A DESCONEXÃO QUE NOS ATERRORIZA

*
por Carlos Alberto Teixeira*

No início de 2008, li um texto que me fez pensar muito sobre essa overdose
de velocidade que nós estamos vivenciando nos tempos atuais. Esse
artigo<http://www.boston.com/bostonglobe/ideas/articles/2008/03/09/the_joy_of_boredom?mode=PF>foi
publicado no site do "The Boston Globe" e foi escrito pela jornalista
Carolyn Johnson. Relendo-o há pouco, pensei nesses tempos de rápidas
mudanças sociais que estamos vivenciando por causa da tecnologia. E no
surgimento de um novo medo que aflige as pessoas que estão plugadas, o medo
da desconexão.

Às vezes, pelo excesso de informações que absorvemos,
não temos nem tempo nem energia para passar adiante
essas informações. Muito ouvimos e pouco falamos.
Transformamo-nos em repositórios de dados
entupidos... que um dia poderão explodir.

Quem está parado num engarrafamento, ou esperando ônibus, ou numa sala de
espera em geral tem alguma distração por perto, seja o rádio, seja a revista
Caras (eca!). Mas até o surgimento dos dispositivos conectados sem fio, as
pessoas ainda estavam fundamentalmente sozinhas nesses momentos de espera.
Antes desses aparelhos existirem, saíamos por aí, pela cidade ou pelas
estradas, totalmente livres de amarras conectadas. Se fosse preciso se
comunicar, bastava ir a um telefone público e ligar para a pessoa, para o
escritório ou para onde fosse necessário.

É incomparável a sensação de sair pela vida confiando
quase exclusivamente na capacidade inata que temos
de improvisar e de nos adaptar às circunstâncias. Ou
mesmo de nos defender, caso necessário.

Mas hoje em dia existe um crescente medo da possibilidade de nos vermos
soltos no mundo sem a calmante segurança de um celular. Se pararmos para
pensar na escala de tempo das invenções humanas, o telefone móvel é algo
ainda novo, mas se tornou parte crucial no trio básico de coisas que as
pessoas temem esquecer quando saem de casa: chaves, carteira (ou bolsa, se
for mulher) e celular. No meu caso tem também os óculos de leitura para
vista cansada, sinal de que a velhice está chegando.

Notamos em nós mesmos e nos outros essa hiper-ansiedade quanto a nos
sentirmos sós ou desconectados. Algumas pessoas dormem com o celular ligado
e ao alcance da mão. Outros nem cogitam desligá-lo enquanto dormem, em geral
alegando que algum ente querido possa ter uma emergência no meio da noite e
queira pedir socorro.

Nossa sociedade moderna está constantemente ansiosa, e uma forma de aliviar
essa ansiedade é ter por perto algo que esteja quase inteiramente sob nosso
controle, que nos dê prazer e possa nos divertir e distrair — o celular.
Dando um passo atrás e olhando com visão crítica, isso tem toda cara de um
vício, é ou não é?

As crianças hoje já nascem inseridas num contexto de
vida em que manter-se conectado o tempo todo é algo
totalmente natural e aceitável. Aliás, é um comportamento
até encorajado. [vide
crônica<http://taisluso.blogspot.com/2008/08/o-vcio-da-internet.html>de
Taís Luso]

Alguns empresários do setor de telecomunicações vêm tentando capitalizar em
cima dos pequenos momentos de tempo livre que ainda temos espalhados pelas
24 horas dos nossos curtos dias. De certa forma, esses espertos homens de
negócios (e suas equipes) estão agindo igual aos da indústria farmacêutica.
Isso pode ser meio apelativo, mas é uma estratégia brilhante de negócios.

Veja só o alerta que está sendo dado com relação à indústria dos remédios.
Um número cada vez maior de especialistas em saúde mental vem questionando
se a tristeza convencional e a ansiedade social estão sendo indevidamente
transformadas em doenças, síndromes e depressões, de modo que as pessoas
acreditem que precisam ser "curadas" pelas empresas que oferecem
medicamentos milagrosos para abafar sentimentos que são naturais e inerentes
à nossa espécie.

A indústria tecnológica parece estar fazendo a mesma coisa conosco com
relação ao medo da desconexão.

Se prestarmos atenção, muitos dos argumentos originais para se ter um
celular — que são segurança e emergências — nunca aparecem nos anúncios e
nas propagandas. Da mesma forma que nos comerciais em que aparece gente
séria e preocupada se transformando em pessoas risonhas e felizes, as
empresas de tecnologia projetam um mundo conectado pleno de felicidade, em
que se alguém intencionalmente quer se desconectar, então essa pessoa é
esquisita. Seu comportamento é questionável e a criatura está inegavelmente
doente.

Mostre-me uma mulher moderna com celular sem
sinal, e lhe mostrarei uma criatura perigosa prestes
a ter um ataque de nervos.

A sociedade se curvou tão docilmente à idéia da conexão que é preciso dar
uns dois ou três passos para trás de modo a vermos exatamente quão longe
essa loucura chegou. Em vez de carregarem todo seu universo social e até
mapas online do mundo inteiro dentro do bolso, as pessoas costumavam sair de
suas casas e caíam de cabeça no mundo, confiando em sua habilidade de
improvisar e resolver quaisquer problemas aleatórios que surgissem. Hoje em
dia, porém, não pegar no celular por mais de uma hora se parece com um ato
de desafio.

O mundo da psicologia nunca prestou muita atenção às emoções do chamado
grupo B (tédio e enfado — aquela chateação que a gente sente quando não está
fazendo nada). Mas a falta de estudo acadêmico desse grupo de emoções é até
compreensível. Outras emoções, as do grupo A (ansiedade, medo, raiva etc.),
têm sido muito mais analisadas do que as do grupo B, em que nos sentimos
simplesmente de saco cheio ou aborrecidos.

A sensação de estar de saco cheio é algo que vivenciamos
desde a mais tenra idade. Ninguém está a salvo da
sensação de aborrecimento. Mas... e daí? Qual é o problema?

O motivo pra essa preferência é que as emoções do grupo A são mais comuns,
mais fáceis de estudar. Baseiam-se na oscilação medo-ameaça, medo-ameaça,
medo-ameaça... e assim vai. Já as emoções do grupo B são menos comuns, mas
também nos fazem humanos. Só que são de certo modo evitadas e menos estudas.
Pertencem também ao grupo B o orgulho e a contemplação abstrata, por
exemplo.

Buscando ampliar as fronteiras do conhecimento, alguns psicológicos tomaram
a iniciativa de examinar o tédio e o aborrecimento mais de perto, partindo
do pressuposto de que essas emoções devem ter um propósito bem definido no
projeto original de nossas almas.

Basta uma olhada rápida em torno de nós e percebemos que as crianças lidam
com o tédio de maneira bastante natural — com criatividade. Algumas raras
crianças chegam ao ponto de desembrulharem um presente e ficaram brincando
com as fitas e o papel de embrulho por um tempo, antes de abrirem o dito
cujo. Mas quando vão crescendo, essas crianças abençoadas são influenciadas
por seus pais ansiosos e por seus coleguinhas já contaminados e passam a
exigir estímulos mais específicos, tais como aquele novo videogame ou aquele
lançamento de celular irado.

Algumas vezes parece que temos tudo, nada nos falta.
Mas, por algum motivo, persiste a sensação de que
continuamos procurando alguma coisa que
aparentemente nunca iremos obter.

Esses especialistas que estudaram a sensação de estar de saco cheio
concluíram que se as pessoas estão envolvidas em atividades que lhes dêem
pouco retorno ou recompensa, então elas se aborrecem e sentem tédio. Se
aparece algo mais interessante e instigante, elas vão em frente e seguem o
impulso. Mas se nada aparece, elas podem se sentir motivadas a pensar algo
novo por si mesmas. Os estudos comprovam que as pessoas mais criativas são
as que têm maior tolerância a longos períodos de incerteza e tédio, pois
elas mergulham mais fundo nessas fases de ócio mental... e de lá trazem
idéias.

Quando nos afastamos do turbilhão tecnológico, voltamos a níveis naturais de
velocidade. Nossos sentidos se recalibram, nossas experiências têm como se
aprofundar e a própria natureza da memória começa a se revelar. Mas só tem
um jeito de aproveitar esses instantes: é clareando a mente e
concentrando-se no que brota espontaneamente de nosso interior. Aí o nosso
pensamento sutil voa mais solto e mergulha em memórias e inspirações mais
profundas.

O verdadeiro mergulho interno pode significar, na verdade,
um vôo ao sabor dos ventos da inspiração. A humanidade
plugada de hoje em dia está cada vez mais distante dessa
fonte interna de idéias, pois encontra-se constantemente
ocupada em se manter online.

Se, em vez disso, a pessoa lança mão rapidamente do celular para não se
sentir "vazia", então abafa imediatamente o tédio com uma conversa às vezes
boba, uma mensagem SMS ou um joguinho. E agora, bem sabemos, pode-se até
assistir TV no celular.

Se os gênios e grandes escritores do passado tivessem esses celulares e
smartphones sofisticados à mão e tivessem a certeza de possuir no bolso seu
mundo particular inteiro, talvez nunca tivessem sido produzidos os grandes
inventos e as obras artísticas que mudaram o mundo.

A conectividade obviamente tem sérias vantagens. — os pais podem ficar de
olho nos filhos; amigos distantes podem papear; e as pessoas se sentem mais
a salvo. Mas tem havido pouca discussão pública sobre os impactos
sociológicos e psicológicos causados pela tecnologia. Como muitas da
mudanças do mundo moderno, os avanços tecnológicos estão se enraizando nas
pessoas, mudando radicalmente seu comportamento e suas expectativas de
maneiras que pouca gente foi capaz de prever.

Houve um tempo que automóveis eram novidade, botar
gasolina era difícil e as estradas eram ruins. Hoje, porém,
o mundo moderno é construído sobre uma infra-estrutura
automobilística, é quase impossível ir a certos lugares
sem um carro. Bem, isso quando não ficamos presos
num engarrafamento, como este, numa cidade chinesa.

Nós estamos estabelecendo uma sociedade que funciona baseada em tecnologia e
o celular está se encaixando perfeitamente nesse modelo. É cada vez mais
difícil imaginar um mundo futuro sem conectividade permanente e onipresente.
E nesse mundo, os momentos de micro-tédio vão diminuir nossa tolerância até
mesmo a poucos segundos de tempo vazio.

Paradoxalmente, à medida que essas supostas curas para o tédio vão
proliferando, as pessoas não parecem estar menos entediadas. Na verdade,
elas ficam pulando de galho em galho com mais rapidez e vitalidade. Ou seja,
a cura tecnológica para o tédio não está funcionando, pelo contrário, só
está gerando mais inquietação, aceleração e impaciência.

Alguns psicólogos têm até notado um olhar mais abobalhado no semblante dos
estudantes plugados de hoje em dia, alunos que fazem parte da chamada
"cultura laptop". Esses jovens têm muito mais canais para contato social,
mil coisas para fazer online. Mas ainda sim eles parecem dormentes,
paralisados e apáticos. Não estão necessariamente entediados, mas também não
parecem se interessar profundamente por nada.

O que esse plugados precisam, se quiserem escapar disso, é ir gradativamente
aumentando sua tolerância a pequenos momentos de tédio, aceitando períodos
cada vez mais longos, mas sem exagero, é claro. Só assim, terão um tempo
para tentar mergulhos interiores mais profundos. Mas, obviamente, não
podemos esperar que esses "contectóides" consigam escapar de seu vício
sozinhos. Eles precisarão de ajuda.

A saída da apatia, da superficialidade e da
sensação de vazio pode não ser fácil e provavelmente
vai exigir coragem, determinação e persistência
para nos libertar de um atoleiro de confusão.

Talvez estejamos próximos de uma época em que as pessoas vão pagar por
terapias, cursos e workshops de desintoxicação tecnológica e de
reaprendizado de tédio. Como relaxar? Como se desconectar? Quem viver verá.

Ou então, a grande massa vai jogar mesmo tudo pro alto e continuar se
importando mesmo apenas com o celular que está vibrando e que tem mensagem
nova. Vão dar prioridade máxima à caixa de entrada que está novamente cheia
de emails novos, e com um hilário vídeo novo no YouTube, esse que está todo
mundo comentando e a gente não pode deixar de assistir... só para não ficar
de fora da onda.

Vejamos como iremos reagir entre tédios e atividades frenéticas. Pense
nessas coisas. Só escrevo sobre isso porque quero que você pense, bata papo,
discuta e promova uma mudança interna em você e nos que lhe são queridos ou
próximos. Mas é apenas uma sugestão. Se estiver numa boa com sua fome de
conexão ininterrupta, então mete bronca e toca adiante.

 Puiblicado em http://forumpcs.com.br/coluna.php?b=247914


-- 

 - c.a.t.
   http://catalisando.com

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