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Atribula��es de um consumidor pedestre - por Carlos Alberto Teixeira

Duas maldi��es me atormentam quando me aventuro a fazer compras a p� pela
cidade, seja no Centro, seja aqui em Copacabana, ou mesmo em alguma viagem a
servi�o, no Brasil ou l� fora. Em geral, sou vitimado quando caminho em
busca de algum badulaque inform�tico, eletr�nico ou tecnol�gico. Ambas
pragas me afetam pelo sentido da vis�o e a primeira tem a ver
especificamente com o fator pre�o. Quando encontro um gadget que me
interessa, dou uma circulada nas redondezas para procurar a oferta mais em
conta. Nada compulsivo, apenas um h�bito antigo de fazer um bom neg�cio. E,
como se sabe, isso leva tempo, ou seja, sair fuxicando de loja em loja ou,
se estiver buscando nos camel�s da vida, s�o l�guas e l�guas de ruas,
pra�as, travessas e ruelas. Naturalmente, as �reas que t�m mais ofertas s�o
os shoppings de inform�tica e os grandes camel�dromos, como o da Rua
Uruguaiana.

Mas chega uma hora que eu canso, volto ao local onde consegui a melhor
pechincha e fecho a compra, feliz da vida. D�-me uma certa sensa��o de dever
cumprido, uma altivez de quem n�o sucumbiu ao atravessador e venceu mais uma
batalha.

Alegria ef�mera, por�m, sentimento tristemente fugaz, pois � justamente a�
que a primeira maldi��o cai estrepitosamente sobre minha cabe�a,
especialmente se estou nas ruas do Centro. Com o produto rec�m-comprado j�
bem junto a mim, esmero-me em seguir meu caminho de volta desviando
cuidadosamente o olhar de vitrines, barraquinhas, quiosques e ambulantes.
Cartazes, galhardetes e an�ncios, tamb�m os evito a todo custo. Sabedor da
sina que me persegue, tento me proteger ao m�ximo da amea�a. Por�m, quase
sempre fracasso, n�o tem jeito. Eis que, numa escorregadela sutil de minha
concentra��o, a vis�o derrapa de forma irrespons�vel e vai cair
invariavelmente numa aterrorizante cena, absolutamente indesejada,
inesperada e num local improv�vel. L� est� ele, lindo, reluzente e sumamente
irritante: aquele mesm�ssimo produto que acabei de comprar sempre em alguma
maldita promo��o super-especial, mais barato do que o pre�o que paguei.

Minha vontade instintiva � chamar uma turma de 40 lutadores de sum�, dar a
cada um deles um bast�o de beisebol e v�-los depredando a loja de maneira
selvagem e impiedosa. Em seguida, jogaria gasolina no estabelecimento,
atearia fogo e me deleitaria ao ver ardendo em chamas n�o s� o vendedor como
tamb�m a vitrine, o produto e a loja inteira do animal. Por que ser� que
isso me acontece sempre? Nunca falha. Meu olhar parece ser meu inimigo,
magneticamente atra�do por aquilo que menos desejaria ver: um pre�o mais em
conta. � como se um dem�nio poderoso pairasse sobre mim, um encosto dotado
de agu�ada vis�o telesc�pica de 360 graus, atento �s ofertas mais vantajosas
e impelindo-me a caminhar precisamente em dire��o a elas nos logradouros
p�blicos, divertindo-se em me fazer sentir um verme derrotado.

E para minha suprema desgra�a, estou agora entrando numa fase ainda mais
doentia, insana invers�o de valores. Depois de comprar algo, j� come�o a
sair vasculhando logo pelas ruas onde � que minha mirada vai novamente me
trair e me fazer ver o que n�o quero.

A segunda maldi��o nada tem a ver com tecnologia, mas � igualmente
perturbadora e sinistra. Trata-se dos terr�veis centros de podologia,
aquelas cl�nicas onde se trata dos p�s e onde se cura joanetes, incha�os,
calosidades, unhas encravadas, abscessos asquerosos e outras deteriora��es
podod�ctilas. J� mapeei em detalhe e execro todas as cl�nicas deste tipo que
existem aqui por perto de casa e muitas das diversas outras espalhadas pela
cidade.

Assim, sempre que conscientemente me aproximo de um desses estabelecimentos,
come�o a elevar minhas preces aos c�us e inicio uma ladainha m�stica, de
modo a me dar for�as para n�o olhar as aberrantes fotos que ilustram as
vitrines dessas cl�nicas.

Se voc� j� viu uma delas, sabe bem do que estamos tratando. S�o de uma
crueldade inimagin�vel, a tal ponto expl�citas que suplantam todo e qualquer
senso de utilidade e bom gosto. Ded�es gorduchos e feiosos supurando,
mindinhos semi-esmagados ou retorcidos, unhas amareladas e pustulentas,
artelhos deformados e com apar�ncia de f�tidos, bolhas intumescidas a ponto
de explodir, carneg�es sebentos e volumosos, em suma, uma apologia � necrose
dos tecidos e �s inflama��es mais horrendas poss�veis.

Minha alma sens�vel n�o suporta a vis�o dessas coisas. No entanto, por
alguma raz�o intang�vel que escapa ao meu controle, alguma circunst�ncia faz
com que eu me distraia de minhas dram�ticas ora��es e, quando estou a poucos
metros da cena t�o indesej�vel, algo faz com que o foco do meu olhar recaia
justamente sobre as detest�veis imagens. Ser� uma n�doa espiritual que
resulta do meu karma?

Acho que vou abrir uma a��o penal junto � Prefeitura proibindo a exibi��o
dessas fotos em vitrines, galerias comerciais, shoppings e vias p�blicas.
Ser� que s� acontece comigo ou ser� que fa�o parte de uma comunidade
numerosa e amaldi�oada que padece em sil�ncio pelas ruas da cidade?

---

Publicado hoje no Inform�tica Etc. - O Globo

http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/cat.asp

- c.a.t.
  http://catalisando.com.br





�timo dia pra voc�.

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