Li essa matéria na revista on line de PEGN:
http://empresas.globo.com/Empresasenegocios/0,19125,ERA1256424-2882,00.html
Diz o texto:
>>>>> Inicio do texto da matéria
A pirataria é responsável pela eliminação de 1,5 milhão de postos de
trabalho por ano no Brasil, segundo o presidente da Associação
Brasileira da Propriedade Intelectual (ABPI), Gustavo Starling
Leonardos, como informa o site InfoMoney.
Leonardos disse que cerca de 30 bilhões de reais em impostos deixam de
ser arrecadados em função desses produtos, que desembarcariam do
exterior em 75% dos casos. Segundo a ABPI, 64% dos softwares
utilizados no Brasil são ilegais, o que gera uma enorme perda de
circulação.
>>>>> Fim do texto da matéria
Ok, nenhum de nós deve incentivar ou pactuar da pirataria, mas
vamos raciocinar um pouco a respeito desta questão:
Quais são exatamente os "postos de trabalho" que a pirataria
elimina?
Me lembro que durante uma certa época não era possível
comercializar calças jeans no Brasil, não sei porque, não sei
como, só sei que por muito tempo as calças jeans só chegavam a
nós por meio de importação, eu tinha pouco mais de 14 anos e sei
que me incomodava não poder usar aquelas calças legais, porque
custavam absurdamente caro nas lojas que importavam.
Na época eu certamente ficaria mais indignado se soubesse - como
sei hoje - que as calças jeans foram criadas para ser um
produto barato, segundo as histórias apareceram na época da
corrida do ouro, nos EUA, feitas para aguentar o trabalho duro
dos mineradores, depois cairam no gosto popular.
Claro que muita coisa mudou de lá para cá, mas assim como as
calças jeans e as leis desconhecidas que fizeram com que
ficassem fora das lojas por tanto tempo, vemos hoje essa
conversa de "pirataria".
Ontem fui comprar tênis e tinha modelos NIKE e outras linhas que
investem muito em propaganda sendo vendidos por 60 pratas (e
ainda achei caro) mas um passeio posterior no Shopping permitiu
ver que os mesmos tipos de tênis custavam R$ 400,00 ou mais
naquelas lojas.
Sinceramente... não quero pagar R$ 400,00 por um par de tênis
e estou pouco me lixando para a marca dele, quero que fique
confortável no meu pé e que eu considere de aparência agradável.
Será que pagar R$ 400,00 por um tênis da Nike (que TAMBÉM não é
fabricado no Brasil) vai ajudar a diminuir esse 1 milhão e meio
de postos de trabalho que o presidente da ABPI teve o trabalho
de nos informar que existem?
Creio que não. Só quem perde com isso é a Nike, empresa
conhecida mais por investir pesadamente em publicidade do que em
tecnologia ou geração de empregos.
Claro que o exemplo é capcioso, mas vamos esquecer as grandes
marcas e pensar na pirataria do R$ 1,99. Essas coisas que chegam
da Asia e lotam as lojas de 1,99 e acabam nas nossas prateleiras
com as mais diversas funções.
A grande verdade é que o Brasil sempre foi deficiente nesta
área, não sei os motivos que haviam antes da febre destes
importabandos começar - por volta de 1990 - mas é fato que se
precisassemos de um copo barato, de um prato barato ou muitas
outras coisas baratas elas não existiam.
Ou seja, não havia postos de trabalho cobrindo essa área e
sinceramente não acredito que possa haver, porque o governo e a
legislação brasileira com suas taxas extorsivas não permite que
uma empresa contrate pessoas a baixo custo para produzir
mercadorias a baixo custo.
Não sei como estas mercadorias entram no país, mas as lojas que
as vendem tem licença da prefeitura para funcionar, então
partindo do princípio que as instituições estão funcionando
regularmente é lícito imaginar ou que é puramente uma questão de
concorrência comercial ou que nossas instituições não servem
para nada.
1.5 milhão de postos de trabalho por ano, meio por cento da
população estimada do pais. Mas quem contou quantos camelôs
"trabalham" em todo o país apenas vivendo do subproduto gerado
pela pirataria?
Eles não estão lá porque gostam de ser camêlos, é um trabalho
duro como qualquer outro e ainda com o estresse de apanhar da
polícia e aí vem outra pergunta: Quantos postos de trabalho na
polícia foram gerados por guardas municipais apenas para
combater os camelos?
E todo o pessoal envolvido em transportar, manusear e lidar com
essa mercadoria informal?
O que faria toda essa gente? Não seriam exatamente eles o tal
1.5 milhão de desempregados? E as instituições formais estão
realmente pensando no bem estar destas pessoas ou apenas querem
que eles se coloquem a disposição de uma formalização que em 500
anos estas mesmas instituições jamais souberam resolver?
Vamos voltar agora para o cachorro grande... software.
A industria do software, e inclua-se aí discos de música, DVDs e
congeneres é uma industria interessante, com uma
quantidade reduzida de pessoas se faz uma música, um filme, um
software. Estas pessoas costumam ser muito bem remuneradas por
seu trabalho, mas fazem parte de um grupo privilegiado, de uma
elite e acima deles existe uma elite ainda mais privilegiada que
são os donos das empresas que distribuem este software.
A geração de emprego real que existe a partir da distribuição de
um software é exatamente a mesma que existe no mercado informal.
Um motorista de caminhão não ganha mais se transportar
mercadoria pirata ou "legal" ele ganha por transportar e o valor
será o mesmo se for um CD virgem ou um CD com a última música da
dupla caipira mais famosa.
O vendedor de uma loja de discos não ganha mais do que o camêlo,
nem o gerente e provavelmente nem o dono da loja.
Claro que o vendedor de uma loja de software de computador
teoricamente precisaria de uma formação maior do que a do camêlo
que vende software na esquina, mas acompanho este mercado desde
1980 e posso dizer com toda segurança que o camêlo da esquina
entende mais da mercadoria que vende do que o vendedor de
gravata da loja mais sofisticada.
Ou seja, em termos de "postos de trabalho" não é a pirataria a
"responsável" mas sim as políticas erradas das próprias
instituições, inclusive a ABPI que faz a denúncia, que
insistem em privilegiar SEMPRE uma minoria.
A questão moral é mais complexa, evidentemente as pessoas não se
sentem confortáveis usando roupa com grife pirata mas a maioria
das pessoas não quer exatamente usar roupas ou calçados de
grife, elas são induzidas a isso por práticas de propaganda, o
que elas desejam REALMENTE é usar uma roupa e um calçado
confortável e para fazer isso não precisa de uma grife, basta
investir nos pequenos empresários que eles se encarregam de
fazer o melhor neste sentido... mas cadê esse investimento?
Na questão do software de computador, o mundo inteiro está
aprendendo uma lição que vai mudar a forma como TODO o software
terá que funcionar.
Não há porque a música de um cantor popular ser mais valorizada
do que a de outro menos popular apenas porque a mídia a divulga
mais, o que precisa é dar condições aos MILHARES de bons
cantores que existem possam gravar sua música e disponibiliza-la
em locais como a Internet para que possam conquistar seu público
pela QUALIDADE de seu trabalho e não porque alguns cafetões da
industria do show business dizem que é a melhor.
O mesmo vale para filmes e principalmente para programas de
computador, o código aberto demonstra que é possível fazer
excelentes programas sem manter isso restrito a uma empresa
privilegiada por leis que ela mesma não respeita, como a
Microsoft, que gerou as maiores fortunas do mundo nas mãos de
umas poucas pessoas que se empenham mais em manter seu status do
que em realmente fazer algo por uma comunidade que envolve não
apenas um país, mas ao mundo inteiro.
E ganha-se dinheiro - e muito - com o código aberto, ganha-se
principalmente porque existe REALMENTE uma roda girando e
ampliando as possibilidades de negócios, coisa que o modelo
antigo nunca permitiu.
Na verdade o que a matéria acima quer privilegiar é a manutenção
das vantagens de empresas que jamais se preocuparam em toda sua
existência com os muito mais de 1.5 milhões de desempregados e
que querem mesmo é apenas sugar o que lhe for possível, vendendo
produtos a preços extorsivos e manter privilégios que podem ser
legais, mas são imorais e tornam os "não piratas" piores do que
o mal que desejam que A GENTE combata.
Ontem não comprei nenhum dos tênis de 60 reais, tampouco comprei
os de 400, mas gostaria - sinceramente - de que minha escolha
fosse apenas de quanto pagar e de escolher uma mercadoria que me
agradasse e não se terei que comprar no camelô ou na loja.
Quanto aos programas... nunca fiz segredo de que meu micro está
cheio de programas de todos os tipos, vindos a maioria da
Internet.
Muitos eu nem precisaria pagar, o autor simplesmente diz: Pague
se estiver satisfeito e eu pago com prazer, principalmente
quando posso.
Já os que tem o desplante de cobrar valores acima do valor do
próprio computador para que eu possa usar um programa que as
vezes sou obrigado a usar apenas para atender um mercado que foi
inflado artificialmente pelo próprio produtor... estes me
desculpem, mas se tem leis que garantem seu direito de chiar,
existem outras que me garantem o direito de usa-los sem pagar.
Eu preferia pagar, claro, e a qualquer um dos que uso
profissionalmente pago e pagarei tantas vezes quantas sejam
necessárias pois eles geram dinheiro, fazem a engrenagem do
mercado girar e se eu próprio quero que me paguem pelo meu
trabalho tenho que fazer minha parte.
Já paguei tantas vezes pelo sistema operacional da Microsoft que
na parte de questionamento moral e ético considero que são eles
que estão em dívida comigo e não eu com eles por usar uma cópia
que igualmente eles tem o direito de considerar não autorizada,
mas as leis que lhe permitem isso também me permitem continuar a
usar.
Quanto aos outros produtos...
Não uso roupas e nem produtos de grife, quando os tenho é porque
alguém me deu e muitas vezes uso por mera educação porque grife
jamais foi sinônimo de qualidade.
As maiores empresas são exatamente as que exploram mais o
trabalhador, por isso mesmo tenho preferência em que se invista
nas médias e pequenas, estas sim capazes de fazer mudar o quadro
de desemprego e principalmente da falta de decência no mercado
de trabalho onde as pessoas são obrigadas a passar uma vida
inteira fazendo algo que não gostam e que provavelmente fazem
mal para se adequar a todo um esquema que já nasceu furado,
continua furado e vai continuar furado enquanto se der ouvidos a
matérias sensacionalistas e inócuas de revistas ou de diretores
de instituições que vivem lá em seu mundinho privado e tem pouca
noção do que acontece nas ruas e no dia-a-dia das pessoas.
Naturalmente não tenho a solução... foi apenas um desabafo ao
ler uma notícia de quem precisava completar sua cota de trabalho
para se sentir útil e puxar o saquinho de mais um cacique.
Grande abraço,
Divino Leitão
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