Década de 70, tarde de sábado, cinemas Guanabara e Botafogo. Ingresso a CR$
2,00 com direito a duas sessões: um filme de sacanagem e outro de Kung Fu.
Depois da película de pancadaria, a gente saía do cinema e pulava pra dentro
dos terrenos baldios da região, pra ensaiar os golpes do filme, lutar, rodar
Nunchako e quebrar telha e caixote até ficar com ossos doendo. Ê tempo bom.
--- clip ---
Como o cinema das artes marciais conquistou Hollywood
Tudo aconteceu no espaço de poucos meses: desbancado por David Carradine para
estrelar no seriado "Kung Fu", Bruce Lee retornou a Hong-Kong, onde fez três
obras-primas do gênero, até retornar aos EUA para se consagrar em definitivo em
"Operação Dragão" (1973)
Houve um tempo, hoje longínquo, em que as salas de bairro independentes dos
grandes circuitos de distribuição, verdadeiras naves antediluvianas, ao mesmo
tempo majestosas e imundas, apresentavam dois filmes pelo preço de um, os quais
eram filmes de séries B, produções de orçamento reduzido. Em certos casos elas
haviam se especializado num gênero específico, em função dos entusiasmos do
público, formando um mercado paralelo, proteiforme, rico em surpresas de todos
os tipos.
Houve o erotismo, os filmes retraçando episódios da antiguidade, os de terror,
o faroeste ítalo-espanhol e, do início dos anos 70 até meados dos 80, os filmes
de artes marciais asiáticos, filmes de sabre ("wu xia pian") ou de kung-fu. A
crítica demorou muito para se interessar a esses últimos e os designava então
sob o vocábulo falacioso e desdenhoso de filmes-caratê, enquanto um público que
fazia pouco caso dessas avaliações estéticas se precipitava regularmente para
saborear as façanhas de estrelas asiáticas das quais ele ignorava até mesmo o
nome, salvo algumas exceções notáveis.
Hoje, o cinema de artes marciais é reconhecido pela sua importância histórica e
as suas qualidades intrínsecas, tanto no plano artístico como no do
entretenimento. Alguns universitários um pouco mais audaciosos do que os outros
deles fizeram o terreno de uma nova forma de análise estética, construída em
torno das figuras e da energia dos corpos em ação. Freqüentes e variadas
reedições em DVD dos clássicos do gênero revezam-se para devolver-lhe uma
atualidade perpétua.
Mas, a idéia em si das artes marciais como prática e como filosofia, se é que
se pode dizer isso delas, acabou se impondo. Este cinema transformou
mundialmente as seqüências de combates sem armas a não ser o corpo, e a maneira
como estas são objetos de uma estrita coreografia em obras que não pertencem ao
gênero. Ele impregnou assim inúmeras produções de Hollywood.
Como um cinema que foi criado longe de Hollywood conseguiu tornar-se
universalmente popular? Um cinéfilo e cineasta, Christophe Gans, que realizou
filmes tais como o "O Pacto dos Lobos" (2001) e "Terror em Silent Hill" (2006),
faz parte daqueles que se apoderaram das figuras do gênero para transpô-las num
outro contexto.
Para ele, "Hollywood interessou-se forçosamente por um imenso público
apreciador de cultura popular, de música, de séries B [daquilo que foi chamado
na França de 'cinema bis'], de histórias em quadrinhos. Existe principalmente
um forte vínculo entre o cinema de 'blaxploitation' [filmes com heróis negros
destinados à comunidade negra americana] e o cinema de kung-fu. É o público das
minorias, integradas ou não por imigrantes, do monde inteiro que se reconhece
no cinema chinês de artes marciais e com ele se identifica, diferenciando-se
com isso de uma maioria branca. Nisso, existe ao mesmo tempo uma revanche de
uma cultura popular e uma recuperação desta última pela indústria, que o
sufocará sem muito amor".
Tudo aconteceu no espaço de poucos meses. A descoberta no Ocidente do cinema de
kung-fu não se fez em função da audácia de distribuidores independentes (mesmo
se este foi o caso de "Du sang chez les taoïstes" ("Sangue entre os taoístas"),
um dos primeiros filmes de sabre chineses a serem distribuídos em Paris, em
1971, por intermédio de uma pequena companhia). Em 1973, as filiais francesas
de dois grandes estúdios de Hollywood se distinguem pelo seu faro: a Warner
distribui na França "A Mão de Ferro de Shaolin", de Chung Chang-wa, enquanto a
United Artists lança "A Raiva do Tigre", de Chang Cheh, dois modelos do gênero
produzidos pela companhia Shaw Brothers, baseada em Hong-Kong.
O sucesso que eles obtiveram engendrou a invasão irresistível dos telões das
salas de bairro por produções asiáticas, majoritariamente de Hong-Kong, mesmo
se no meio deles podiam ser encontrados filmes taiwaneses, japoneses, filipinos
ou coreanos na verdadeira avalanche que se seguiria. O carateca japonês Sonny
Chiba, menos conhecido na França do que nos Estados Unidos, faz um
sucesso-monstro junto ao público negro americano.
É impossível compreender esta popularidade se não evocarmos a figura lendária
de Bruce Lee (1940-1973). Após ter sido um ator-criança nos estúdios de
Hong-Kong, Bruce Lee partiu para se instalar nos Estados Unidos em 1957 com a
esperança de seguir carreira no cinema. Ele ensina o jeet kun do, uma variedade
de kung-fu depurada da qual ele é o criador, a atores tais como Steve McQueen
ou James Coburn. Ele aparece em alguns filmes ("Detetive Marlowe em Ação", de
Paul Bogart, 1969), atua num papel de coadjuvante numa novela televisiva
("Besouro Verde") e fica aguardando um estrelato que não se concretiza.
O sucesso do cinema de artes marciais dá aos dirigentes da Warner Television a
idéia de criar uma série televisiva, "Kung-fu". Para encarnar o herói, os
produtores preferem David Carradine a Bruce Lee. Este último retorna a
Hong-Kong, onde ele contratado pelo produtor e realizador Raymond Chow para
atuar em três filmes sucessivamente, "The Big Boss" ("O Dragão Chinês", 1971),
"Fist of Fury" ("A Fúria de Dragão", 1971) e "Way of The Dragon" ("O Vôo do
Dragão", 1972), que serão descobertos pelo público francês graças ao
distribuidor René Chateau. Desta vez, o sucesso de bilheteria é irresistível e
a glória segue na esteira. Bruce Lee torna-se um ícone. O seu gestual
incrivelmente erótico combina harmonia, brutalidade e eficácia. A América exige
o seu retorno.
"Operação Dragão" (1973), produzido pela Warner, realizado par Robert Clouse,
será o filme da consagração suprema, da integração por Hollywood do cinema de
artes marciais. Uma estranha criação um pouco híbrida, na qual as convenções
coreográficas do kung-fu se misturam com diversas peripécias novelescas que
evocam os filmes de James Bond, "Operação Dragão" é uma síntese hábil: nele, o
herói chinês (Bruce Lee) contracena com um carateca branco (John Saxon) e outro
negro (a estrela do gênero "blaxploitation" Jim Kelly). A morte prematura de
Lee, em 20 de julho de 1973, faz dele uma lenda.
Na segunda parte dos anos 70 e durante os 80, enquanto a produção de filmes em
Hong-Kong atinge seus auge, que se afirmam cineastas e coreógrafos tais como
Chang Cheh ou Liu Chia Liang, que John Woo estréia nos telões, assiste-se nos
Estados Unidos à revanche dos "branquelos": Chuck Norris (adversário de Bruce
Lee em "A Fúria do Dragão"), Jean-Claude Van Damme e em seguida Steven Seagal,
daqui para frente fazem reinar a ordem em produções que despontam como
sucessivas tentativas de réplica, porém fraquinhas diante da força do cinema
chinês.
As invenções coreográficas das artes marciais vão permanecer, exportar-se em
produções de ação bancadas por Hollywood onde, daqui para frente, ninguém
imaginaria uma pancadaria que não seja estilizada. "Da mesma forma que não se
pode mais filmar um carro da mesma maneira depois de "Mad Max", não se pode
mais filmar cenas de briga como se fazia antes de Bruce Lee", afirma Christophe
Gans. Diversos produtores tais como Joel Silver, um aficionado de filmes de
artes marciais, impõem esta nova maneira de lutar. "Máquina Mortífera 2", com
Mel Gibson, em 1988, se conclui com um brutal combate com socos e pontapés
influenciado pelo cinema de artes marciais. Assim, não é surpresa ver o
ator-cineasta americano contratar o ator Jet Li para "Máquina Mortífera 4".
É então que se inicia a época das transferências e das criações híbridas. Os
atores Jackie Chan ou Jet Li fazem filmes em Hollywood. A atriz Michelle Yeoh
atua num dos papéis principais de um filme de James Bond, "Amanhã Nunca Morre",
em 1997. A série dos "Matrix", dos irmãos Wachowski, uma mistura de ficção
científica, histórias em quadrinhos, videogames e artes marciais, beneficia do
auxílio do coreógrafo e cineasta Yuen Woo-ping. Na França, Christophe Gans
introduz o kung-fu na França do século 18 com "O Pacto dos Lobos", no qual se
destaca um personagem de índio encarnado por Mark Da Cascos, estrela de
numerosas séries B de ação nos Estados Unidos.
Daqui para frente, a imagem das artes marciais no cinema parece ter evoluído em
diversas direções. Pode-se dizer que haveria algo parecido com um hipotético
retorno a uma pureza original, o qual se traduz por obras "cartões-postais",
objetos exóticos para turistas que não escondem sua vocação a uma difusão
mundial. Entre estes, estão "O Tigre e O Dragão", de Ang Lee, um sucesso
produzido em 2000 pela Columbia, ou os filmes de Zhang Yimou, tais como "Herói"
(2002) ou "O Clã das Adagas Voadoras" (2004). Com "Kill Bill", em 2004, Quentin
Tarantino, um grande aficionado de séries B asiáticas, presta sua homenagem a
esse cinema, acrescentando vinhetas pop, descoladas da sua história e
apresentadas dentro de uma preocupação ora de afeição, ora de irrisão,
alternadamente.
No momento em que o que restou de mais interessante no cinema de Hong-Kong,
principalmente os filmes de Johnny To, parece optar por um realismo muito
diferente das tendências do cinema de kung-fu da idade de ouro, a evolução dos
efeitos especiais em Hollywood, daqui para frente, parece decretar o fim de um
certo espírito das artes marciais no cinema.
Será que houve mesmo uma pureza de origem do cinema de kung-fu que teria se
perdido? Esta idéia é rejeitada muito acertadamente por Christophe Gans. "'A
Raiva do Tigre' e 'A Mão de Ferro de Shaolin', dois títulos essenciais da idade
de ouro, foram realizados por cineastas que haviam assistido aos filmes de
faroeste italianos, dos quais eles copiavam muitas idéias", diz.
Por sinal, todos se lembrarão que os primeiros faroestes de Sergio Leone eram
abertamente influenciados pelos filmes de sabre de Akira Kurosawa. O qual
confessava na sua época, sua admiração pelo cinema de John Ford. Eterna
reciclagem.
Por Jean-François Rauger - Le Monde
---
Fonte: http://www.spoiler.blogger.com.br/
--- clip ---
--
- c.a.t.
http://catalisando.com
Ótimo dia pra você.
<*> Para assinar a lista onde se comenta:
[EMAIL PROTECTED]
<*> Para enviar um comentário:
[email protected]
Yahoo! Groups Links
<*> To visit your group on the web, go to:
http://groups.yahoo.com/group/goldenlist/
<*> To unsubscribe from this group, send an email to:
[EMAIL PROTECTED]
<*> Your use of Yahoo! Groups is subject to:
http://docs.yahoo.com/info/terms/