Grupos.com.br29/12/2006 - 09h57m
CIENTISTAS ESTÃO PERTO DE ACHAR O 'GENE DA RESSACA'
Estudo revelou raiz da tolerância ao álcool em moscas-das-frutas.
Bebida 'à prova de ressaca' é possibilidade para o futuro.

Reinaldo José Lopes, do G1, em São Paulo
Uma boa notícia para quem costuma exagerar na comemoração do Ano Novo e
beber um pouco (ou muito) a mais: a ciência está cada vez mais próxima de
identificar os mecanismos que tornam o nosso organismo mais tolerante ao
álcool, e portanto mais vulnerável a uma ressaca depois do consumo exagerado
da substância. Algumas pesquisas apontam até a possibilidade de criar um
novo tipo de bebida alcoólica, capaz de proporcionar apenas efeitos
positivos -- sem ressaca e sem dependência.

Um dos principais avanços nos últimos tempos veio do trabalho de Henrike
Scholz, da Universidade de Würzburg, na Alemanha, e Ulrike Heberlein, da
Universidade da Califórnia em San Francisco (Estados Unidos). A dupla de
pesquisadoras descobriu um gene que parece ser crucial para a resistência ao
álcool. Elas batizaram o pedaço de DNA com o sugestivo nome de hangover
(ressaca, em inglês).

O achado veio do estudo de drosófilas, ou moscas-das-frutas, insetos que são
muito usados no estudo da genética em laboratório. "Um trabalho recente de
outro grupo afirmou ter o encontrado o equivalente do hangover em humanos,
mas a semelhança com o gene das moscas-das-frutas é muito pequena", contou
Henrike Scholz ao G1. "Mas, mesmo que eles estejam errados, é só uma questão
de tempo até que se descubra um análogo em pessoas", avalia ela.

Para encontrar o gene, elas submeteram as mosquinhas a um teste de
resistência alcoólica. Os insetos eram colocados numa série de plataformas e
expostos ao álcool em forma gasosa. Algumas moscas caíam mais rápido na
plataforma mais baixa, totalmente bêbadas, enquanto outras agüentavam mais
tempo. As pesquisadoras descobriram que as drosófilas mais "fracas" diante
da bebida tinham justamente o gene hangover desligado.

Contra o estresse
Resta saber, no entanto, qual o papel exato do hangover, já que outros genes
também parecem estar ligados à maneira como o organismo reage ao álcool. "É
isso que estamos estudando agora, o que ele faz exatamente nos neurônios
[células nervosas]", diz Scholz.

"Meu palpite é que ele ajuda as células a lidar com várias formas de
estresse", sugere Ulrike Heberlein. "Como o álcool causa estresse oxidativo
[o surgimento dos chamados radicais livres, que causam dano às células],
esse é um mecanismo possível."

As pesquisadoras explicam que, a partir de agora, a idéia é identificar uma
forma do gene em humanos e camundongos. A partir daí, seria possível
manipular a ação do hangover e observar os efeitos disso no consumo de
álcool e na ressaca causada por ele.

Os dados, nesse caso, são conflitantes. Alguns estudos sugerem que as
pessoas que bebem muito (e portanto são tolerantes ao álcool) são as que
mais sofrem com ressacas posteriores. Outros, porém, indicam que as ressacas
são mais comuns entre os que são pouco tolerantes à bebida, e por isso
precisam de poucas doses para que o problema ocorra.

O melhor dos dois mundos
Enquanto o funcionamento do hangover não é elucidado, outros pesquisadores,
como o britânico David Nutt, da Universidade de Bristol, apostam numa
estratégia ainda mais radical para acabar de vez com os porres e ressacas do
fim de ano (e do resto do ano também). E se fosse possível replicar os
efeitos de relaxamento, melhora de sociabilidade e euforia trazidos pelo
álcool sem o lado ruim da bebida?

Alguns cientistas apostam que isso é factível, graças a novos conhecimento
sobre a ação do álcool no sistema nervoso. Segundo esses estudos, a sensação
prazerosa ligada ao consumo da bebida vem de sua atividade sobre o Gaba, um
neurotransmissor (mensageiro químico do cérebro). O álcool age sobre os
receptores do Gaba, ou seja, as fechaduras químicas nas quais o
neurotransmissor se "encaixa".

Nutt, por exemplo, já encontrou substâncias que agem sobre os receptores do
Gaba e impedem os problemas de memória ligados à embriaguez. Ele também não
descarta a possibilidade de criar uma pílula que causasse basicamente as
mesmas sensações do consumo de álcool, mas sem os efeitos nocivos.

O grande problema a contornar, nesse caso, é a questão do gosto -- afinal,
muita gente aprecia o sabor das bebidas alcoólicas. Para Nutt, no entanto,
esse obstáculo não é instransponível. Segundo ele, as pessoas aprendem a
associar o sabor do álcool com algo prazeroso por causa de seus efeitos
sobre o cérebro. Por outro lado, também seria possível tentar imitar esse
sabor com outras substâncias não-alcoólicas, embora não se saiba se o
resultado agradaria o paladar.

São idéias promissoras. Mas, no pé em que as coisas estão hoje, o melhor
talvez seja seguir o conselho de Henrike Scholz: "A melhor estratégia é
controlar o uso de álcool e não beber demais. Qualquer outro tipo de dano é
difícil de reverter".

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