Prezados Senhores da FBG:

Remexendo em textos antigos num disquete velho, encontrei esta obra-prima...

REVISTA BRASILEIRA DE MEDICINA - Vol. X - Junho de 1953 - nº 5
 
O VASO SANITÁRIO E O SEU VALOR NO DIAGNÓSTICO DAS AFECÇõES DO TUBO DIGESTIVO, 
INCLUSIVE DO PÂNCREAS.
 
ANTÔNIO DA SILVA MELLO -- Rio de Janeiro
 
O presente trabalho, escrito especialmente para o Terceiro Congresso 
Pan-americano de Gastroenterologia, reunido na Cidade do México em Maio de 
1952, pareceu aos colegas que formavam a Delegação brasileira tão irreverente e 
tão susceptível de desairosas interpretações, que o autor, por sua solicitação, 
resolveu retirá-lo do temário, deixando de submetê-lo à apreciação do Congresso.
 
É sabido que o mecanismo do ridículo e do grotesco pode decorrer de situações 
contraditórias, opostas, inesperadas. Um homem pequenino ao lado de uma mulher 
grandalhona, em geral, é quadro que desperta sorrisos. Falar de vaso sanitário 
diante da austeridade de um Congresso cientifico poderia parecer, na verdade, 
esdrúxulo ou mesmo afrontoso, caso não se tratasse de um velho médico, dedicado 
ao trabalho clínico, zeloso da sua ciência, muito reverente à dignidade dos 
seus colegas. Se ele resolveu tratar da questão é porque a julgou 
transcendente, de tal importância do ponto de vista pratico, tão grave e 
respeitável, que achou necessário trazê-la à magnitude de um Plenário 
Internacional, não só para chamar sobre ela a atenção, senão também para 
solicitar o auxilio dos colegas para a solução de problema que considera dos 
mais sérios que poderíamos enfrentar.
 
Antes de tudo, o autor deve declarar que vaso sanitário, que se encontra em uso 
no Brasil e em todos os outros paises por ele visitados, inclusive os Estados 
Unidos, está tecnicamente errado, não correspondendo nem às necessidades 
medicas e higiênicas que devem ser dele exigidas, nem às condições de conforto 
que poderia oferecer. Refere-se ao vaso comum que, depois da descarga, obtida 
por mecanismo hidráulico de fácil manejo e grande eficiência, deixa no fundo 
uma camada de água, sobre a qual cairão as dejeções do próximo visitante. 
Primeiramente, deve perguntar: quais as vantagens, a razão de ser dessa privada 
que faz logo desaparecer as fezes na massa líquida e que se tornou de uso 
generalizado, mesmo legalmente obrigatório? É o que ele tem indagado de 
higienistas, cujas razões nunca lhe pareceram suficientemente justas ou 
convincentes. Ele próprio, fazendo investigações, chegou a conclusões 
desfavoráveis, isto é, que esse tipo é condenável, mesmo segundo os preceitos 
da higiene.
 
O que se pode verificar, desde logo, é que essa privada está centrada de tal 
modo, que a superfície da água fica verticalmente sob o centro das nádegas. A 
conseqüência dessa disposição é que as matérias fecais, caindo sobre a camada 
d'água, sobretudo quando sólidas e pesadas, respingam o posterior do operador, 
dando-lhe por vezes verdadeiros banhos. Isso não é de admirar, dadas as leis da 
balística, mas, de regra, ninguém toma precauções contra tal emergência, como 
posso concluir de um inquérito feito entre médicos e estudantes, num dos meus 
cursos. Distribuí fichas com perguntas, que deviam ser respondidas apenas com 
um sinal, a fim de evitar a identificação dos autores. Seria a maneira de obter 
respostas sinceras, objetivas, independentes de inibições pessoais. Os 
resultados mostraram que quase todos evacuavam sentando-se comodamente na tábua 
da latrina, sem qualquer precaução. Alguns colocavam papel de privada em torno 
para forrá-la, e raros algumas folhas sobre a água para evitar respingamentos. 
Mesmo isso, contudo, raramente garante contra borrifos nas nádegas, borrifos 
que podem conter germes e imundices do ocupante anterior, o que higienicamente 
constitui um grave erro.
 
Antigamente, existiu uma privada de fundo chato, chamada fundo de prato, que 
desapareceu do mercado, sendo até proibida no Brasil pelas posturas sanitárias. 
É provável que esse vaso, de fabricação inglesa, seja conhecido de alguns 
médicos, sobretudo os menos jovens. A particularidade principal era de a 
defecação ser feita como sobre um prato, ficando ai depositada à vista do 
fabricante, talvez para o seu prazer e a sua bem-aventurança, quando não para o 
seu desespero ou a sua decepção. Em todo o caso, ele se dava conta do que 
fazia, via como trabalhavam as suas entranhas, o que sobrava do que havia 
ingerido, o resto daquilo que lhe garantia a vida e a saúde. O mais importante, 
porém, é que há geralmente grande interesse em torno desse produto, como muito 
bem sabem os gastroenterologistas, embora nem sempre lhe dando a atenção que 
merece. Talvez, por uma questão de hábito ou tendência psicológica, que só 
ganham em ser cultivados. Eu confesso que tenho satisfação em conversar sobre o 
assunto com o doente, porque, assim, tenho obtido informações de valor não só 
quanto ao diagnóstico e a orientação terapêutica, senão também ao melhor 
conhecimento psicológico do individuo. O tema é esplêndido para se tatear a sua 
sensibilidade, e mesmo, não raro, para captar-se a sua confiança. Na prática, é 
fácil observar que muitos têm particular interesse pela questão, tratando da 
defecação e dos excrementos com desvelo muito especial. O principal, todavia, é 
que isso pode redundar em dados de grande significação diagnóstica, por vezes 
passados despercebidos à argúcia do clínico e mesmo a rigorosos exames de 
laboratório.
 
Hoje, estamos habituados com uma rotina cientifica por demais complexa e 
instrumentada, que mal deixa lugar para observações simples, banais, dessas que 
o médico prático, sobretudo de tempos passados, estava habituado a aproveitar. 
Encontram-se nesse caso a inspeção das fezes e indagações sobre a defecação. Eu 
tenho diagnosticado muitos casos de úlcera péptica graças a uma melena 
anamnesticamente bem investigada, mesmo quando exames rigorosos não puderam 
conduzir a tal conclusão. O valor dessa informação seria infinitamente maior, 
caso pudesse ser fornecida por doentes que observassem as suas fezes, em todas 
as defecações. O mesmo aconteceria em relação à presença de sangue, catarro, 
pus, vermes e restos alimentares, capazes de levar a grandes aproximações 
diagnósticas. O câncer das porções terminais do grosso intestino poderia ser 
suspeitado ou mesmo diagnosticado precocemente, graças a dados dessa mesma 
natureza. Também o pâncreas, tema escolhido para o III Congresso Pan-americano 
de Gastroenterologia, poderia lucrar imensamente com o vaso fundo de prato, 
graças ao qual tenho conseguido estabelecer diagnósticos de afecções desse 
órgão, por vezes em casos inacessíveis aos recursos de laboratório. Todos 
sabemos que, em determinadas afecções pancreáticas, há insuficiência dos seus 
fermentos no intestino, o que torna a digestão incompleta, dai resultando 
aumento de volume das fezes. Quando há suspeita de distúrbios desse gênero, 
deve o médico atentar para essa particularidade, fazendo o doente evacuar em 
comadre ou urinol. É complexo, desagradável, mesmo anticientifico, sobretudo 
havendo a privada de prato, que resolve de maneira muito simples tais 
dificuldades. Alias, não é raro ver o doente, cheio de espanto, vir anunciar 
que a defecação no urinol foi grande ou enorme, por vezes parecendo maior que a 
quantidade de alimentos ingeridos! Pelo uso da privada fundo de prato, 
informações desse gênero são dadas espontaneamente, pois a observação é 
facílima para o próprio doente. Isso tem tanto mais importância, quanto, em 
outros casos, pode a argúcia do médico ser frustrada pelos próprios exames de 
laboratório, que, executados numa fase de melhor equilíbrio funcional ou numa 
pequena quantidade de fezes, não deixarão perceber o distúrbio existente. Isso 
já tem acontecido na minha própria clientela, em casos que acabaram sendo 
diagnosticados de neoplasia, de litíase pancreática ou pancreatite crônica, mas 
nos quais os exames de fezes, trazidos pelo consulente, pareciam excluir tais 
possibilidades, indicando ausência de infecção e boa digestibilidade dos 
alimentos. O exame de fermentos nas fezes, na urina e no sangue também nada 
precisa revelar, sobretudo quando realizados em momentos favoráveis, quando a 
função ainda se está operando de maneira suficiente. Alem disso, tanto a 
litíase quanto a pancreatite podem apresentar surtos agudos, acompanhados de 
sofrimentos mais intensos, quer de dores e perturbações digestivas, quer 
reações febris, mesmo violentas. Nessas condições, a secreção externa do 
pâncreas pode ser prejudicada, isto é, diminuída pelo mecanismo produtor da 
própria crise.
 
A vesícula biliar toma freqüentemente parte nesses distúrbios e, não raro, é do 
lado dela que é feito o diagnóstico. O principal, porém, é que a função externa 
do pâncreas pode sofrer acentuadas alterações nesses surtos, embora, por vezes, 
apenas de maneira transitória. Sendo assim, pode o doente, nesses períodos, ter 
evacuações volumosas, caracteristicamente volumosas, não raro impressionantes 
pela quantidade de fezes eliminadas, nas quais o exame macro ou microscópico 
revelara a insuficiência digestiva. A sintomatologia clinica, sobretudo quanto 
às dores e a febre, pode ser obscura, de difícil interpretação, mas 
esclarecer-se por essa alteração do volume e do aspecto das fezes durante as 
crises. Se essa particularidade pode ser precisada por exames de laboratório 
pedidos pelo médico, não há duvida que isso exige muito mais argúcia e 
desembaraço da sua parte, ao passo que resultados idênticos poderão ser obtidos 
pela inspeção das fezes, tão facilitada pela privada fundo de prato. É evidente 
que o volume dos excrementos depende essencialmente da sua composição, antes de 
tudo do seu teor aquoso. As evacuações moles, pastosas e liquidas são sempre 
mais abundantes, podendo ser condicionadas por várias doenças do aparelho 
digestivo, mormente do estômago e ainda mais do intestino, sem contar as do 
sistema biliar e do pâncreas. É um problema de diagnóstico diferencial, cuja 
solução pode ser extraordinariamente facilitada pela simples inspeção das 
fezes, principalmente levando em conta o total da defecação. O seu aspecto 
gorduroso, ao lado do aumento de volume e o próprio cheiro podem fazer 
suspeitar lesões pancreáticas. Ao lado disso, pode a abundância de resíduos 
alimentares, mesmo de fibras e conglomerados musculares estriados, correr por 
conta de uma travessia rápida do intestino, motivada por processos 
disenteriformes ou diarréicos, por vezes puramente nervosos. Nessas condições, 
o exame das fezes, principalmente o microscópico, pode conduzir a erros graves, 
caso não seja dada atenção à parte macroscópica, à simples inspeção, que pode 
ser feita repetidamente, mesmo seguidamente pelo emprego do vaso fundo de 
prato. São dados que se engrenam e completam, podendo qualquer visão parcial 
conduzir a faltas das mais grosseiras.
 
Por outro lado, mesmo lesões graves e extensas do pâncreas não precisam ser 
necessariamente acompanhadas de grandes alterações dos excrementos, desde que 
os mecanismos compensadores da digestão possam remediar a insuficiência ou a 
própria função do órgão ainda bastar às exigências que deve preencher. De 
qualquer forma, tanto o exame de laboratório positivo quanto o negativo 
necessitam ser considerados no conjunto do quadro clínico, talvez devendo ser 
repetidos diversas vezes antes de se chegar a conclusões diagnósticas 
definitivas. De regra, não é no período de crise, quando o doente esta acamado, 
que são realizados esses exames, sim, mais comumente, depois de passado o 
temporal, no período de acalmia. Se os fatos se processam dessa maneira na 
prática, compreende-se que a privada fundo de prato possa constituir 
instrumento de alto valor diagnóstico nas afecções pancreáticas, assim como a 
icterícia da conjuntiva ocular, passageira e pouco acentuada, o melhor sintoma 
para o diagnóstico de crises hepáticas ou vesiculares, por vezes da mais 
difícil interpretação. Casos dessa natureza podem ser surpreendidos e mesmo 
diagnosticados pelos sintomas em questão, isto é, aumento de volume e aspecto 
particular das fezes em doenças do pâncreas, assim como presença de icterícia 
conjuntival nas do fígado e vias biliares. Mas, é preciso procurar esses 
sintomas, então quase patognomônicos, no momento certo, quando desencadeados 
pela crise biliar ou pancreática, não raro associadas, derivando-se em geral a 
ultima da primeira. A icterícia da conjuntiva precisa ser verificada a luz do 
dia, de janela aberta, fazendo o doente olhar para os lados, porque, de outra 
maneira, poderá escapar, mormente pelo fato de não ser visível à luz 
artificial, por si mesma muito rica no tom amarelo. Esse exame, tão fácil é 
mais importante que complexas provas hepáticas, pode resolver, quase 
imediatamente, difíceis situações diagnosticas, adiantando-se a provas mais 
difíceis e complicadas. Não é isso, entretanto, que acontece habitualmente na 
prática, pois tais exames são comumente deixados de lado, como posso falar pela 
minha experiência de velho clínico. Também do lado de aumento de volume das 
fezes, em crises pancreáticas, quer de pancreatite, de tumores ou de litíase, 
repete-se fenômeno idêntico, precisando ser o sintoma investigado no momento 
adequado, em função da crise. Quero lembrar que simples manipulações do 
pâncreas podem suprimir a sua secreção externa por espaço de tempo mais ou 
menos prolongado, como sabemos desde velhas experiências de Pavlov, em animais.
 
Quando as crises pancreáticas se repetem, pode o doente emagrecer enormemente, 
devido à falta de aproveitamento dos alimentos, em grande parte perdidos pelas 
fezes. Tenho visto casos dessa natureza, em que foi admitida a presença de uma 
neoplasia, impossível de ser localizada, devido justamente a ausência de outros 
sintomas esclarecedores e, principalmente, à diminuição de peso, por vezes 
enorme, mas que não foi relacionada ao aumento de volume das evacuações 
produzido pela perda de alimentos. O laboratório, em vez de resolver a questão, 
pode obscurecê-la, caso os exames sejam dados como normais, o que não é raro 
acontecer, até afastando outras investigações. Alias, os exames de laboratório 
não apanham senão fragmentos do grande espetáculo e deixam de ter valor caso 
não sejam executados com a técnica necessária. Se, nas crises agudas, a 
amilase, a lípase e a glicose encontram-se aumentadas no soro sanguíneo, pode a 
sua quantidade conservar-se normal ou decrescer dentro de pouco tempo, embora 
fale a sua diminuição contra um processo pancreático. A febre, a taquicardia, a 
hiperleucocitose são comuns em todas as afecções que entram ai em linha de 
conta, sendo a sua diferenciação clínica por vezes extremamente difícil. 
Sabidamente, a localização da dor, do lado esquerdo do epigástrico, talvez indo 
ao dorso, e dos sintomas mais característicos, daqueles que mais devem 
despertar a atenção para o pâncreas. Uma chapa do abdome, nos casos agudos, 
deve ser sempre feita, podendo não raro logo esclarecer a situação. No caso da 
litíase, pela presença de cálculos; no de pancreatite aguda, por um sombreado 
traduzindo aumento de volume do órgão. A presença de pneumoperitônio poderá 
revelar perfuração péptica ou de outra natureza, assim como a existência de 
níveis líquidos processos de obstrução intestinal, achados ambos do maior 
valor, mormente havendo suspeita de pancreatite.
 
De qualquer forma, a latrina fundo de prato pode figurar nesse conjunto como um 
excelente instrumento diagnóstico, quando muito substituível pelo urinol ou a 
"comadre", ainda mais incômoda e antipática. As dejeções são por vezes 
características, tanto pelo volume e a repetição das exonerações, quanto pelo 
aspecto e a consistência das fezes, que se apresentam pastosas, visguentas, de 
cor amarelo-acinzentada, não raro muito fétidas, mas sobretudo gordurosas, até 
deixando flutuar gotas de gordura na água do vaso. Isto acontece com maior 
evidência, caso o paciente use gordura hidratada, cuja digestão necessita a 
intervenção do suco pancreático. É o que mostrou Rudolf Ehrmann que recomendou 
o emprego de palmin, uma gordura de coco, como excelente recurso para o estudo 
da secreção externa do pâncreas.
 
Aliás, fora das possibilidades mencionadas, pode o panorama fecal, fornecido 
pela visibilidade das dejeções, levar ao diagnóstico, ou à exclusão de outras 
perturbações digestivas, principalmente do lado intestinal. Dores à esquerda do 
epigástrio e no hipocôndrio esquerdo, pista tão seguida para o diagnóstico das 
afecções pancreáticas, são freqüentemente de origem intestinal, mais comumente 
da flexura esplênica. Os processos do cólon podem produzir retenção de gases e 
mesmo de fezes na flexura esplênica e na parte esquerda do transverso, 
condicionando dores espontâneas, quando não só a palpação. Então, não é raro 
pensar o médico no pâncreas, cuja posição anatômica coincide com a sede das 
dores. Mas, bem nessas condições, pode o panorama das fezes resolver a questão 
em favor do cólon e não do pâncreas, ou vice-versa. A crise pancreática 
caracteriza-se pelo volume e o aspecto das fezes, capazes de impressionar o 
próprio doente, caso consiga observá-las. Se a crise é do intestino, 
manifestar-se-á por diarréia, puxos, tenesmo, catarro ou sangue nas fezes, 
quando não por evacuações fragmentadas, prisão de ventre, retenção de gases, 
afinal cena de caráter intestinal, que o doente talvez não refira, nem o médico 
se lembre de indagar, mas que aparecer com maior evidencia, caso o doente e o 
médico procurem dar-se conta do acontecimento, observando-o diretamente, se 
possível diariamente. Não é por outra razão que, recebendo chamado para ver 
doente a domicílio, indago do quadro clínico pelo telefone e, nos casos 
apropriados, logo ordeno que a evacuação seja feita em urinol e o produto 
guardado para o especialista observar. É melhor, mais garantido, mais 
elucidativo que a maioria dos exames de laboratório, que devem apenas completar 
o que o médico já viu macroscopicamente.
 
É evidente que o exame de fezes, a rectossigmoidoscopia, os raios X e diversos 
outros recursos diagnósticos poderão nos levar a conclusões mais precisas, por 
vezes só alcançáveis pelo seu emprego. Mas, mesmo assim, constitui a observação 
das fezes magnífica fonte de informações, da qual pode o médico tirar imenso 
proveito. Eu falo como velho clínico, às mãos do qual vêm não somente grandes e 
graves doentes, senão ainda, com maior freqüência, o enorme grupo dos 
neuróticos e outros que procuram o médico por sofrimentos menos importantes, 
que não justificam, logo de saída, muitos exames, em geral também por eles 
recusados. Uma informação sobre a defecação e o aspecto das fezes pode ter, 
nessas condições, valor incomensurável, capaz de sobrepor-se aos exames 
rotineiros de laboratório e à perspicácia do clínico. Tenho a convicção de que 
muitos colegas, sobretudo os menos jovens, deverão corroborar esse ponto de 
vista, tão banal que outros o poderão considerar um tremendo truísmo, talvez 
indigno de figurar numa reunião de tão elevado cunho cientifico. Não faz mal! 
As realidades da prática é que devem decidir e é nesse sentido que venho 
encarecer o valor do vaso fundo de prato, cujas vantagens são imensas. O que é 
preciso, em todo o caso, é que nos libertemos de preciosismos, que ainda hoje 
estão impregnando a Medicina, quando, em outros setores culturais, na pintura, 
na escultura e, não por ultimo, na literatura, desde o advento do naturalismo 
aos exageros do existencialismo, já foram parcialmente vencidos. Também nós, 
principalmente nós, os médicos, precisamos fazer a nossa reação e dizer as 
coisas como elas são. Isso é tanto mais necessário, quanto, por trás da nossa 
cortesia, da nossa distinção, da nossa hipocrisia, escondem-se freqüentemente 
complexos e recalcamentos, que podem ser prejudiciais, tanto ao progresso da 
ciência, quanto ao conforto e a felicidade do ser humano. Hoje, estamos por 
demais habituados com o laboratório, com a beleza dos seus balões, das suas 
placas, dos seus provetes, com a elegância e a precisão das reações químicas, 
com o microscópio e os numerosos aparelhos usados na investigação diagnóstica. 
A latrina é um objeto caseiro, burguês, de uso obrigatório, que apenas serve 
para receber dejeções mal odorosas vindas do interior do corpo e que devem ser 
logo arrastadas pelo impetuoso jato de água lançado pela descarga. É verdade, 
contudo, que também isso representa um dos grandes progressos do mundo moderno, 
que transformou o quarto de banho em um dos lugares mais asseados da habitação, 
luzidio, de cores artísticas, bom arejamento, abundância de água, garantindo o 
perfeito funcionamento de vários aparelhos dedicados à limpeza corporal. Que se 
compare tal situação com a de um século passado e ver-se-á a profunda 
modificação que sofreu a higiene pessoal em tão curto espaço de tempo. Mesmo os 
palácios e os castelos de então possuíam instalações sanitárias inferiores às 
existentes atualmente em casas das mais modestas. Lembro-me de privadas que 
tive ocasião de ver na Europa, sobretudo em Paris, no centro de andares, dando 
para corredores, empestando o ambiente, sem janelas para o exterior. O cheiro 
de fezes constituiu, por assim dizer, condição obrigatória da existência, 
sobretudo nas cidades, em época ainda pouco longínqua. Provavelmente, pela 
participação de fatores místicos e religiosos, quando o corpo e mormente o sexo 
caíram sob severas proibições. tornaram-se território defenso, fonte de pecados 
e malefícios. Órgãos pudendos eram os do sexo, que precisavam andar escondidos, 
não merecendo nem muito trato nem muita limpeza. Foi o protestantismo que veio 
quebrar muitos desses tabus, servindo-se dos grandes progressos alcançados pela 
técnica. O banho generalizou-se, o esporte e o exercício físico tiveram mais 
aceitação, o sol e a água entraram nos hábitos da população, tornando-se o 
corpo humano objeto de mais trato e asseio, como nos tempos da velha Grécia. 
Que se compare a indumentária, principalmente de freiras e sacerdotes, com o 
nudismo atual, das praias e recepções! Mas, mesmo assim, não houve libertação 
completa daquele velho complexo religioso preso ao sexo e aos seus órgãos. É o 
que se pode concluir dessa preocupação excessiva dada à limpeza e ao asseio, 
justamente tão evidente no atual quarto de banho, a parte mais limpa do 
domicílio, não raro perfumada, de odores higiênicos, agradáveis, que não deixam 
perceber o cheiro de fezes. Que dizer, porém, da latrina comum, com aquele 
depósito de água que respinga as nádegas do visitante, impedindo-o de observar 
o produto da sua digestão? É um dos melhores exemplos para mostrar quanto 
andamos ainda errados, quanto somos vitimas de complexos recalcados. Acredito 
que o inventor do vaso fundo de prato deva ter sido um indivíduo de bom senso, 
provavelmente um inglês de boa têmpera, sadio, livre de inibições, que dava às 
coisas o seu valor real, sincero, objetivo, se é que também não foi joguete de 
recalcamentos, traduzidos pelo interesse em observar as próprias fezes, talvez 
um ato de verdadeira coprofilia. Aliás, em tudo isso, a motivação capital e 
quase sempre de puro sentimento, mesmo quando evitamos falar da questão ou 
disfarçamo-la sob termos técnicos, asseados, embora em torno dela se desenvolva 
o nosso maior interesse. Que cada um seja sincero, suficientemente sincero, 
procurando não esconder o interesse que tem pela própria defecação! É uma 
história espantosa, parecida com a do onanismo, que a psicanálise já conseguiu 
esclarecer. Ninguém pode escapar à sua ação, embora todos, sistematicamente, na 
maior das hipocrisias, finjam-se poupados pelo vicio, talvez acreditando que os 
outros o tenham conseguido... Dessa maneira, chegava ao final das considerações 
que ia apresentar ao Congresso Pan-americano de Gastroenterologia, solicitando 
dos seus membros interesse para a questão, talvez no sentido de procurar 
restabelecer e mesmo tornar obrigatório o uso do vaso fundo de prato, que pode 
ser de tão grande utilidade no diagnóstico de diversas doenças do aparelho 
digestivo, inclusive do pâncreas. Isso parecia-me tanto mais natural e 
indicado, quanto, na finalidade de reuniões dessa natureza, devia entrar o 
estudo de medidas úteis à saúde e ao bem estar das populações, com o fim de 
recomendá-las aos poderes legislativos. Não foi por outra razão que fazia a 
presente comunicação, talvez menos austera que os outros temas debatidos no 
Congresso, mas, nem por isso, menos digna da esclarecida atenção dos seus 
membros.

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Antônio da Silva Mello foi o primeiro presidente da Federação Brasileira de 
Gastroenterologia, de 1949 a 1950.
http://www.fbg.org.br/index.php?principal=historico/index

Mais sobre ele: http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=congressos_resumo&codigo=8

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Foi também membro da Academia Brasileira de Letras...

O livro perdido de Silva Mello

Em fevereiro de 1972, no auge da ditadura militar brasileira, o médico e 
escritor mineiro Antonio da Silva Mello era o membro mais velho da Academia 
Brasileira de Letras, quarto ocupante da cadeira 19 fundada por Alcindo 
Guanabara, tendo como patrono Joaquim Caetano e hoje ocupada pelo carioca, 
outro Antonio, Carlos Secchin.

Sem medo da censura ou de pressões eclesiásticas, Silva Mello cavou naquele 
tempo alguns poucos espaços na mídia para reivindicar o direito de publicar um 
livro, na verdade um estudo, sobre a mania da raça humana em inventar deuses e 
religiões como ilusória proteção à sua própria insignificância e solidão no 
contexto do Universo.

Autor de grandes obras científicas, referência mundial nos seus estudos sobre a 
medicina, o filho de Juiz de Fora foi boicotado naquele ano por editoras como a 
José Olympio, que não queria entrar numa enrascada de negar a existência do 
deus cristão, da Civilização Brasileira, que diante da conjuntura negativa 
argumentou não estar editando muita coisa mesmo.

O autor procurou também a Melhoramentos, que achou o subterfúgio de só 
viabilizar a publicação com a ajuda do Instituto Nacional do Livro, àquela 
altura dominado pela vigilância militar. Amigo da diretora, Silva Mello 
preferiu não constrange-la numa possível situação de protesto dos agentes da 
repressão.

O escritor morreria no ano seguinte, 1973, aos 87 anos, sem conseguir oferecer 
ao País sua tese oriunda de reflexões filosóficas, físicas e biológicas. Se 
chamaria "Eu no Universo", um título aparentemente pretensioso mas que o 
mineiro explicava ser de "uma humildade sem nome", afinal o eu em questão era o 
homem, a raça terrena.

Soprando poeira durante o final de semana nas estantes da minha coleção de 
quadrinhos, dei de cara com uma página de jornal, sem identificação, dobrada no 
interior de um "Almanaque 1972 do Batman". Como naquele ano minhas atenções só 
estavam voltadas para a "Mini Copa" da ditadura em homenagem ao 
sesquicentenário da independência, suponho ter sido meu pai ou meu irmão que 
arquivou o material.

Um dos pouquíssimos brasileiros que gozou da amizade com Albert Einstein, 
Antonio da Silva Mello foi um dos maiores médicos do País e destacado 
professor, ensaísta, gastrônomo e filósofo. Guardo dele uma obra de 1953, 
comprada em 1985 no Sebo de Elite, de São Paulo, chamada "Nordeste brasileiro - 
estudos e impressões". Quem leu identifica que ele bebeu nas fontes de Câmara 
Cascudo e Gilberto Freire.

No livro perdido citado naquela quase perdida entrevista de 1972, ele comenta 
sobre a obra: "nós estamos completamente perdidos dentro do mundo. Não 
entendemos nada de nada". E fazia uma analogia entre o homem no Universo e um 
gato numa biblioteca: "o gato conhece a biblioteca a fundo, todos os seus 
recantos, mas não tem a menor idéia do que seja uma biblioteca, nem para que 
ela serve".

Sempre comunguei com a tese de que há uma cultura enviesada quanto ao sentido 
da criação em se falando de filosofia e religião. O homem não foi criado por 
deus, mas sim criou deus como um salvo-conduto prévio e ao mesmo tempo uma 
carta de seguro ao incerto futuro. Silva Mello diz "para nos sentirmos 
importantes, acabamos criando deus e as religiões", e acrescenta "a religião 
tem causado prejuízos horrorosos, veja aí a Bíblia, um livro escrito por homens 
mas adotado como modelo divino".

Quando assumiu a Academia Brasileira de Letras em 12 de abril de 1960, 
sucedendo Gustavo Barroso, Silva Mello galgava o olimpo dos imortais respaldado 
por uma vasta obra de grande referência nacional e internacional. Pesquisou e 
escreveu sobre nutrição, metabolismo, epidemiologia, nefrologia, 
gastroenterologia, psicologia e psicanálise. Um livro sobre efeitos biológicos 
da radioatividade teve repercussão em todo o mundo científico.

Foi o fundador da Revista Brasileira de Medicina em 1944, durante a Segunda 
Guerra, e permaneceu seu diretor científico até o dia da sua morte, em 19 de 
setembro de 1973. Ainda sobre aquele livro que parece nunca ter sido editado, o 
escritor dizia na entrevista que "o homem é um animal com todos os instintos 
animais: o de conservação e o de procriação, mas tem complexo de superioridade, 
quer ser importante no contexto universal, e isso já é o trabalho da razão, a 
razão que está nos arrasando".

Se alguém por acaso tiver notícias que o livro "Eu no Universo" chegou a ser 
resgatado após a morte de Antonio da Silva Mello, por favor avise. Mas antes 
faça a leitura do mesmo, antes que ditadores e pastores modernos lancem mão dos 
novos métodos de censura e evitem mais uma vez que um pensador filosofe a 
respeito da inexistência de deus e da pequenez do homem, seu criador.

Alex Medeiros

http://almadobeco2.blogspot.com/2006_03_01_almadobeco2_archive.html

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O tal livro existe, saiu pela Record: http://snipurl.com/13hi1

--

- c.a.t.
  http://catalisando.com



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