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Ele mandou o Brasil para o
espaço
Por GUSTAVO GANTOIS Marcos Pontes, o astronauta brasileiro, não sabia o que fazer depois de voltar do espaço, em abril. Não posso subir mais na carreira e nem me sujeitar a ser subalterno dos meus colegas, confidenciava aos amigos militares. A resposta veio de Fátima, sua mulher. Peça a reserva. Pontes pediu desligamento das Forças Armadas com aposentadoria de R$ 5 mil. Agora, está acertando uma trabalho de consultoria para a Fiesp, que pretende montar um núcleo de apoio à indústria aero-espacial. Pontes também sonha cobrar entre R$ 10 mil e R$ 20 mil por palestra à iniciativa privada. Depois de oito anos em treinamentos, que custaram US$ 10 milhões aos cofres públicos, equivalentes a 150 bolsas de doutorado no Exterior, muitos acreditam que Pontes mandou a ética para o espaço. Dentro do Ministério de Ciência e Tecnologia de onde veio o dinheiro que o pôs em órbita - sua saída causou perplexidade. Ninguém antecipou que Pontes pudesse, tão rapidamente, pôr a serviço próprio as informações que recebeu dos governos brasileiro, russo e americano. Foi uma traição ao investimento que fizemos nele, fulmina um ministro da área econômica, escondido no anonimato. Ele deveria ter esperado. Nos Estados Unidos, os militares que participam do programa espacial
permanecem vinculados à Nasa. Fazem palestras e atuam como consultores
remunerados, mas não antes de se dedicarem por dois anos à instituição que
investiu neles. A indústria é essencial ao programa espacial, mas não podemos
fazer essa transferência de recursos humanos de graça, afirma Nora Lehman,
porta-voz da Nasa. Em sua defesa, Pontes afirma que os milhões gastos pela
Agência Espacial Brasileira foram para os oito experimentos que fez durante o
vôo espacial, como a germinação de feijões em microgravidade. O governo
investiu na realização de uma missão que julgou ser de importância para a
ciência e para a visibilidade do próprio governo, afirma. Absolutamente
verdadeira, essa informação não altera o fato de que Pontes deveria ter alguma
espécie de compromisso pessoal com a AEB. Ao virar as costas ao Estado que
(certo ou errado) pôs tempo e dinheiro em sua formação, ele dá margem para ser
percebido como um mero arrivista. Enio Candotti, presidente da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência é taxativo. Foi uma carona paga,
afirma. Agora ele deve passar a vender bonequinhos. Candotti refere-se ao link
da loja virtual que Pontes mantém em seu site. Nela é possível comprar
camisetas, chaveiros e adesivos com o nome do ex-astronauta. A aventura espacial
brasileira não poderia terminar de forma mais mesquinha do que essa.
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