9 de novembro de 2004 Versão on line
PLANTÃO
08/11/2004 - 16h51m
Juiz nega ter exigido ser chamado de 'doutor' ou 'excelência'

Miguel Conde - Globo Online

RIO - O juiz da 6ª Vara Cível de São Gonçalo, Antonio Marreiro da Silva Melo Neto, disse nessa segunda-feira que ao contrário do noticiado anteriormente não entrou com uma ação na Justiça para que condôminos e funcionários de seu prédio em Niterói fossem obrigados a tratá-lo apenas por "doutor" ou "excelência". O juiz disse que solicitou na ação, movida contra a síndica do edifício, Jeanette Granato, que os funcionários fossem orientados, e não obrigados, a tratá-lo por "senhor ou "doutor":

- Eu chamo os funcionários de senhor e eles fazem o mesmo. Apenas um estava muito íntimo, me chamando de você e tendo atitudes agressivas. Pedi para ser chamado de senhor e ele se recusou, me chamou de cara e ficou dizendo "fala sério, fala sério". Mas a ação não é por causa disso, e sim por causa do comportamento da síndica, que se omite dolosamente. Se este funcionário a chamasse de 'você', seria demitido.

O juiz afirmou que seu carro foi arranhado e teve os pneus furados dentro do condomínio, e que bilhetes ofensivos foram fixados no pára-brisa. Ele disse que o tratamento de 'você' é um 'desrespeito menor', mas que dá margem a desrespeitos mais graves.

- É um desrespeito menor? É. Mas gravíssimo pois a partir daí vem todo desrespeito. As pessoas subiam sem ser anunciadas ao meu apartamento quando este funcionário estava de serviço. É um absurdo um juiz pedir para ser chamado de senhor? O inusitado nessa história é que tenha que propor uma ação para algo que deveria acontecer espontaneamente.

Marreiros afirmou que o tratamento informal não o incomoda, se houver uma intimidade que o justifique.

- Os outros porteiros me chamam de senhor e eu os chamo de senhor. Mas no prédio onde mora minha mãe, e o porteiro me conhece desde criança e tem carinho por mim, ele me chama de você. Octavio Paz tem uma frase em que ele diz que quando uma sociedade se decompõe a primeira coisa que se corrompe é a linguagem - disse, citando o poeta e ensaísta mexicano vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1990.

O juiz afirmou ainda que a síndica fala contra ele em assembléias de condomínio e passou informações para a imprensa com o objetivo de submetê-lo à execração pública. Marreiros queixou-se ainda do presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro, Octávio Gomes, que se disse estarrecido com a liminar em favor de Marreiros concedida pelo desembargador Gilberto Dutra Moreira, da 9ª Câmara Cível.

- Uma das formas de punição no início do século XIX era a execração pública. Estou sento acusado, sem processo e sem chance de defesa. O bom julgador tem que se colocar no lugar das partes para julgar direito. O doutor Octávio Gomes mora num prédio. Será que ele é chamado de 'você' pelos funcionários?

A síndica Jeannete Granato não foi encontrada pelo Globo Online para comentar as afirmações do juiz.

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