Prezado Dr. Guilherme,
 

O poema foi publicado no livro No caminho com Maiakóvski, Eduardo Alves da Costa, Editora Círculo do Livro, 1988, página 40, caixa postal: 01051 - São Paulo - SP.

Além desse livro, tenho notícia que o autor publicou os seguintes :

-    O tocador de atabaque, edição do autor, 1969;
-    Poesia viva, Editora Civilização Brasileira, 1969;
-    Poetas Novos do Brasil, Instituto Nacional do Livro, 1969;
-    Chongas, romance, Editora Ática, 1974;

O poema na íntegra:

No caminho, com Maiacóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiacóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
 o coração grita - MENTIRA !

Em virtude de problemas técnicos de meu provedor não me foi possível perceber se foi remetida esta mensagem, razão pela qual a reeditei e ora reencaminho, com minhas desculpas se em duplicidade.
 

Atenciosamente,
 

Luiz Tarcísio
[EMAIL PROTECTED]

Responder a