NoMínimo - Quarta-feira, 26 de abril de 2006

Petrobras, a mentira - por Guilherme Fiuza
  
Esse é um país que vai pra frente. Pra cima, no caso do astronauta. O 
patriotismo de laboratório nunca esteve tão parecido com o do regime militar. E 
não dá para distinguir se a mórbida semelhança se deve mais ao autoritarismo ou 
ao anacronismo. O certo é que a fortuna gasta no passeio cósmico do bobo alegre 
Marcos Pontes, que tanta reação provocou por aí, é migalha perto do que já 
custou ao país a mentira da Petrobras.

Estão discutindo se Lula está ou não está fazendo uso eleitoral do anúncio da 
auto-suficiência em petróleo. Discussão inevitável, mas imprestável. Qualquer 
presidente faria o que Lula está fazendo, tentaria faturar a tal marca. O que 
não apareceu no debate político – está cada vez mais difícil as coisas que 
realmente interessam aparecerem no debate político – é o quanto o mito da 
potência verde-amarela do petróleo custou ao país.

Talvez nem a ditadura chinesa conseguisse a proeza realizada no Brasil, sem 
muito esforço: transformar a Petrobras em símbolo do nacionalismo. Não pode 
haver nada no país, na esfera pública ou privada, mais anti-nacionalista do que 
a Petrobras. Trata-se de uma empresa que se agigantou ao longo de meio século 
graças a um regime de parasitose explícita e consentida do Estado brasileiro, 
isto é, da nação. O projeto mais obsceno de privatização de recursos públicos 
sob o pretexto do patrimônio coletivo. A Petrobras é do povo, tanto quanto o 
valerioduto – isto é, se o “povo” em questão fizer parte de alguma fração dos 
beneficiários das maravilhosas vantagens corporativas, políticas e particulares 
distribuídas pela estatal.

No ano passado, os brasileiros leram – ou deveriam ter lido – mais uma notícia 
de injeção milionária do Tesouro Nacional (dinheiro sem dono) no fundo de 
pensão da Petrobras, que pela enésima vez estava descoberto. Não tem problema, 
o povo paga. O povo adora a Petrobras, se ufana dela. Assim é fácil ser 
multinacional verde-amarela. A interseção entre o caixa da estatal e o bolso 
dos brasileiros é uma das zonas mais obscuras da economia nacional. Ali rolou e 
rola de tudo. Um levantamento feito na Câmara dos Deputados mostrou que, na 
primeira metade dos anos 90, a Petrobras pagou ao Tesouro menos de um terço dos 
dividendos devidos a ele. Não tem problema: o Tesouro não cobra, o povo muito 
menos.

Repetindo, isso não é nacionalismo nem na China – embora seja um negócio da 
China. A finada conta petróleo, criada para que a estatal pudesse vender 
gasolina ao público abaixo do preço na época dos choques do petróleo, tornou-se 
um dos grandes mistérios da contabilidade governamental. O Tesouro era o grande 
depositante naquela conta, para subsidiar os preços artificialmente baixos da 
empresa. No entanto, a partir de meados dos anos 80 o preço do petróleo passou 
uns 20 anos em rota declinante, mas a Petrobras nunca mais deixava de ser 
credora do Tesouro naquela conta (depois transformada na famigerada PPE, 
Parcela de Preços Específicos). Assim como está para nascer um brasileiro tão 
ético quanto Lula, está para surgir um estudo sério, auditoria ou coisa que o 
valha para demonstrar que dívida crônica e impagável é essa do Brasil com a 
Petrobras.

A “quebra do monopólio” da exploração de petróleo no Brasil, no fim dos anos 
90, era o que faltava para a Petrobras chegar ao paraíso. Para ser competitiva 
no mundo, a estatal passaria agora a alinhar seus preços com os do mercado 
internacional. Quando eles subiram por conta da crise do Iraque, a Petrobras 
foi atrás, com toda leveza. Quando eles baixaram, a Petrobras ficou onde 
estava. Era preciso “proteger-se contra as oscilações”. Foi baixá-los muito 
depois, já tendo feito, evidentemente, formidável “poupança” às custas dos 
bolsos dos brasileiros – esses que se ufanam da Petrobras.

É a maravilhosa multinacional verde-amarela que já destruiu ecossistemas ao 
longo de todo litoral, notadamente em São Sebastião (SP) e Baía de Guanabara 
(RJ), por condutas irresponsáveis no transporte de óleo. A mesma empresa que 
acaba de fazer um dumping descarado no preço do diesel para arrebentar com um 
negócio das concorrentes Shell, Esso e Ipiranga. Esse é o capitalismo praticado 
pela Petrobras, ícone da modernidade no oba-oba da auto-suficiência.

O Brasil do astronauta e da Petrobras é um país que vai pra frente. De uma 
gente amiga e tão contente, de um povo unido, de grande valor. É um país que 
canta, trabalha e se agiganta, é o Brasil do nosso amor. Ame-o ou deixe-o.
 
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Fonte: http://snipurl.com/posh

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- c.a.t.
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