Title: publicado no Estadão: Revolucionando a Agenda Política



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From: Patrícia Andrade
Sent: Wednesday, April 13, 2005 10:37 AM
Subject: publicado no Estadão: Revolucionando a Agenda Política

  

O Estado de S. Paulo, quarta feira, 13 de abril de 2005, pag. A2
 
Revolucionando a agenda política
Patrícia Carlos de Andrade, Eduardo Viola e Héctor Ricardo Leis
Em março, reuniu-se no Rio de Janeiro um grupo de 25 debatedores - intelectuais, economistas, empresários, jornalistas, políticos, membros e exmembros da alta administração federal. Era o lançamento de Instituto de Estudos da Realidade Nacional, com o tema Rumos do Brasil Contemporâneo, focado no conceito de liberdade. Entre as excelentes palestras, a do economista Paulo Guedes chamou a atenção para o fato de que na última eleição tivemos de escolher, para presidente, um entre quatro candidatos com chances - todos estatizantes e imbuídos em graus variáveis do ideário coletivista, originado na esquerda clássica, no populismo ou na direita oligárquica.
Era prova cabal do vazio de idéias num dos lados do espaço público, o liberal, que se tem provado fundamental para a racionalidade do debate eleitoral e a definição de políticas públicas em todos os países desenvolvidos e nos emergentes que avançam consistentemente. Falta-nos corrente político-cultural de direita moderna, que apresente alternativas de avanço para o País na conclusão da transição entre o forte estatismo que sempre caracterizou a sociedade brasileira e a real democracia de mercado, nunca antes experimentada. Movemonos sempre na direção de um senso comum raso que circula da esquerda à centro-esquerda e tem por anos criado fortes obstáculos ao crescimento e à modernização do País.
Os formadores de opinião - partidos políticos, associações
empresariais e profissionais, movimentos sociais, universidades, mídia - não estão, portanto, cumprindo com sua responsabilidade tradicional de estabelecer debate público de qualidade. Ao contrário, alguns atuam para esvaziar o debate, o espaço sendo ocupado pelos marqueteiros de plantão.
Enquanto isso, nos países de
senvolvidos e nos emergentes mais bem-sucedidos, um novo ator tem ganho papel de destaque: o think-tank. Trata-se de centro de pesquisa que reúne acadêmicos, especialistas e operadores políticos de alto padrão para produzir e difundir idéias políticas e para formular políticas públicas, sua promoção e implementação por meio das mais avançadas técnicas de publicidade. A maioria possui identidade política clara, mas geralmente não tem vínculo partidário orgânico, uma característica que o distingue de outros grupos de estudos políticos. Tem sido particularmente importante para as forças políticas liberais e conservadoras, mas tem papel também para as social-democratas e social-cristãs.
Inúmeros artigos publicados nos EUA e na Europa recente
mente mostram que os thinktanks foram fundamentais nas mudanças da agenda política.
Surgiram nos EUA e, a partir da década de 1970, se desen
volveram rapidamente, tendo tido influência decisiva nas eleições de Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho. Seu modelo de sucesso foi importado por vários países, entre os quais Inglaterra, Austrália, Espanha, Holanda, Irlanda, Polônia e Chile - este, não por acaso, o país da América Latina mais desenvolvido econômica e socialmente.
O que permitiu tal fenômeno? As dinâmicas do mundo se fundem de formas muitas vezes paradoxais e contraditórias, dentro das quais o senso comum tende a formar visão simplificadora e, por isso, paralisante. Há momentos da História, no entanto, em que surgem atores - pensadores, grupos políticos, grupos sociais - capazes de destravar o debate e permitir nova compreensão da realidade. Os think-tanks têm cumprido este papel, em nossa época, ao fugir do senso comum e pôr em discussão, de forma clara e qualificada, os processos que impedem o avanço da sociedade. Eles têm sido os atores mais capazes de nutrir as democracias de massas da era de informação com propostas modernas, audaciosas e ao mesmo tempo realistas, e também fator importante de enfraquecimento de políticos populistas e irresponsáveis, acostumados a fazer promessas voluntaristas sem fundamento nas realidades econômicas.
Mas há algo mais que explica a força do think-tank de mu
dar os rumos da sociedade: a visão de longo prazo da classe empresarial e seu comprometimento com o futuro de seu país. Os empresários formam o único grupo capaz de dar o suporte financeiro necessário para a existência de um thinktank. Por meio de apoio às iniciativas do empreendimento, de patrocínio, de encomendas de pesquisas e cursos, de doações diretas, são fundamentais para atrair e manter equipe de profissionais altamente qualificados, apta a produzir debates, artigos, livros, documentos destinados a grupos de influência específicos, com linguagem acessível e atraente e, ao mesmo tempo, calcados em conhecimento sólido da tradição e da modernidade do pensamento ocidental.
IDÉIAS DAS FORÇAS DOMINANTES NO PAÍS NOS CONDENAM À PARALISIA

O Brasil não começou o processo de criação de thinktanks, atraso que poderá representar nosso aprisionamento ao atraso, por meio de ideologias e práticas que já deram reiteradas provas históricas de sua obsolescência. Num momento de redefinição da ordem global e, portanto, de grandes oportunidades para países que saibam analisar a realidade sem preconceitos, o repertório de idéias oferecido pelas forças dominantes no Brasil nos condena, na melhor das hipóteses, à paralisia. Não só não conseguimos organizar tais grupos, como nos mantemos em extrema ignorância sobre as diversas expressões do liberalismo e do conservadorismo moderno que estão revolucionando a agenda política contemporânea. Sem o suporte de analistas qualificados da realidade, reunidos em instituições de pesquisa como os think-tanks, é difícil imaginar como o Brasil se aproximará de modo crítico e realista das alternativas comprovadamente capazes de garantir a liberdade e o crescimento econômico de longo prazo.?


Patrícia Carlos de Andrade é diretora do Instituto de Estudos da Realidade Nacional, Eduardo Viola é professor de Relações Internacionais da UnB e Héctor Ricardo Leis é professor de Sociologia e Política da UFSC
 
 
Uma economia sobre gelo fino
Paul A. Volcker
A expansão dos EUA parece progredir. Talvez falte exuberância à Europa e ao Japão, mas ao menos suas economias estão do lado positivo. China e Índia - que têm quase 40% da população mundial - têm sustentado o crescimento a taxas que não faz muito teriam parecido, se não impossíveis, altamente improváveis.
Sob essa superfície plácida, porém, há tendências perturbadoras: enormes desequilíbrios, riscos -
chamem-nos do que quiserem.
No conjunto, as circunstâncias
me parecem tão perigosas e difíceis de solucionar como algumas de que me lembro, e são muitas.
O que realmente me preocupa é que parece haver pouca disposição ou capacidade para fazer muita coisa a respeito.
Estamos nos EUA absorvidos num debate sobre como manter a Previdência Social - e, mais importante, o Medicare - quando os
baby boomers se aposentarem.
Mas esses baby boomers estão
gastando como se não houvesse amanhã. E, a acreditar nos números, a poupança pessoal nos EUA praticamente sumiu.
NA TRAJETÓRIA ATUAL, OS DÉFICITS E DESEQUILÍBRIOS VÃO AUMENTAR
É certo que as empresas começaram a recompor suas reservas financeiras. Mas em poucos anos o déficit federal vai ser um contrapeso a essa fonte de poupança nacional.
Estamos comprando muitas moradias a preços cada vez mais altos, mas a propriedade de uma casa se tornou tanto um instrumento para tomar empréstimos como uma fonte de segurança financeira. Como nação, estamos consumindo e investindo cerca de 6% mais do que produzimos.
O que mantém esse estado de
coisas é um maciço e crescente fluxo de capital externo, na casa dos US$ 2 bilhões todos os dias úteis. Não há uma sensação de tensão. Como nação, não tomamos nem pedimos emprestado, conscenciosamente. Nem sequer oferecemos taxas de juros atraentes, tampouco temos a oferecer a nossos credores proteção contra o risco de um dólar em queda.
Na maioria parte do tempo, é o capital privado que tem fluido livremente de fora para nosso mer
cado. Num mundo incerto, que melhor lugar para investir senão os EUA? Esse tem sido o refrão.
Ultimamente nos tornamos mais dependentes dos bancos centrais estrangeiros, particularmente da China e do Japão e de outros países do Leste da Ásia. Muito conveniente para nós. Enchemos nossas lojas e garagens de mercadorias estrangeiras e a concorrência tem sido um poderoso freio para nossos preços internos. Isso tem ajudado a manter as taxas de juros excepcionalmente baixas, apesar da nossa parca poupança e do rápido crescimento.
E isso é conveniente para nos
sos parceiros comerciais e para quem está fornecendo capital. Alguns, como a China, dependem fortemente da expansão de de nosso mercado doméstico. E a maioria dos bancos centrais do mundo emergente se mostra disposta a reter cada vez mais dólares, que são, no final das contas, o que de mais próximo de uma moeda internacional o mundo dispõe.
O problema é que esse modelo
aparentemente confortável não pode continuar indefinidamente.
Não sei nenhum país que tenha conseguido consumir e investir 6% mais do que produz por muito tempo. Os EUA absorvem cerca de 80% do fluxo líquido de capital internacional. E, a certa altura, tanto os bancos centrais como as instituições privadas terão dólares suficientes.
Não sei se a mudança virá como uma explosão ou como uma choradeira, nem se cedo ou tarde.
Mas, do jeito que vai, é mais provável que sejam crises financeiras, e não a uma política preventiva, que venham a forçar tal mudança. Não que seja intelectualmente tão difícil criar um cenário para um 'pouso suave' ou crescimento sustentado. Há uma ampla área de concordância entre economistas do establishment sobre um belo quadro bem didático: a Chi
na e outros economias asiáticas continentais devem permitir e incentivar uma substancial valorização do câmbio relativo ao dólar.
Japão e Europa devem agir ime
diata e agressivamente para um estímulo interno e lidar de forma mais eficaz e rápida com obstáculos estruturais ao crescimento. E os EUA, por uma combinação de medidas, devem forçosamente aumentar seu nível de poupança interna, reduzindo sua demanda por importações.
Mas será que podemos hoje, com algum grau de confiança, esperar que qualquer uma dessas políticas seja posta em prática em breve, quanto mais uma combinação de todas? A resposta é não.
Penso que estamos patinando sobre uma camada de gelo cada vez mais fina. Na trajetória atual, os déficits e desequilíbrios vão au
mentar. Em algum momento, a sensação de confiança nos mercados de capitais que hoje tão benevolentemente sustentam o fluxo de recursos para os EUA e para a crescente economia mundial pode acabar. Então, algum acontecimento, ou uma combinação de eventos, pode surgir para tumultuar os mercados, com uma volatilidade danosa tanto nos mercados de câmbio como nas taxas de juros. Tivemos uma prova disso na estagflação dos anos 1970 - um dólar volátil e depreciado, pressões inflacionárias, um súbito aumento nas taxas de juros e duas grandes recessões.
A lição que extraí disso é que há uma alta recompensa em fazer
o que pudermos para reduzir os riscos e assegurar que haja tempo para um ajuste ordenado. Não estou sugerindo nada heterodoxo ou arcaico. O que é preciso é disposição para agir já - e no próximo ano, e no ano seguinte, e agir mesmo quando superficialmente tudo parece tão plácido e favorável.
O que estou dizendo se resume à mais antiga lição de política econômica: um forte senso de disciplina monetária e fiscal. Este não
é o momento para intransigências ideológicas nem posições partidárias relativas ao orçamento à custa de uma elevação ainda maior do déficit. Certamente estaríamos bem melhor se os outros países fizessem a sua parte. Mas a falha deles não nos deve desviar do que podemos fazer em nosso próprio interesse.
Um sábio observador do cená
rio econômico uma vez comentou que 'o que pode ser deixado para depois, em geral, o é - e então é tarde demais'. Não quero que isso fique como o epitáfio do que tem sido um período de sucesso sem paralelo na economia americana e de enorme potencial para o mundo em geral.?


Paul A. Volcker foi presidente do Conselho do Federal Reserve (1979-1987). Este artigo é adaptado de um discurso, em fevereiro, num simpósio econômico patrocinado pelo Stanford Institute for Economic Policy Research


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