revelada nas mat�rias, tanto a do Estad�o como a do colega, � a de 
n�o saber quem estabelece o valor das indeniza��es, dando a entender que o 
postulante exige determinada quantia. 

Fosse assim, eu teria pedido quantia maior - como quantificar preju�zos morais, 
profissionais e financeiros? Seria uma avalia��o subjetiva, por isso mesmo, 
quem estabelece o valor das indeniza��es � a lei. Lei que foi discutida e 
aprovada no Congresso Nacional e que est� sendo aplicada pela Comiss�o de 
Anistia presidida por Marcelo Lavan�re, um dos dois signat�rios do pedido de 
impeachment de Collor.

Pode conter erros e injusti�as, como qualquer lei, mas est� sendo aplicada em 
todos os casos. Pelo que se depreende da mat�ria do Estad�o e do texto do 
colega, basta um cara alegar que foi perseguido ou torturado, exigir uma 
quantia e pronto, a Comiss�o d� a indeniza��o. Um dos entrevistados pelo 
Estad�o reclamou que teve de apresentar RG, CPF e atestado de resid�ncia para 
se habilitar � indeniza��o. Teria de apresentar muito mais do que isso. 

Foi o que fiz. Al�m do RG, CPF e atestado de resid�ncia, meu advogado, um 
jornalista ilustre e bem conceituado, apresentou um dossi� de mais de cem 
p�ginas, com documentos, senten�as do Supremo Tribunal Federal e do Superior 
Tribunal Militar, habeas data que ele requereu ao DOPS, fotos, farto notici�rio 
da �poca. 

Estranhamente, o colega afirma que a dire��o do Sindicato dos Jornalistas 
Profissionais do Rio de Janeiro desmentiu a tabela de remunera��es que instruiu 
meu processo. N�o � verdade. Meu advogado tratou pessoalmente do caso, 
inclusive para outros postulantes, e no meu processo foi anexada uma declara��o 
em papel timbrado do Sindicato, assinada pelo seu presidente, Nacif Elias Hidd 
Sobrinho, com firma reconhecida - exig�ncia da pr�pria Comiss�o para todos os 
documentos apresentados.

N�o fiz qualquer declara��o ou alega��o no processo. Fiz apenas uma exposi��o 
baseada em fatos provados. Diz o colega que "aleguei" ter sido demitido da TV 
Rio. Tamb�m n�o � verdade. No dossi� preparado pelo meu advogado, est� o livro 
de Walter Clark (O Campe�o de Audi�ncia, editora Best Seller, 1991), ent�o 
diretor geral daquela emissora, narrando os diversos tipos de censura e 
constrangimento que sofreu, tanto na TV Rio como mais tarde na Rede Globo. 

Walter Clark relembra a convoca��o que recebeu do ent�o Secret�rio de Seguran�a 
da Guanabara, coronel Gustavo Borges, que exigiu n�o a minha demiss�o (eu n�o 
era funcion�rio), mas a retirada de uma novela que, a pedido do pr�prio Walter, 
eu escrevia para a TV Rio, e que estava liderando o ibope no hor�rio das 19 
horas. 

Com isso, fiquei sem condi��es de trabalhar no Brasil, indo inicialmente para a 
Fran�a, onde n�o encontrei recursos para sobreviver; depois para Cuba, como 
jurado do pr�mio da Casa de las Am�ricas (junto com Jos� Celso Martinez Corr�a) 
- ficando por l� um bom tempo, e podendo ficar mais, at� que, n�o suportando o 
regime militar ali instalado, igual ao existente no Brasil, preferi voltar, 
quando mais uma vez fui preso.

E h� um detalhe. Ao tomar posse na ABL, declarei que n�o tinha disciplina para 
ser de esquerda nem convic��es para ser de direita. Sempre recusei o 
oportunismo do centro. Da� n�o me restava outra solu��o a n�o ser a de me 
tornar um anarquista humilde, triste e inofensivo. 

Nunca peguei em armas, nunca participei de passeatas contra ou a favor de 
qualquer causa. Sou e continuo alienado e tenho orgulho disso. Fui processado 
pelo Ministro da Guerra, General Costa e Silva, seis vezes preso, fui condenado 
pela direita, criticado at� hoje pela esquerda, pelo fato de sempre expressar a 
minha opini�o, gostem ou n�o gostem dela: para mim � indiferente.

Tanto o Estad�o como o colega afirmam que os postulantes alegam supostas 
persegui��es. Com m�-f�, esqueceram que milhares de processos feitos na base de 
"alega��es" e "suposi��es" foram e continuam sendo sumariamente indeferidos 
pela Comiss�o de Anistia.

Quanto � demora na solu��o para alguns processos e presteza para outros, que o 
jornal�o e o colega atribuem a pistol�es ou press�es por parte dos 
interessados, a verdade � que milhares de pedidos est�o parados por falha ou 
insufici�ncia de provas.

E quanto � explora��o da Vi�va, lembro que a mesma � HERDEIRA e SUCESSORA do 
Regime Militar com o qual viveu durante 21 anos. E foi a mesma que pagou a 
militares, policiais e alcag�etes de v�rios tamanhos e feitios que depredaram 
minha casa, na rua Raul Pomp�ia, no Posto 6; que tentaram seq�estrar minhas 
filhas menores (13 e 10 anos respectivamente) amea�ando-as de estupro com 
palavr�es, chegando a coloc�-las no carro de um oficial da Marinha (pago pela 
tal Vi�va), seq�estro que n�o se consumou (mas deixou traumas at� hoje) porque 
a diretora do Externato Atl�ntico pediu a identidade dos militares, e n�o sendo 
atendida, anotou a placa do carro - o que obrigou os oficiais a conferenciarem 
entre si e libertarem minhas filhas.

Em busca de regenera��o, a Vi�va, que viveu 21 anos em concubinato com o Regime 
Militar, � a mesma que me deve. Como deve muito mais a centenas de v�timas, 
vivas ou mortas, dos tempos totalit�rios.

---

Luciano Martins Costa responde

Na vertigem do seu ego, Cony mistura legalidade com moralidade. Evidentemente, 
se a lei est� em vigor, qualquer um pode se declarar credor do Estado. Tamb�m 
poderia n�o pedir, como muitos o fizeram, assim como um jornalista pode usar ou 
n�o a carteirinha para entrar de gra�a em museus. Usa se quiser, se julgar 
moralmente correto se beneficiar desse privil�gio, por for�a de circunst�ncia 
ou por conveni�ncia. 

Cony tamb�m mistura a imprensa com a observa��o da imprensa. O que se discute 
no artigo � a atua��o da imprensa - estranhamente, apenas O Estado de S. Paulo 
tem se referido �s distor��es ocorridas na aplica��o da lei da anistia, que 
foram denunciadas por pessoas acima de suspeita no caso em quest�o, como o 
ex-guerrilheiro Jos� Genoino e a professora Anita Leoc�dia Prestes. Tamb�m se 
discute a moralidade, n�o a legalidade de alguns dos pedidos de indeniza��o. � 
a "Vi�va" que lhe deve, alega o escritor. Mas a "Vi�va" somos n�s, e entre n�s 
aquelas outras vi�vas, as que realmente tiveram suas vidas destro�adas pela 
ditadura e que ainda esperam na fila, enquanto o processo do senhor Cony teve a 
prioridade pedida em maio deste ano e a solicita��o aprovada na primeira C�mara 
da Comiss�o da Anistia no m�s seguinte. O n�mero do seu protocolo, 31.858 entre 
cerca de 45 mil, revela que foi passado � frente da fila. Ele alega que est� 
velho e doente, o que tamb�m n�o � ilegal. Quanto ao valor da indeniza��o que 
julga merecer, o diretor jur�dico do Sindicato dos Jornalistas do Rio, Alberto 
Jacob Filho, � quem afirma que "em nenhum momento o sindicato deu parecer 
estabelecendo ou mesmo sugerindo tal sal�rio", assegurando que o valor 
concedido a Cony � absurdo. De resto, se o senhor Cony considera moralmente 
defens�vel que o Tesouro lhe pague essa indeniza��o, � quest�o de foro seu, 
�ntimo, e reveladora do seu car�ter.

---

Fonte: 

  http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=304JDB001

Antecedente: 

   INDENIZA��ES MILION�RIAS 
   Toque nos anistiados intoc�veis 
   por Luciano Martins Costa
   http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=303IMQ001

- c.a.t.
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