Hoje � tardinha, no Real Sucos, meu amigo Celso Japiassu recomendou a leitura. Li e repasso.
--- Queremos viol�ncia - por Arthur Dapieve Os tr�s �ltimos s�bados na vida deste carioca aqui.No dia 20 de novembro, a equipe do guia "Rio Botequim" voltava de uma excurs�o pelos sub�rbios quando trombou com o tradicional tiroteio noturno na Linha Vermelha. No dia 27, a equipe do GNT esperava cessar o tradicional tiroteio matinal na Rua Itapiru para come�ar a gravar o quadro "Sem controle". No dia 4 de dezembro, tr�s amigos moradores do Jardim Bot�nico se queixavam que haviam sido acordados por um intenso tiroteio nas ruas do bairro. Contei-lhes que, l� pelas tr�s da matina, o r�veillon parecia ter sido antecipado em Laranjeiras, onde sou vizinho da Sra. Ros�ngela Matheus e do Batalh�o de Opera��es Especiais (Bope) da PM, tal a quantidade de fogos a saudar a chegada de p� num morro da regi�o, dif�cil dizer se Pereir�o, Vila Alice ou Cerro Cor� na madrugada. N�o tenho mais nenhuma indigna��o, nenhuma palpita��o a lhes relatar. O que me chamou a aten��o nos tr�s ou quatro epis�dios - houve um outro tiroteio, vespertino, na subida para Santa Teresa, coisa banal, ouvida de casa - foi a aguda sensa��o de normalidade. Em mim, nos outros, nos circunstantes. Est�vamos em paz. Na altura da Favela da Mar�, confrontados com o fogo cruzado, os carros e �nibus davam meia-volta, simplesmente, organizadamente, resignadamente, sem p�nico ou buzinas. No desfiladeiro do Rio Comprido, os moradores continuavam a ir �s compras entre as salvas de AR-15. Meus amigos lamentavam mais ter perdido o sono do que a tranq�ilidade. E eu me regozijava de que ainda n�o tinha dormido quando do foguet�rio. Ocorreu-me, ent�o, o seguinte. Tanto os defensores da toler�ncia zero quanto os pregadores da toler�ncia m�xima tratam a viol�ncia como uma disfun��o do sistema. Se sanadas determinadas falhas (falta de policiamento, falta de condi��es dignas de sobreviv�ncia etc.), ela naturalmente desapareceria, este � o seu credo comum. Era o meu. No �ltimo m�s, caiu-me a ficha: a viol�ncia � o sistema ou, ao menos, o seu mais rent�vel produto. Lembrei-me da frase "guerra � paz". Uma das caracter�sticas dos grandes livros � que eles miram no que v�em e (tamb�m) acertam no que n�o v�em. George Orwell tinha em mente os horrores do nazismo e do stalinismo quando, em 1948, escreveu "1984". No processo, explicava a Guerra Fria, a paz armada entre as superpot�ncias nucleares, cada qual com sua �rbita de influ�ncia. Contudo, talvez sem plena consci�ncia disso, Orwell criava um modelo v�lido na interpreta��o de certas situa��es de for�a. Inclusive as do Brasil e, em particular, do Rio. Em "1984", o mundo tem tr�s superpot�ncias: Oceania (Am�ricas, Austr�lia, Inglaterra, �frica do Sul), Eur�sia (Europa e R�ssia) e Lest�sia (China e Jap�o). Numa ou noutra alian�a circunstancial, elas vivem em estado de guerra permanente entre si, apesar de n�o terem mais lan�ado m�o de seus arsenais at�micos depois da guerra de 1950. O her�i do livro � Winston Smith, burocrata subalterno do Minist�rio da Verdade, encarregado de reescrever continuamente os arquivos do jornal londrino "The Times" de modo que o passado n�o desminta o presente. Certo dia, entretanto, ele descobre um livro proscrito: "Teoria e pr�tica do coletivismo olig�rquico", de um certo Emmanuel Goldstein. �s escondidas, Smith l� que, no seu mundo, nada � bem o que parece. Constatado o equil�brio de for�as entre as tr�s superpot�ncias, o �nico objetivo da guerra crudel�ssima entre elas � a pr�pria guerra crudel�ssima, (i)mobilizadora das consci�ncias, com a conseq�ente eterniza��o do status quo das oligarquias de Oceania, Eur�sia e Lest�sia. "A guerra, tornando-se cont�nua, mudou fundamentalmente de car�ter", escreve Golstein/Orwell. "No passado a guerra era, quase por defini��o, algo que mais cedo ou mais tarde chegava ao fim, em geral em inconfund�vel vit�ria ou derrota. (...) A guerra de hoje �, portanto, uma impostura. � como os combates entre certos ruminantes, cujos chifres s�o dispostos em �ngulo tal que n�o podem ferir um ao outro." E aqui estamos quase ao final de 1984 + 20. Nossas Oceania, Eur�sia e Lest�sia atendem por tr�fico, pol�cia e Estado. Os traficantes eternizam seu poder sobre as comunidades n�o s� pela viol�ncia mas como alternativa local � pol�cia e � aus�ncia do Estado. A pol�cia, por sua vez, financia sua necessidade para a sociedade com sua trucul�ncia, com mineiras , venda de armas tomadas de uma fac��o criminosa a outra, vista grossa ao transporte de drogas aos morros, que n�o as produzem, etc. O Estado, entendido como executivos, legislativos e judici�rios, todos no mesmo saco, n�o tem interesse em acabar com tal situa��o, seja valorizando a pol�cia, seja dando � popula��o uma vida decente, porque a guerra � rent�vel politicamente, quando n�o pela liga��o direta com o crime. O Estado ainda quer criar o Minist�rio da Verdade. A viol�ncia, por conseguinte, n�o � uma anomalia do sistema. � seu ganha-p�o. Por isso, de nada adianta a �bvia constata��o de que h� bons PMs ou deputados. Eles s�o neutralizados pela estrutura. Acabar com a carnificina, ent�o, � acabar com este Brasil. Pergunta a ser respondida, cl�ssica nos romances policiais: a quem interessa o crime? H� muita teoria conspirat�ria no que est� escrito acima. Temo, por�m, que s� ela explique por que eu quero paz, tu queres paz, ele quer paz - mas n�s queremos viol�ncia. --- Fonte: http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/dapieve.asp - c.a.t. http://catalisando.com.br ------------------------ Yahoo! Groups Sponsor --------------------~--> $4.98 domain names from Yahoo!. Register anything. http://us.click.yahoo.com/Q7_YsB/neXJAA/yQLSAA/vzIolB/TM --------------------------------------------------------------------~-> �timo dia pra voc�. <*> Para assinar a lista onde se comenta: [EMAIL PROTECTED] <*> Para enviar um coment�rio: [EMAIL PROTECTED] Yahoo! 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