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Prazeres duma sexta-feira
Acordar às quatro da manhã por
estar ainda com o fuso horário maluco em virtude de uma recente viagem ao
outro lado do planeta. Aproveitar a longa manhã para pôr o serviço em dia
diante do computador. Tomar um café da manhã absolutamente paliativo,
composto apenas de uns biscoitos de gergelim com manteiga Aviação e um
mini-copo de Nescau. Continuar trabalhando, varando a hora do almoço, só
para aguçar a fome até níveis animalescos. Ir ao Centro pegar uns papéis e
deixar uns CDs. Agüentar a fome até duas e meia da tarde para, só então,
ir se arrastando até o Elias na Evaristo da Veiga, para comer um lindo
prato de kibe cru, homus b'tahine, trouxinha de repolho e arroz de
lentinha com muita cebola frita, tudo coberto por litros de azeite.
Recusar peremptoriamente oferta de bebida e sobremesa feita pelo garçom,
guardando este prazer para depois. Pagar a conta e só bebericar um
cafezinho. Pegar o Metrô até a Tijuca, para entregar um cheque ao pai.
Antes, entrar no Lecadô da Santo Afonso e pedir dois ouriços e um copo de
Coca de máquina, degustando tais maravilhas com a calma de um velho monge
belga. Bater à porta da casa do pai e encontrar mãe e avó para um rápido
papo. Enfiar a mão no bolso da bunda esquerda e perceber que esqueceu a
bosta do talão de cheque em casa, perdendo a viagem, a não ser pelo
aprazível papo batido. Sair pela rua meio zangado rumo ao buraco do Metrô
Saens Peña. Não entrar no buraco habitual da General Roca e sim esticar
até o velho Palheta, onde disseram que abriu uma drogaria Venâncio em cujo
canto ainda há um balcão onde servem café. Comprar a ficha e tomar um
cafezinho como só o Palheta sabe servir, com o requinte de se posicionar
no final do balcão, onde se pode apreciar a mais mimosa coleção de xícaras
antigas da região, o que torna o cafezinho quarenta vezes mais saboroso.
Terminar o café e perceber que a drogaria inteira tem uma excelente
galeria de fotos antigas da Praça, não deixando de apreciar nenhuma delas.
Ao final da viagem no tempo, lembrar-se de que precisa fazer as compras
mensais de remédios, operação que geralmente arranca os olhos da cara.
Fazer um levantamento de preços e descobrir que a Venâncio tem verdadeiras
pechinchas em medicamentos para infartados. Sair da farmácia com o
saquinho cheio de drogas, ciente de que fez uma boa economia. Conseguir
lugar sentado no Metrô. Ficar lendo as bulas dos remédios com o braço mais
esticado possível, já que esqueceu em casa os óculos para vista cansada.
Sentar-se atrás de uma belíssima jovem loura nitidamente acometida de
cabelose aguda, já que da Saens Peña até o Estácio a menina ajeitou os
lindos cabelos exatamente 79 vezes. Chegar em casa e encontrar a pia da
cozinha sem louça suja nem baratas, pois tendo acordado de madrugada,
reservou uns minutos para esta penosa tarefa doméstica.
Bela
sexta-feira. E olha que ainda não são nem sete da noite.
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