Prezados Senhores da FBG: Remexendo em textos antigos num disquete velho, encontrei esta obra-prima...
REVISTA BRASILEIRA DE MEDICINA - Vol. X - Junho de 1953 - nº 5 O VASO SANITÁRIO E O SEU VALOR NO DIAGNÓSTICO DAS AFECÇõES DO TUBO DIGESTIVO, INCLUSIVE DO PÂNCREAS. ANTÔNIO DA SILVA MELLO -- Rio de Janeiro O presente trabalho, escrito especialmente para o Terceiro Congresso Pan-americano de Gastroenterologia, reunido na Cidade do México em Maio de 1952, pareceu aos colegas que formavam a Delegação brasileira tão irreverente e tão susceptível de desairosas interpretações, que o autor, por sua solicitação, resolveu retirá-lo do temário, deixando de submetê-lo à apreciação do Congresso. É sabido que o mecanismo do ridículo e do grotesco pode decorrer de situações contraditórias, opostas, inesperadas. Um homem pequenino ao lado de uma mulher grandalhona, em geral, é quadro que desperta sorrisos. Falar de vaso sanitário diante da austeridade de um Congresso cientifico poderia parecer, na verdade, esdrúxulo ou mesmo afrontoso, caso não se tratasse de um velho médico, dedicado ao trabalho clínico, zeloso da sua ciência, muito reverente à dignidade dos seus colegas. Se ele resolveu tratar da questão é porque a julgou transcendente, de tal importância do ponto de vista pratico, tão grave e respeitável, que achou necessário trazê-la à magnitude de um Plenário Internacional, não só para chamar sobre ela a atenção, senão também para solicitar o auxilio dos colegas para a solução de problema que considera dos mais sérios que poderíamos enfrentar. Antes de tudo, o autor deve declarar que vaso sanitário, que se encontra em uso no Brasil e em todos os outros paises por ele visitados, inclusive os Estados Unidos, está tecnicamente errado, não correspondendo nem às necessidades medicas e higiênicas que devem ser dele exigidas, nem às condições de conforto que poderia oferecer. Refere-se ao vaso comum que, depois da descarga, obtida por mecanismo hidráulico de fácil manejo e grande eficiência, deixa no fundo uma camada de água, sobre a qual cairão as dejeções do próximo visitante. Primeiramente, deve perguntar: quais as vantagens, a razão de ser dessa privada que faz logo desaparecer as fezes na massa líquida e que se tornou de uso generalizado, mesmo legalmente obrigatório? É o que ele tem indagado de higienistas, cujas razões nunca lhe pareceram suficientemente justas ou convincentes. Ele próprio, fazendo investigações, chegou a conclusões desfavoráveis, isto é, que esse tipo é condenável, mesmo segundo os preceitos da higiene. O que se pode verificar, desde logo, é que essa privada está centrada de tal modo, que a superfície da água fica verticalmente sob o centro das nádegas. A conseqüência dessa disposição é que as matérias fecais, caindo sobre a camada d'água, sobretudo quando sólidas e pesadas, respingam o posterior do operador, dando-lhe por vezes verdadeiros banhos. Isso não é de admirar, dadas as leis da balística, mas, de regra, ninguém toma precauções contra tal emergência, como posso concluir de um inquérito feito entre médicos e estudantes, num dos meus cursos. Distribuí fichas com perguntas, que deviam ser respondidas apenas com um sinal, a fim de evitar a identificação dos autores. Seria a maneira de obter respostas sinceras, objetivas, independentes de inibições pessoais. Os resultados mostraram que quase todos evacuavam sentando-se comodamente na tábua da latrina, sem qualquer precaução. Alguns colocavam papel de privada em torno para forrá-la, e raros algumas folhas sobre a água para evitar respingamentos. Mesmo isso, contudo, raramente garante contra borrifos nas nádegas, borrifos que podem conter germes e imundices do ocupante anterior, o que higienicamente constitui um grave erro. Antigamente, existiu uma privada de fundo chato, chamada fundo de prato, que desapareceu do mercado, sendo até proibida no Brasil pelas posturas sanitárias. É provável que esse vaso, de fabricação inglesa, seja conhecido de alguns médicos, sobretudo os menos jovens. A particularidade principal era de a defecação ser feita como sobre um prato, ficando ai depositada à vista do fabricante, talvez para o seu prazer e a sua bem-aventurança, quando não para o seu desespero ou a sua decepção. Em todo o caso, ele se dava conta do que fazia, via como trabalhavam as suas entranhas, o que sobrava do que havia ingerido, o resto daquilo que lhe garantia a vida e a saúde. O mais importante, porém, é que há geralmente grande interesse em torno desse produto, como muito bem sabem os gastroenterologistas, embora nem sempre lhe dando a atenção que merece. Talvez, por uma questão de hábito ou tendência psicológica, que só ganham em ser cultivados. Eu confesso que tenho satisfação em conversar sobre o assunto com o doente, porque, assim, tenho obtido informações de valor não só quanto ao diagnóstico e a orientação terapêutica, senão também ao melhor conhecimento psicológico do individuo. O tema é esplêndido para se tatear a sua sensibilidade, e mesmo, não raro, para captar-se a sua confiança. Na prática, é fácil observar que muitos têm particular interesse pela questão, tratando da defecação e dos excrementos com desvelo muito especial. O principal, todavia, é que isso pode redundar em dados de grande significação diagnóstica, por vezes passados despercebidos à argúcia do clínico e mesmo a rigorosos exames de laboratório. Hoje, estamos habituados com uma rotina cientifica por demais complexa e instrumentada, que mal deixa lugar para observações simples, banais, dessas que o médico prático, sobretudo de tempos passados, estava habituado a aproveitar. Encontram-se nesse caso a inspeção das fezes e indagações sobre a defecação. Eu tenho diagnosticado muitos casos de úlcera péptica graças a uma melena anamnesticamente bem investigada, mesmo quando exames rigorosos não puderam conduzir a tal conclusão. O valor dessa informação seria infinitamente maior, caso pudesse ser fornecida por doentes que observassem as suas fezes, em todas as defecações. O mesmo aconteceria em relação à presença de sangue, catarro, pus, vermes e restos alimentares, capazes de levar a grandes aproximações diagnósticas. O câncer das porções terminais do grosso intestino poderia ser suspeitado ou mesmo diagnosticado precocemente, graças a dados dessa mesma natureza. Também o pâncreas, tema escolhido para o III Congresso Pan-americano de Gastroenterologia, poderia lucrar imensamente com o vaso fundo de prato, graças ao qual tenho conseguido estabelecer diagnósticos de afecções desse órgão, por vezes em casos inacessíveis aos recursos de laboratório. Todos sabemos que, em determinadas afecções pancreáticas, há insuficiência dos seus fermentos no intestino, o que torna a digestão incompleta, dai resultando aumento de volume das fezes. Quando há suspeita de distúrbios desse gênero, deve o médico atentar para essa particularidade, fazendo o doente evacuar em comadre ou urinol. É complexo, desagradável, mesmo anticientifico, sobretudo havendo a privada de prato, que resolve de maneira muito simples tais dificuldades. Alias, não é raro ver o doente, cheio de espanto, vir anunciar que a defecação no urinol foi grande ou enorme, por vezes parecendo maior que a quantidade de alimentos ingeridos! Pelo uso da privada fundo de prato, informações desse gênero são dadas espontaneamente, pois a observação é facílima para o próprio doente. Isso tem tanto mais importância, quanto, em outros casos, pode a argúcia do médico ser frustrada pelos próprios exames de laboratório, que, executados numa fase de melhor equilíbrio funcional ou numa pequena quantidade de fezes, não deixarão perceber o distúrbio existente. Isso já tem acontecido na minha própria clientela, em casos que acabaram sendo diagnosticados de neoplasia, de litíase pancreática ou pancreatite crônica, mas nos quais os exames de fezes, trazidos pelo consulente, pareciam excluir tais possibilidades, indicando ausência de infecção e boa digestibilidade dos alimentos. O exame de fermentos nas fezes, na urina e no sangue também nada precisa revelar, sobretudo quando realizados em momentos favoráveis, quando a função ainda se está operando de maneira suficiente. Alem disso, tanto a litíase quanto a pancreatite podem apresentar surtos agudos, acompanhados de sofrimentos mais intensos, quer de dores e perturbações digestivas, quer reações febris, mesmo violentas. Nessas condições, a secreção externa do pâncreas pode ser prejudicada, isto é, diminuída pelo mecanismo produtor da própria crise. A vesícula biliar toma freqüentemente parte nesses distúrbios e, não raro, é do lado dela que é feito o diagnóstico. O principal, porém, é que a função externa do pâncreas pode sofrer acentuadas alterações nesses surtos, embora, por vezes, apenas de maneira transitória. Sendo assim, pode o doente, nesses períodos, ter evacuações volumosas, caracteristicamente volumosas, não raro impressionantes pela quantidade de fezes eliminadas, nas quais o exame macro ou microscópico revelara a insuficiência digestiva. A sintomatologia clinica, sobretudo quanto às dores e a febre, pode ser obscura, de difícil interpretação, mas esclarecer-se por essa alteração do volume e do aspecto das fezes durante as crises. Se essa particularidade pode ser precisada por exames de laboratório pedidos pelo médico, não há duvida que isso exige muito mais argúcia e desembaraço da sua parte, ao passo que resultados idênticos poderão ser obtidos pela inspeção das fezes, tão facilitada pela privada fundo de prato. É evidente que o volume dos excrementos depende essencialmente da sua composição, antes de tudo do seu teor aquoso. As evacuações moles, pastosas e liquidas são sempre mais abundantes, podendo ser condicionadas por várias doenças do aparelho digestivo, mormente do estômago e ainda mais do intestino, sem contar as do sistema biliar e do pâncreas. É um problema de diagnóstico diferencial, cuja solução pode ser extraordinariamente facilitada pela simples inspeção das fezes, principalmente levando em conta o total da defecação. O seu aspecto gorduroso, ao lado do aumento de volume e o próprio cheiro podem fazer suspeitar lesões pancreáticas. Ao lado disso, pode a abundância de resíduos alimentares, mesmo de fibras e conglomerados musculares estriados, correr por conta de uma travessia rápida do intestino, motivada por processos disenteriformes ou diarréicos, por vezes puramente nervosos. Nessas condições, o exame das fezes, principalmente o microscópico, pode conduzir a erros graves, caso não seja dada atenção à parte macroscópica, à simples inspeção, que pode ser feita repetidamente, mesmo seguidamente pelo emprego do vaso fundo de prato. São dados que se engrenam e completam, podendo qualquer visão parcial conduzir a faltas das mais grosseiras. Por outro lado, mesmo lesões graves e extensas do pâncreas não precisam ser necessariamente acompanhadas de grandes alterações dos excrementos, desde que os mecanismos compensadores da digestão possam remediar a insuficiência ou a própria função do órgão ainda bastar às exigências que deve preencher. De qualquer forma, tanto o exame de laboratório positivo quanto o negativo necessitam ser considerados no conjunto do quadro clínico, talvez devendo ser repetidos diversas vezes antes de se chegar a conclusões diagnósticas definitivas. De regra, não é no período de crise, quando o doente esta acamado, que são realizados esses exames, sim, mais comumente, depois de passado o temporal, no período de acalmia. Se os fatos se processam dessa maneira na prática, compreende-se que a privada fundo de prato possa constituir instrumento de alto valor diagnóstico nas afecções pancreáticas, assim como a icterícia da conjuntiva ocular, passageira e pouco acentuada, o melhor sintoma para o diagnóstico de crises hepáticas ou vesiculares, por vezes da mais difícil interpretação. Casos dessa natureza podem ser surpreendidos e mesmo diagnosticados pelos sintomas em questão, isto é, aumento de volume e aspecto particular das fezes em doenças do pâncreas, assim como presença de icterícia conjuntival nas do fígado e vias biliares. Mas, é preciso procurar esses sintomas, então quase patognomônicos, no momento certo, quando desencadeados pela crise biliar ou pancreática, não raro associadas, derivando-se em geral a ultima da primeira. A icterícia da conjuntiva precisa ser verificada a luz do dia, de janela aberta, fazendo o doente olhar para os lados, porque, de outra maneira, poderá escapar, mormente pelo fato de não ser visível à luz artificial, por si mesma muito rica no tom amarelo. Esse exame, tão fácil é mais importante que complexas provas hepáticas, pode resolver, quase imediatamente, difíceis situações diagnosticas, adiantando-se a provas mais difíceis e complicadas. Não é isso, entretanto, que acontece habitualmente na prática, pois tais exames são comumente deixados de lado, como posso falar pela minha experiência de velho clínico. Também do lado de aumento de volume das fezes, em crises pancreáticas, quer de pancreatite, de tumores ou de litíase, repete-se fenômeno idêntico, precisando ser o sintoma investigado no momento adequado, em função da crise. Quero lembrar que simples manipulações do pâncreas podem suprimir a sua secreção externa por espaço de tempo mais ou menos prolongado, como sabemos desde velhas experiências de Pavlov, em animais. Quando as crises pancreáticas se repetem, pode o doente emagrecer enormemente, devido à falta de aproveitamento dos alimentos, em grande parte perdidos pelas fezes. Tenho visto casos dessa natureza, em que foi admitida a presença de uma neoplasia, impossível de ser localizada, devido justamente a ausência de outros sintomas esclarecedores e, principalmente, à diminuição de peso, por vezes enorme, mas que não foi relacionada ao aumento de volume das evacuações produzido pela perda de alimentos. O laboratório, em vez de resolver a questão, pode obscurecê-la, caso os exames sejam dados como normais, o que não é raro acontecer, até afastando outras investigações. Alias, os exames de laboratório não apanham senão fragmentos do grande espetáculo e deixam de ter valor caso não sejam executados com a técnica necessária. Se, nas crises agudas, a amilase, a lípase e a glicose encontram-se aumentadas no soro sanguíneo, pode a sua quantidade conservar-se normal ou decrescer dentro de pouco tempo, embora fale a sua diminuição contra um processo pancreático. A febre, a taquicardia, a hiperleucocitose são comuns em todas as afecções que entram ai em linha de conta, sendo a sua diferenciação clínica por vezes extremamente difícil. Sabidamente, a localização da dor, do lado esquerdo do epigástrico, talvez indo ao dorso, e dos sintomas mais característicos, daqueles que mais devem despertar a atenção para o pâncreas. Uma chapa do abdome, nos casos agudos, deve ser sempre feita, podendo não raro logo esclarecer a situação. No caso da litíase, pela presença de cálculos; no de pancreatite aguda, por um sombreado traduzindo aumento de volume do órgão. A presença de pneumoperitônio poderá revelar perfuração péptica ou de outra natureza, assim como a existência de níveis líquidos processos de obstrução intestinal, achados ambos do maior valor, mormente havendo suspeita de pancreatite. De qualquer forma, a latrina fundo de prato pode figurar nesse conjunto como um excelente instrumento diagnóstico, quando muito substituível pelo urinol ou a "comadre", ainda mais incômoda e antipática. As dejeções são por vezes características, tanto pelo volume e a repetição das exonerações, quanto pelo aspecto e a consistência das fezes, que se apresentam pastosas, visguentas, de cor amarelo-acinzentada, não raro muito fétidas, mas sobretudo gordurosas, até deixando flutuar gotas de gordura na água do vaso. Isto acontece com maior evidência, caso o paciente use gordura hidratada, cuja digestão necessita a intervenção do suco pancreático. É o que mostrou Rudolf Ehrmann que recomendou o emprego de palmin, uma gordura de coco, como excelente recurso para o estudo da secreção externa do pâncreas. Aliás, fora das possibilidades mencionadas, pode o panorama fecal, fornecido pela visibilidade das dejeções, levar ao diagnóstico, ou à exclusão de outras perturbações digestivas, principalmente do lado intestinal. Dores à esquerda do epigástrio e no hipocôndrio esquerdo, pista tão seguida para o diagnóstico das afecções pancreáticas, são freqüentemente de origem intestinal, mais comumente da flexura esplênica. Os processos do cólon podem produzir retenção de gases e mesmo de fezes na flexura esplênica e na parte esquerda do transverso, condicionando dores espontâneas, quando não só a palpação. Então, não é raro pensar o médico no pâncreas, cuja posição anatômica coincide com a sede das dores. Mas, bem nessas condições, pode o panorama das fezes resolver a questão em favor do cólon e não do pâncreas, ou vice-versa. A crise pancreática caracteriza-se pelo volume e o aspecto das fezes, capazes de impressionar o próprio doente, caso consiga observá-las. Se a crise é do intestino, manifestar-se-á por diarréia, puxos, tenesmo, catarro ou sangue nas fezes, quando não por evacuações fragmentadas, prisão de ventre, retenção de gases, afinal cena de caráter intestinal, que o doente talvez não refira, nem o médico se lembre de indagar, mas que aparecer com maior evidencia, caso o doente e o médico procurem dar-se conta do acontecimento, observando-o diretamente, se possível diariamente. Não é por outra razão que, recebendo chamado para ver doente a domicílio, indago do quadro clínico pelo telefone e, nos casos apropriados, logo ordeno que a evacuação seja feita em urinol e o produto guardado para o especialista observar. É melhor, mais garantido, mais elucidativo que a maioria dos exames de laboratório, que devem apenas completar o que o médico já viu macroscopicamente. É evidente que o exame de fezes, a rectossigmoidoscopia, os raios X e diversos outros recursos diagnósticos poderão nos levar a conclusões mais precisas, por vezes só alcançáveis pelo seu emprego. Mas, mesmo assim, constitui a observação das fezes magnífica fonte de informações, da qual pode o médico tirar imenso proveito. Eu falo como velho clínico, às mãos do qual vêm não somente grandes e graves doentes, senão ainda, com maior freqüência, o enorme grupo dos neuróticos e outros que procuram o médico por sofrimentos menos importantes, que não justificam, logo de saída, muitos exames, em geral também por eles recusados. Uma informação sobre a defecação e o aspecto das fezes pode ter, nessas condições, valor incomensurável, capaz de sobrepor-se aos exames rotineiros de laboratório e à perspicácia do clínico. Tenho a convicção de que muitos colegas, sobretudo os menos jovens, deverão corroborar esse ponto de vista, tão banal que outros o poderão considerar um tremendo truísmo, talvez indigno de figurar numa reunião de tão elevado cunho cientifico. Não faz mal! As realidades da prática é que devem decidir e é nesse sentido que venho encarecer o valor do vaso fundo de prato, cujas vantagens são imensas. O que é preciso, em todo o caso, é que nos libertemos de preciosismos, que ainda hoje estão impregnando a Medicina, quando, em outros setores culturais, na pintura, na escultura e, não por ultimo, na literatura, desde o advento do naturalismo aos exageros do existencialismo, já foram parcialmente vencidos. Também nós, principalmente nós, os médicos, precisamos fazer a nossa reação e dizer as coisas como elas são. Isso é tanto mais necessário, quanto, por trás da nossa cortesia, da nossa distinção, da nossa hipocrisia, escondem-se freqüentemente complexos e recalcamentos, que podem ser prejudiciais, tanto ao progresso da ciência, quanto ao conforto e a felicidade do ser humano. Hoje, estamos por demais habituados com o laboratório, com a beleza dos seus balões, das suas placas, dos seus provetes, com a elegância e a precisão das reações químicas, com o microscópio e os numerosos aparelhos usados na investigação diagnóstica. A latrina é um objeto caseiro, burguês, de uso obrigatório, que apenas serve para receber dejeções mal odorosas vindas do interior do corpo e que devem ser logo arrastadas pelo impetuoso jato de água lançado pela descarga. É verdade, contudo, que também isso representa um dos grandes progressos do mundo moderno, que transformou o quarto de banho em um dos lugares mais asseados da habitação, luzidio, de cores artísticas, bom arejamento, abundância de água, garantindo o perfeito funcionamento de vários aparelhos dedicados à limpeza corporal. Que se compare tal situação com a de um século passado e ver-se-á a profunda modificação que sofreu a higiene pessoal em tão curto espaço de tempo. Mesmo os palácios e os castelos de então possuíam instalações sanitárias inferiores às existentes atualmente em casas das mais modestas. Lembro-me de privadas que tive ocasião de ver na Europa, sobretudo em Paris, no centro de andares, dando para corredores, empestando o ambiente, sem janelas para o exterior. O cheiro de fezes constituiu, por assim dizer, condição obrigatória da existência, sobretudo nas cidades, em época ainda pouco longínqua. Provavelmente, pela participação de fatores místicos e religiosos, quando o corpo e mormente o sexo caíram sob severas proibições. tornaram-se território defenso, fonte de pecados e malefícios. Órgãos pudendos eram os do sexo, que precisavam andar escondidos, não merecendo nem muito trato nem muita limpeza. Foi o protestantismo que veio quebrar muitos desses tabus, servindo-se dos grandes progressos alcançados pela técnica. O banho generalizou-se, o esporte e o exercício físico tiveram mais aceitação, o sol e a água entraram nos hábitos da população, tornando-se o corpo humano objeto de mais trato e asseio, como nos tempos da velha Grécia. Que se compare a indumentária, principalmente de freiras e sacerdotes, com o nudismo atual, das praias e recepções! Mas, mesmo assim, não houve libertação completa daquele velho complexo religioso preso ao sexo e aos seus órgãos. É o que se pode concluir dessa preocupação excessiva dada à limpeza e ao asseio, justamente tão evidente no atual quarto de banho, a parte mais limpa do domicílio, não raro perfumada, de odores higiênicos, agradáveis, que não deixam perceber o cheiro de fezes. Que dizer, porém, da latrina comum, com aquele depósito de água que respinga as nádegas do visitante, impedindo-o de observar o produto da sua digestão? É um dos melhores exemplos para mostrar quanto andamos ainda errados, quanto somos vitimas de complexos recalcados. Acredito que o inventor do vaso fundo de prato deva ter sido um indivíduo de bom senso, provavelmente um inglês de boa têmpera, sadio, livre de inibições, que dava às coisas o seu valor real, sincero, objetivo, se é que também não foi joguete de recalcamentos, traduzidos pelo interesse em observar as próprias fezes, talvez um ato de verdadeira coprofilia. Aliás, em tudo isso, a motivação capital e quase sempre de puro sentimento, mesmo quando evitamos falar da questão ou disfarçamo-la sob termos técnicos, asseados, embora em torno dela se desenvolva o nosso maior interesse. Que cada um seja sincero, suficientemente sincero, procurando não esconder o interesse que tem pela própria defecação! É uma história espantosa, parecida com a do onanismo, que a psicanálise já conseguiu esclarecer. Ninguém pode escapar à sua ação, embora todos, sistematicamente, na maior das hipocrisias, finjam-se poupados pelo vicio, talvez acreditando que os outros o tenham conseguido... Dessa maneira, chegava ao final das considerações que ia apresentar ao Congresso Pan-americano de Gastroenterologia, solicitando dos seus membros interesse para a questão, talvez no sentido de procurar restabelecer e mesmo tornar obrigatório o uso do vaso fundo de prato, que pode ser de tão grande utilidade no diagnóstico de diversas doenças do aparelho digestivo, inclusive do pâncreas. Isso parecia-me tanto mais natural e indicado, quanto, na finalidade de reuniões dessa natureza, devia entrar o estudo de medidas úteis à saúde e ao bem estar das populações, com o fim de recomendá-las aos poderes legislativos. Não foi por outra razão que fazia a presente comunicação, talvez menos austera que os outros temas debatidos no Congresso, mas, nem por isso, menos digna da esclarecida atenção dos seus membros. --- Antônio da Silva Mello foi o primeiro presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia, de 1949 a 1950. http://www.fbg.org.br/index.php?principal=historico/index Mais sobre ele: http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=congressos_resumo&codigo=8 --- Foi também membro da Academia Brasileira de Letras... O livro perdido de Silva Mello Em fevereiro de 1972, no auge da ditadura militar brasileira, o médico e escritor mineiro Antonio da Silva Mello era o membro mais velho da Academia Brasileira de Letras, quarto ocupante da cadeira 19 fundada por Alcindo Guanabara, tendo como patrono Joaquim Caetano e hoje ocupada pelo carioca, outro Antonio, Carlos Secchin. Sem medo da censura ou de pressões eclesiásticas, Silva Mello cavou naquele tempo alguns poucos espaços na mídia para reivindicar o direito de publicar um livro, na verdade um estudo, sobre a mania da raça humana em inventar deuses e religiões como ilusória proteção à sua própria insignificância e solidão no contexto do Universo. Autor de grandes obras científicas, referência mundial nos seus estudos sobre a medicina, o filho de Juiz de Fora foi boicotado naquele ano por editoras como a José Olympio, que não queria entrar numa enrascada de negar a existência do deus cristão, da Civilização Brasileira, que diante da conjuntura negativa argumentou não estar editando muita coisa mesmo. O autor procurou também a Melhoramentos, que achou o subterfúgio de só viabilizar a publicação com a ajuda do Instituto Nacional do Livro, àquela altura dominado pela vigilância militar. Amigo da diretora, Silva Mello preferiu não constrange-la numa possível situação de protesto dos agentes da repressão. O escritor morreria no ano seguinte, 1973, aos 87 anos, sem conseguir oferecer ao País sua tese oriunda de reflexões filosóficas, físicas e biológicas. Se chamaria "Eu no Universo", um título aparentemente pretensioso mas que o mineiro explicava ser de "uma humildade sem nome", afinal o eu em questão era o homem, a raça terrena. Soprando poeira durante o final de semana nas estantes da minha coleção de quadrinhos, dei de cara com uma página de jornal, sem identificação, dobrada no interior de um "Almanaque 1972 do Batman". Como naquele ano minhas atenções só estavam voltadas para a "Mini Copa" da ditadura em homenagem ao sesquicentenário da independência, suponho ter sido meu pai ou meu irmão que arquivou o material. Um dos pouquíssimos brasileiros que gozou da amizade com Albert Einstein, Antonio da Silva Mello foi um dos maiores médicos do País e destacado professor, ensaísta, gastrônomo e filósofo. Guardo dele uma obra de 1953, comprada em 1985 no Sebo de Elite, de São Paulo, chamada "Nordeste brasileiro - estudos e impressões". Quem leu identifica que ele bebeu nas fontes de Câmara Cascudo e Gilberto Freire. No livro perdido citado naquela quase perdida entrevista de 1972, ele comenta sobre a obra: "nós estamos completamente perdidos dentro do mundo. Não entendemos nada de nada". E fazia uma analogia entre o homem no Universo e um gato numa biblioteca: "o gato conhece a biblioteca a fundo, todos os seus recantos, mas não tem a menor idéia do que seja uma biblioteca, nem para que ela serve". Sempre comunguei com a tese de que há uma cultura enviesada quanto ao sentido da criação em se falando de filosofia e religião. O homem não foi criado por deus, mas sim criou deus como um salvo-conduto prévio e ao mesmo tempo uma carta de seguro ao incerto futuro. Silva Mello diz "para nos sentirmos importantes, acabamos criando deus e as religiões", e acrescenta "a religião tem causado prejuízos horrorosos, veja aí a Bíblia, um livro escrito por homens mas adotado como modelo divino". Quando assumiu a Academia Brasileira de Letras em 12 de abril de 1960, sucedendo Gustavo Barroso, Silva Mello galgava o olimpo dos imortais respaldado por uma vasta obra de grande referência nacional e internacional. Pesquisou e escreveu sobre nutrição, metabolismo, epidemiologia, nefrologia, gastroenterologia, psicologia e psicanálise. Um livro sobre efeitos biológicos da radioatividade teve repercussão em todo o mundo científico. Foi o fundador da Revista Brasileira de Medicina em 1944, durante a Segunda Guerra, e permaneceu seu diretor científico até o dia da sua morte, em 19 de setembro de 1973. Ainda sobre aquele livro que parece nunca ter sido editado, o escritor dizia na entrevista que "o homem é um animal com todos os instintos animais: o de conservação e o de procriação, mas tem complexo de superioridade, quer ser importante no contexto universal, e isso já é o trabalho da razão, a razão que está nos arrasando". Se alguém por acaso tiver notícias que o livro "Eu no Universo" chegou a ser resgatado após a morte de Antonio da Silva Mello, por favor avise. Mas antes faça a leitura do mesmo, antes que ditadores e pastores modernos lancem mão dos novos métodos de censura e evitem mais uma vez que um pensador filosofe a respeito da inexistência de deus e da pequenez do homem, seu criador. Alex Medeiros http://almadobeco2.blogspot.com/2006_03_01_almadobeco2_archive.html --- O tal livro existe, saiu pela Record: http://snipurl.com/13hi1 -- - c.a.t. http://catalisando.com Ótimo dia pra você. <*> Para assinar a lista onde se comenta: [EMAIL PROTECTED] <*> Para enviar um comentário: [email protected] Yahoo! Groups Links <*> To visit your group on the web, go to: http://groups.yahoo.com/group/goldenlist/ <*> Your email settings: Individual Email | Traditional <*> To change settings online go to: http://groups.yahoo.com/group/goldenlist/join (Yahoo! ID required) <*> To change settings via email: mailto:[EMAIL PROTECTED] mailto:[EMAIL PROTECTED] <*> To unsubscribe from this group, send an email to: [EMAIL PROTECTED] <*> Your use of Yahoo! Groups is subject to: http://docs.yahoo.com/info/terms/
