"Come on, it's the Olympics!"

Esse foi o mote da minha última noite de Olimpíadas de Pequim, fornecido por
um ex-atleta americano. Estavamos eu, ele e outras dezenas de pessoas
tentando assistir à cerimônia de encerramento dos Jogos no telão gigante de
um hotel sete estrelas que fica ao lado do Cubo de Água. Sentados na
calçada, sem impor nenhum risco de segurança. Apenas querendo aproveitar
mais a experiência de conversar com gente do mundo todo.

Eis que pouco depois dos primeiros fogos de artifício surgem algumas dezenas
de políciais para remover a tigrada do lugar. Ninguém se conformou. Vários
chineses batem-boca com os home, que não querem nem saber de vagabundagem
olímpica. Todo mundo circulando. Menos o americano, um negão de alguma
idade, com trancinhas rasta tingidas de branco e sorriso fácil.

Surge o primeiro "Come on, it's the Olympics!". Os policiais parecem
entender o que ele quer dizer. Uns olham para baixo e continuam afastando o
povaréu. E o americano, que me disse se chamar Pereira --mãe portuguesa--,
não se mexe. Os home insistem, mas Pereira nem dá bola. It's the Olympics e
em outros Jogos a que já foi, ele viu a cerimônia de encerramento do lado de
fora do estádio.

Ele me contou que esteve em todas elas desde 1972, quando teria competido na
equipe de atletismo do revezamento 4 x 100 dos Estados Unidos. Me mostra a
credencial de treinador e fuzila: os Jogos de Pequim foram os piores em que
ele esteve.

"Deve ter sido bom para quem está lá dentro, mas para mim foi péssimo. É
tudo de plástico. Onde está a humanidade do maior show do mundo? Não teve
humanidade de verdade nos Jogos de Pequim. Não tem espaço para todo mundo,
só para quem tem ingresso. Eles não entendem nada do espírito olímpico neste
país", diz ele, ainda parado e com policiais insistindo para ele tomar o
rumo de casa.

Enquanto eu penso no que diz o velho Pereira, chegam três chinesas
esbaforidas. Uma menina, a mãe e a avó. Os polciais dizem a elas que não
podem seguir ali para ver a cerimônia de abertura. A mãe começa a bater boca
com o chefe dos guardas e o clima fica tenso. Depois de dois minutos, a
mulher rompe em choro.

A filha a acompanha e todos, chineses e estrangeiros, civis e policiais,
respeitam. Mas a decisão vem de cima e já está tomada.

Um democrático "pra fora, cambada".

Tudo que eu consigo fazer é esperar a senhora terminar de chorar e dar um
tapinha camarada nas costas dela, já sem nenhuma vontade de ver a tal
cerimônia.

Ficou ainda mais melancólico enquanto eu andava para mais longe --o
americano aparentemente ficou ali até cansar os policiais, que não afastaram
ninguém à força. Eu ia passando pelas ruas e via moleques correndo para
perto do estádio para assistir no telão e moças vestindo suas melhores
roupas para o evento histórico.

Parei em um bar para assitir à cena e minutos depois que essas pessoas
passavam, voltavam, cabisbaixas ou em silêncio.

Nada daquilo é para elas.

Lembrei dos relatos sobre o clima alegre de outras Olimpíadas. Gente nas
ruas o tempo todo, fogos de artifício, emoção genuina e liberdade. Em
Pequim, vi muito pouco disso.

Adoro os Jogos Olímpicos desde os sete anos de idade. E, pela primeira vez
em uma cidade sede, nunca vi tão pouco do evento esportivo que mais gosto.
Na TV só deu para ver atleta chinês. Nos ginásios, conseguir ingresso era um
inferno. E no último dia, o governo não permitiu às pessoas sequer assistir
à porcaria de cerimônia perto do estádio Olímpico. Proibiu até o telão.

Poderia ter sido tão simples e belo. Poderia ter sido mais humano. Porque,
afinal das contas, são as Olimpíadas, que reúnem quase todos os países do
mundo apenas de quatro em quatro anos.

Pena que a China não sabia. Vou ter de esperar até 2012.


Blog do Savarese
Domingo, 24 de Agosto de 2008
Postado por M.S. às 13:07

http://blogdosavarese.blogspot.com/2008/08/come-on-its-olympics.html

- c.a.t.
  http://catalisando.com
Obrigado à Fa Conti <[EMAIL PROTECTED]>

- c.a.t.

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